Menos de 24 horas depois de o eleitorado brasileiro escolher um candidato racista, homofóbico, misógino e sem qualquer conhecimento econômico como 42º presidente da República, os casos de preconceito se multiplicam a perder de vista. Dentro e fora das redes sociais.

É postagem sobre “abertura oficial de caça aos negros, gays e comunistas”. É foto de um menino FANTASIADO DE ESCRAVO cuja legenda diz “vamos abrasileirar o negócio”. É gente cobrando que determinada cantora drag queen cumpra a promessa e deixe o país. Basta ter estômago e dar um breve passeio no Facebook e Instagram.

Por tratar-se de uma figura pública, o caso da global Erika Januza ganhou repercussão. E fez a atriz publicar um posicionamento veemente contra os ataques que sofreu de uma usuária cujos argumentos eu não publico aqui para não alimentar o ódio em outras pessoas. Não vale a pena.

O que vale a pena é divulgarmos o manifesto da Erika. Lindo. Forte. Sensível. Transcrevi os dois vídeos postados no perfil oficial dela no Instagram e coloco aqui, na íntegra.

“Quero agradecer a todas as mensagens de apoio que tenho recebido. Quando uma pessoa sofre um ataque racista, o ataque não é só a ela. Quando atacam um negro, estão atacando todos os outros. Eu ainda tenho um espaço pra falar, mas tem tanta gente que passa por tanta coisa, é obrigada a ouvir tanta coisa e não tem como se defender. É muito triste.

O problema está com quem faz. E não comigo, que sou negra. Eu amo ser negra. Na próxima vida, quero vir negra de novo.

Esse tipo de ataque me faz mais forte. Porque é sinal que eu tô incomodando de alguma forma. A gente incomoda porque a gente é forte. Então, a cada dia que acontecer alguma coisa com você, não se rebaixe. Não se iguale a essa pessoa. Use isso pra lutar pra defender outros. A cor da minha pele não tem que ser motivo pra eu passar por nenhum tipo de ofensa.”

Em dois vídeos curtinhos, Erika resume bem o cenário do racismo no Brasil, admite ter privilégios em relação a outros negros que sequer podem se defender, traça o perfil do agressor, identifica a causa do problema e sugere como outros negros devem encarar a dor.

Praticamente um tutorial do que devemos presenciar pelos próximos anos. Sim, serão tempos tenebrosos. É sintomático um país com 54% da população negra (pretos e pardos) eleger um candidato racista. Além da vergonha internacional que estamos passando em decorrência disso, é preocupante – para dizer o mínimo – ver tanta gente disposta a agredir verbal e fisicamente.

Ou o brasileiro não se reconhece majoritariamente negro (apesar de autodeclarar-se assim) ou não dá a mínima para a importância da pluralidade de uma população. Muita gente encontra no discurso do candidato eleito uma justificativa para cometer crime de racismo ou atos de homofobia e misoginia.

Se as instituições do estado democrático de direito não estiverem prontas para o que se avizinha, ataques como o sofrido por Erika serão ainda mais rotineiros. Passou da hora de o Brasil ter delegacias especializadas em crimes cibernéticos! Poucos estados contam com esse tipo de estrutura. Sem ela, a Internet é território de qualquer um.

Inclusive, e principalmente, dos fascistas.

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One comment

"A gente incomoda porque a gente é forte"

  1. Jessica,quero aqui deixar os meus agradecimentos.Sim,agradeçer por vc fazer diferença nessa vida,nesse mundo!Vá em frente,e precisando de abranger o tema,estarei aqui pra ajudar na divulgação „Weltweit“(mundo a fora).Eu sei como é gratificante fazer parte de instituições humanitárias.Sou ativa no Terres des Homes,Helwetia,Frauenverein Nürensdorf..etc.Moro num país com 8milhões de habitantes.E que os temas:(problemática/%baixo)Homofobia,racismo,etc..não são prioridades.O respeito ao ser humano é a prioridade em foco.Demonstrada desde o jardim de infançia ou até antes.Desejo a vocês de coração muito sucesso e muita força pra combater com sabedoria os obstáculos que estarão por vir.Grata pela existênçia de voçes participantes ativos.Take care❤️Tia Ção Professora(Brasil) e líder de grupos infantis na região de Zurique e arredores(Suíça).

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