No estado brasileiro onde negros não povoam o imaginário popular; onde “essa história de que preto existiu aqui é conversa fiada”; e onde “se teve preto, foi pouco, quase nada”, 85 comunidades quilombolas resistem no Ceará. Ao tempo. À tirania dos homens. À vilania dos sistemas. Ao embranquecimento dos corpos. À invisibilização dos povos.

Localizados em diversas regiões do estado, esses pedaços de chão reúnem grupos com trajetória própria. Reminiscências gêmeas. São prova viva tanto de que o povo preto existe aqui quanto de como ele é imenso, combatente e necessário para a composição da sociedade brasileira. Do contrário, esses lugares sequer existiriam. Tampouco seriam reconhecidos por organismos especializados na luta pela garantia de direitos étnico-raciais.

Essas 85 comunidades quilombolas cearenses estão em 41 cidades, conforme estudo da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Ceará (Cerquice) – e contrariando a mística tão alardeada de que os negros são desimportantes para a nossa história, já que até foram libertados da escravidão antes do resto do Brasil, em 1884. Nacionalmente, a abolição ocorreu apenas em 1888.

“A nossa formação é para as pessoas não quererem saber da nossa história. É para naturalizarmos o negro como um ser inferior. Para negarmos o protagonismo do povo africano. Porque o racismo é um projeto de nação. Mas nós existimos! Nós fazemos parte da história! Nós somos importantes! Nós temos a nossa própria história! E politizar isso é tirar o problema da esfera privada e colocar na esfera pública”,

sintetiza a titular da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial do Governo do Estado do Ceará e doutora em Sociologia, professora Maria Zelma de Araújo Madeira.

Nenhuma dessas comunidades oficialmente reconhecidas pela Cerquice está em Fortaleza, o maior aglomerado habitacional cearense. É da segunda cidade mais populosa do Estado, no entanto, onde há recorde também de indígenas e ciganos, o título de maior quantidade de redutos negros do Ceará. Caucaia, na Região Metropolitana da capital, tem 11 quilombos.

O total é quase o dobro de Novo Oriente, cidade do Sertão dos Inhamuns, onde seis populações quilombolas diferentes são reconhecidas pela Cerquice.

“O Ceará sofre influência de países da África, como Congo e Angola. Os negros escravizados aqui trabalharam no Cariri, em busca de ouro, e em outras regiões com atividade agrícola e pecuária e na Casa-grande. O Ceará é reconhecido por não ter negros, mas a formação da população cearense tem fortes influências africanas, sim. A escravidão do Ceará não aconteceu de forma branda, como contam alguns historiadores. Esses quilombos são sinais de lutas e resistência”,

desmistifica a integrante do grupo Ética, Diversidade Étnico-Racial e Currículo da Universidade Estadual do Ceará (UECE), professora Emanuela Ferreira Matias.

Atualmente, a Cerquice desenvolve um novo trabalho de identificação e reconhecimento de mais comunidades quilombolas no Ceará. Isso pode fazer com que o número de grupos passe de 100. Um aumento mínimo, portanto, de quase 20%.

“A falta de conhecimento sobre termos negros no Ceará relaciona-se com o racismo e nega a presença desse grupo étnico no território com a visível intenção de negar direitos. As comunidades quilombolas hoje lutam para existir. A maior parte delas são rurais e vivem da agricultura de subsistência. Muitas sofrem com a falta de reconhecimento dos governantes”,

critica a Mestre em Educação e membro de movimentos sociais sobre relações étnico-raciais, pedagoga Samia Paula dos Santos Silva.

(Textos: Bruno de Castro e Rafael Ayala/ Mapa e ilustrações: Jéssica Carneiro)

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