Tem só 134 anos, uma esquina breve nos caminhos da história, que a escravidão deixou de ser legal no Ceará. Há pouco mais de um século, quase nada, seres humanos não são mais tratados como mercadoria, escória e animais sem alma, pelo menos do ponto de hierarquizado do Brasil Colonial.

Qualquer comemoração pelo fim deste ciclo, porém, é recente. O Ceará passou a celebrar o fim do sistema escravagista apenas em 2012. Sim, 128 anos depois de os negros escravizados serem libertos. Tão perto, tão longe. E fruto de lei proposta por um deputado estadual autodeclarado…pardo, após pressão e articulação do movimento…negro.

Mas diferente de outros estados a ”glória” da população negra tem visibilidade aqui, na verdade, em 25 de março. Foi nesta data – em 1884 – que a escravidão chegou ao fim no Ceará. E é ela que consta no calendário de datas oficiais do Governo. Noutras localidades, o 20 de novembro é o marco principal por ser quando se festeja o Dia da Consciência Negra.

Neste ano, hoje (20/11) é feriado em 1.047 cidades brasileiras. No Ceará, diversos equipamentos culturais oferecem programação alusiva à data. De mesas redondas à exibição de filmes. De oficinas a exposições fotográficas. Quase tudo gratuito. Os órgãos públicos, entretanto, funcionam normalmente.

Muita gente sequer sabe o que aconteceu em 20 de novembro de 1695 que justifique uma reverência nacional desde 2003. Em Mato Grosso, Rio de Janeiro, Amazonas, Amapá, Alagoas e Maranhão, esta terça-feira é dia de celebração e reflexão. Feriados decretados em leis estaduais, a reboque da lei federal de 15 anos atrás.

“Nós fazemos de conta que não existimos, quando nós temos é que reconhecer a importância de falarmos de nós mesmos. Por mais que o Brasil seja um país miscigenado, ninguém é uma ‘salada de frutas’. Todos temos ancestralidade. E sem ancestralidade você não vai a lugar nenhum. Sem memória, os povos desaparecem. Neste sentido, o estímulo ao processo de negação da existência e importância do povo negro é proposital”,

pontua a coordenadora do Núcleo de Africanidades Cearenses e doutora em Ciências da Educação, professora Sandra Haydée Petit. (Textos: Bruno de Castro e Rafael Ayala/ Mapa e ilustrações: Jéssica Carneiro)

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