Falamos semana passada de alguns filmes da lista do Oscar que trazem a temática racial como elemento, se não central, de grande importância dentro das suas histórias. Green book – O guia é um deles. A questão é que o filme traz um personagem negro (Dr. Don Shirley, pianista clássico, erudito e rico, interpretado por Mahershala Ali) e um personagem branco (Tony “Vallelonga” Lip, “canastrão” de meia idade, descendente de imigrantes italianos, morador do Bronx, interpretado por Viggo Mortensen). Na trama, o Dr. Don Shirley contrata o motorista Tony para acompanhá-lo em uma turnê pelo Sul dos Estados Unidos, no início dos anos 1960.

Esse período é historicamente marcado por uma forte tensão e segregação racial entre negros e brancos, especialmente na região sulista, mesmo quase cem anos após o fim da Guerra Civil americana. Aqui, trago a contextualização tanto para localizar subjetivamente essas figuras – pois, nesse cenário, a experiência de ser negro ou ser branco, para além da questão social, influencia diretamente nas suas decisões e posturas no decorrer do filme, assim como na interação deles com os outros personagens –, quanto para estabelecer um paralelo de verossimilhança da obra, que afirma ser “inspirada em fatos reais”.

O filme é vendido como uma história “inspirada em uma amizade verdadeira” e, numa leitura superficial, parece, e pode até ser, um roteiro sobre a experiência de duas pessoas de perfis aparentemente incompatíveis que aprendem a se respeitar, a se entender e a conviver a partir dessa viagem de carro pelo sul dos EUA. Porém, analisando do ponto de vista do(s) lugar(es) do negro nessa trajetória, inclusive (ou melhor, principalmente) no que nos é mostrado nas imagens, há um custo que não podemos negligenciar. Uma boa perspectiva para essa análise é observar em que situação esses personagens começam e terminam, como são apresentados e como estão na sua última cena.

No início do filme, Tony aparece na função de “relações públicas” no Copacabana (vulgo (The) Copa), espécie de casa noturna frequentada por figurões de Nova Iorque. Nesse contexto, ele se envolve em situações nas quais demonstra que é capaz de usar truculência e cinismo para atingir seus objetivos sem nenhum remorso, o que nos causa uma determinada impressão sobre ele, chegando, em seguida, no seio da família, onde é atencioso e carinhoso com seus filhos e sua esposa, o que nos passa outra impressão. E é nesse paradoxo que se constrói o caráter de Tony Lip. Agora, vejamos a forma como isso é mostrado no filme:

       

Tony entra em quadro acompanhando um casal à sua mesa do Copa, vindo do fundo para a frente, um pouco à direita do centro da tela, como se, ao caminhar nesse espaço, também se apresentasse ao público. Seu nome mesmo só é mencionado cerca de dois minutos depois, quando ele é requisitado pelo dono do estabelecimento, em alto e bom som.

Dr. Don Shirley é mencionado pela primeira vez em uma conversa por telefone, na qual é chamado apenas de “doutor”. Conhecemos sua imagem apenas na sequência seguinte, em que Tony vai ser entrevistado por ele – no teatro Carnegie Hall, onde o músico mora – a fim de ocupar a vaga de seu motorista/assistente pessoal durante a turnê que se aproxima, e as imagens que vemos são essas:

 

Aqui, Dr. Shirley também desfila no cenário – que parece uma coleção aleatória de peças de antiquário muito valiosas adquiridas em viagens ou presentes, dispostas sem uma lógica muito clara no espaço –, até se aproximar da câmera, momento em que se apresenta a Tony Lip. Essa cena de apresentação do músico é emblemática porque, já no primeiro encontro entre os personagens principais, é determinada, na negociação enunciada nos diálogos, a hierarquia que cada um deseja ocupar na narrativa. O cenário e o figurino de Don deixam claro que ele está numa posição de poder superior a de Tony, pois, além de estar cercado de peças de luxo, ele fala sentado em um trono.

O trono é uma peça-chave na construção desse personagem porque diz muito tanto sobre sua ancestralidade africana quanto sobre o lugar de empoderamento que ocupa nesse início do filme, mas que também passa a carregar uma aura de solidão muito forte. Nesse ponto, Tony não se importa de ser motorista de um homem negro (pois ele e sua esposa até receberam “homens de cor” em sua casa, outro dia), mas se recusa a lavar suas roupas e engraxar seus sapatos. Não vamos entrar aqui no mérito do acúmulo de funções que a vaga em questão requereria, mas Tony deixa claro que não está disposto a nada além da atribuição de transportar Dr. Don Shirley em sua saga sulista e não só não se intimida pela sua posição social superior, como, assim que percebe que tem poder de barganha, inverte sua posição na entrevista e passa a estabelecer como e quanto vai ganhar pra realizar o trabalho proposto. Ou seja, mesmo numa posição assimétrica de poder em relação ao negro, sua branquitude lhe confere condições de pertencimento muito bem delineadas, enquanto a negritude é sempre deslocada e solitária. Don, ao receber a negativa de Tony à sua proposta de trabalho, levanta do trono.

    

No decorrer do filme, surgem diversas provocações sobre racismo e o lugar de pertencimento de Dr. Don Shirley, o que pode nos sugerir que o roteiro nos levaria a refletir mais profundamente sobre essas questões. Porém, tudo isso é diluído e perde parte de sua potência crítica no que a composição das imagens nos mostra concretamente no desenvolvimento do personagem do músico. Como se, mesmo atingindo um patamar que atende à expectativa dos brancos, o que Don faz através da sua alta performance no piano, o negro nunca é capaz de pertencer verdadeiramente a essa camada social de privilégio, uma vez que a colonialidade, isto é, a lógica desigual que regula todos os níveis de relacionamento entre esses dois povos, não permite essa ascensão. E é esse padrão colonial que o discurso de Green Book reforça nas suas entrelinhas. Podemos visualizar esse processo comparando agora as imagens de ambos os personagens no início e no fim de suas trajetórias na trama.

Se, no começo, Don ocupava no seu trono com suas vestes de muçulmano africano e seus colares de ouro, agora ele volta para a solidão gelada de seu palácio, onde é recebido por um único funcionário (que prontamente dispensado) e deslocado subjetivamente da sua posição de privilégio, pois de que adianta sua riqueza se ele está completamente só na noite de natal? Nesse momento, só lhe resta também o silêncio. Há trilha (algumas breves notas de piano) apenas quando ele acha um objeto que recorda seu “amigo” branco. O trono está vazio.

 

Enquanto isso, Tony Lip é recebido com alegria pela família ao som de Santa Claus is comin’ to town (em gravação de Frank Valli & The Four Seasons).

A música, a propósito, é o único “local” de pertencimento e de liberdade que permite a Don Shirley ser recebido tanto entre os brancos (ainda que os mais segregacionistas) quanto na comunidade negra (onde ele também causa estranhamento, num primeiro momento). A cena no bar Orange Bird é um dos poucos momentos de respiro e de acolhimento do pianista no filme, o que mostra um possível contraponto positivo do povo negro frente aos absurdos que o racismo lhe impõe.

Mas a forma ideal de pertencimento para Don, dentro do universo do filme, é junto à família de Tony, a mesma que faz essa cara com a sua chegada

…e o abraço da esposa Dolores pretende resolver todas as tensões. (Será?)

Sendo seu roteiro baseado na experiência (supostamente real) de um homem branco (não por acaso pai do co-roteirista do filme, Nick Vallelonga), é compreensível que Green Book perpetue valores que ignorem determinadas nuances da vivência da negritude, bem como queira romantizar as tensões raciais enraizadas em Tony Lip e Dr. Don Shirley. O que é desnecessário e desonesto é descaracterizar, seja qual for o contexto, as virtudes de um personagem negro em condição de poder para que um personagem branco possa ser “inocentado” de seu comportamento racista.

Essa reflexão me lembrou as provocações levantadas por Jéssica e Tatiana, pois, aqui, Don também é “envenenado por uma ótica embranquecedora e unidimensional” que lhe reserva um lugar subalterno até quando ele parece já ter conquistado alguma posição de privilégio. Por outro lado, filmes como Infiltrado na Klan e Pantera Negra nos mostram que, inclusive em grandes produções comerciais, o protagonismo negro na frente e por trás da câmera produz narrativas que desafiam a lógica colonial de representação do negro no cinema, com força para serem competitivos comercialmente. Qual será a resposta que o Oscar no dará sobre isso?

Imagens: Universal Studios

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *