O BIG BROTHER BRASIL 2019 mal começou e parece já estar dando muito pano para manga. Não importa se você é fanático do programa ou julga de alienada(o) àqueles que assistem: os debates que estão “rolando” dentro da casa estão na boca do povo e viraram trending topics, ajudando a muita gente entender, através do entretenimento “fútil”, temas que são tão caros à luta pela igualdade racial.

Ao contrário das costumeiras fofocas rasas, intrigas e paredões que já não mais surpreendem os espectadores, a edição do reality deste ano trouxe com seus participantes a discussão sobre pertencimento étnico, descobrir-se negra(o), racismo, pautas pouquíssimas vezes trazidas com tanta coerência nas edições anteriores.

Para além do entretenimento, a presença da Gabi, do Danrley, do Rodrigo e da Rízia no BBB 19 parece não estar passando desapercebida. Têm ultrapassado a questão da representatividade no programa (aquela famosa “cota” para passar pano na ausência da diversidade étnica).

As lições que já podemos aprender com nossas(os) brothers em tão pouco tempo de confinamento são motivo de reflexão. Independentemente de quem dá audiência ou não ao reality, os ensinamentos continuam sendo valiosos para todos. Vamos lá?

1– A aula de “racismo reverso”


É muito comum escutar de pessoas não-negras que sofrem algum tipo de preconceito de estarem sendo vítimas de “racismo reverso”. Gabi e Rízia, as brothers pretinhas do BBB, explicaram com bastante delicadeza pras colegas com as quais discutiam porque, diante da frase “mulheres brancas de olhos claros também sofrem preconceito”, não existe racismo reverso. Se seguirmos uma espécie de falso silogismo lógico, facilmente somos enganados pelo conceito de racismo reverso: se um branco pode praticar racismo contra um preto, um preto também pode praticar racismo contra um branco. Não?

Existem duas questões principais que podemos tirar desse embate entre as participantes:

a) O racismo não acontece só quando alguém sofre discriminação ou alguma injúria racial (“preto fedido”, “sua macaca” etc). O racismo, enquanto social, econômica e politicamente estruturado, age de forma não apenas a diminuir a autoestima e a confiança da população preta, mas de maneira a criar todo um sistema de constrangimento, de exclusão e de vulnerabilidade. Não é apenas uma “questão de cor” que pessoas negras sejam 5x mais suscetíveis a serem atingidas por uma bala perdida que um branco; também não é apenas “questão de cor” que brancos tenham 7x mais chances de acessar o ensino superior que os pretos. A questão é estrutural.

b) Seguindo o raciocínio da Gabi (de longe, minha brother preferida… por que será, né? Risos), para que um branco sofresse racismo reverso, seria necessário voltar 400 anos na história e fazer com que a população branca-caucasiana-europeia não apenas fosse escravizada, como fosse arrancada de sua terra natal, afastada de sua família, tivesse sua religião demonizada, tivesse sua autoestima alvejada, fosse submetida a todo tipo de desumanização, tivesse menos chance de acesso à saúde, à empregabilidade, à educação etc. Apenas então, e somente então, é que brancos poderiam sofrer racismo reverso. Todo o resto do discurso que gira em torno deste argumento é, como dizem por aí, “mi mi mi”.

2- Como é ser negro no Brasil


É difícil escolher os trechos mais bacanas das conversas entre o Danrley e a Gabi (dois fofos!), mas uma das conversas que marcou esta edição foi quando os dois falaram sobre o processo de Danrley em descobrir-se negro. Embora seja uma autodescoberta muito embrionária, claramente incentivada pela Gabi, Danrley parece dar vestígios do questionamento que todo mulato/pardo/moreninho/escurinho no Brasil se faz, em algum momento da vida: “o que é que eu sou?”.

De início, aos desavisados de plantão, pode parecer uma questão paradoxal: “como assim descobrir-se negro? Ou você é ou você não é negro”. Pera lá, cara pálida. Não é assim tão simples quanto parece. O Brasil, fruto da dissimulada “democracia racial”, até hoje acredita que a identificação racial tem a ver, sobretudo, com uma paleta de cores: “se você tem até X% de melanina no seu corpo, você ainda não é considerado negro, só se ultrapassar X”. Não é sobre isso. Mesmo.

Enquanto em outros países com forte presença afrodescendente, basta um pouquinho de DNA negro para que se considerem negros (independente da tonalidade da pele), no Brasil, é preciso ser “retinto” para que seja considerado negro.

No seu texto “Negros de pele clara”, a intelectual Sueli Carneiro explica que a branquitude, em nossa sociedade, é considerada diversa e policromática em toda sua variedade de tons, peles, cabelos, traços físicos, enquanto a negritude padece de toda sorte de indagações (“mas você não é tao preto assim…”). Todo negro de pele clara ou escura que se anuncia como “mestiço”, “pardo” ou simplesmente não-preto tem aceitação social garantida.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de ser representados em sua diversidade. (Sueli Carneiro)

Daí a percebemos que no contexto brasileiro, descobrir-se negro faz muito sentido quando temos todo um sistema de apagamento da identidade étnica da população negra, não extinto com a abolição.

3- Não existe cabelo ruim. Ruim é o preconceito


Ao conversarem sobre cabelo e produtos capilares, a brother Paulinha deixou escapar de sua boca “eu também tenho cabelo ruim”. Depois de ser repreendida pela fada empoderada Gabi, Paula admite ter sido acostumada a referir-se aos fios cacheados como “ruins”, revelando o que não só ela, mas toda a população brasileira de uma maneira geral, sente em relação aos traços (textura, cores, tamanho) negros.

O cabelo, como discutimos no post “O que diz seu cabelo crespo?”, é muito mais que estética para o povo preto: é identidade, é pertencimento, é raiz. O “enfeiamento” do cabelo crespo não foi à toa: condiz com todo o legado escravocrata e racista que ainda habita nosso país e que se escondem na linguagem.

Por isso, a afirmação do cabelo afro é uma postura política e de reivindicação identitária. Assim como a reeducação de pessoas comuns que têm preconceito (embora não o admitam) é também uma maneira de atuar fortemente na luta antirracista.

Conclusões

Embora capitalizados pelo entretenimento, é de extrema relevância que esses debates sejam trazidos à população em geral. Se for para ser pelo BBB, que seja. A TV brasileira, enquanto uma forte pedagoga do imaginário e do repertório cultural, ainda tem muita influência sobre o que é pautado fora dela (seja na moda, na política, no entretenimento). É preciso abraçar as pautas da promoção da igualdade racial. E que belo começo, BBB 19! “Nunca critiquei” (risos).

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One comment

A pauta racial no BBB 19: lições importantes

  1. Uma questão, a população egípcia era negra e escravizou o povo judeu, não tinham direito a terra natal, foram afastados de sua família, a religião é demonizada, tiveram a autoestima alvejada e foram dizimados até depois da escravidão pelo nazismo. Nesse caso haveria racismo inverso? Sei que parece provocação, mas, sinceramente, é apenas uma dúvida que gostaria de esclarecer com alguém que entende do assunto.
    Jamais negaria a existência do racismo, apenas não concordo que ele depende de um aspecto histórico, acho que ele está ligado a discriminação de uma raça. Na minha opinião o preconceito contra o “loiro” até existiria, mas é impossível compará-lo com uma pessoa ser morta pela cor de sua pele, a desproporcionalidade que cria o racismo contra o negro e não contra o loiro.
    Mais uma duvida: no mesmo BBB foi discutida a questão do uso da palavra “denegrir” que seria associada ao racismo, mas entendo que palavras não são racistas, pessoas são racistas, como no seu texto, você utiliza a palavra alvejar em um aspecto negativo, mas, literalmente, alvejar significa tornar branco. Seria racismo inverso de palavras.
    Enfim, como eu disse anteriormente, não é uma provocação ou mimimi, apenas quero entender para evoluir. Hoje entendo que racismo inverso não se aplica pela proporção, não pela origem histórica, mas posso estar errado e gostaria de melhorar. Abs

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