Hoje, dia 14 de março de 2019, faz exatamente um ano da morte de Marielle Franco, ex-vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada e que, dado seu histórico de luta pela reconfiguração da política de segurança pública e em defesa dos direitos humanos, virou insígnia de resistência. 4 balas na cabeça. Ontem, dia 13, oito pessoas (entre estudantes e funcionários) foram sumariamente assassinadas numa escola em Suzano (SP), também vítimas que viraram estatística nos homicídios por arma de fogo no Brasil.

Marielle, uma ávida crítica da política torpe de segurança pública do Estado, certamente levantaria o debate sobre a flexibilização da posse de armas de fogo, porque, como muito bem investigou em seu trabalho de dissertação, o aumento da circulação de armas não protege, como alguns aproveitadores insistem em “bradar” aos quatro cantos em sua campanha política, mas sim aumenta a incidência da violência. Quanto mais armas em circulação, maiores as chances de morte. Nem no pior dos pesadelos imaginaria ela que, mesmo sendo uma ferrenha contestadora da atual política de segurança, encerraria sua passagem nesta vida de forma tão covarde e cruel. Somando-se a mais uma estatística.

Marielle também entendia quem, na verdade, eram as maiores vítimas da “democratização” do acesso às armas.

Além do índice de homicídio e letalidade violenta a que são expostos (…), as causas dessas mortes são as mais diversas, mas sempre com a utilização de armas de fogo (…). São jovens, negros/pardos e moradores de favela. São características que reforçam as pesquisas estatísticas, mas, sobretudo, de jovens com histórias interrompidas, nomes e sobrenome. UPP – A REDUÇÃO DA FAVELA A TRÊS LETRAS: UMA ANÁLISE DA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, de Marielle Franco.

Marielle não se equivocou. Em relatório apresentado pelo Nexo Jornal ontem, dia 13, sobre os índices de homicídios no país, as mortes por as armas de fogo lideram as estatísticas. Mas isso por si não é suficiente. É preciso perguntar-se também quem são as maiores vítimas destes homicídios e como estas armas chegam às mãos destes assassinos. Segundo dados levantados pela Datasus, pardos e negros juntos lideram as taxas de mortalidade por arma de fogo, sendo também o grupo que mais é morto na soma de todos os métodos de assassinato.

Caio Oliveira, estudante, 15 anos. Claiton Antônio Ribeiro, estudante, 17 anos. Douglas Murilo Celestino, estudante, 16 anos. Kaio Lucas da Costa Limeira, estudante, 15 anos. Vítimas da chacina na escola estadual em Suzano (SP). Dos 5 estudantes assassinados, 4 eram negros.

Aqui, não há nenhuma intenção leviana em insinuar que a motivação das mortes foram, portanto, de cunho racial. Mas não é possível ignorar, tampouco, que pretos e pardos continuem liderando as estatísticas de homicídios.

Não é possível ignorar que pretos e pardos sejam a população mais encarcerada. Não é possível ignorar que pretos e pardos sejam os sujeitos mais vulneráveis à violência do Estado. Muito menos é possível ignorar quando “balas perdidas” são cuspidas de projéteis letais e que acabam encontrando, em sua maioria, corpos negros e pardos pelo caminho.

Marielle, ao deparar-se com esta tragédia, certamente questionaria a quem beneficia, de fato, a flexibilização e a maior circulação de armas de fogo no Brasil. Quem serão, na real, os sujeitos “protegidos” contra o uso indiscriminado das armas de fogo? Os números e estatísticas rapidamente nos respondem. Marielle, Caio, Claiton, Douglas e Kaio seguramente também sabem a resposta.

Portanto, não se engane. Existe SIM um recorte racial, de gênero, de classe e de outros marcadores sociais que influencia diretamente no debate sobre a flexibilização do posse de armas de fogo. É preciso SIM perguntar-se os reais usufruidores, as principais vítimas e, principalmente, como uma ferramenta que mata pode, na verdade, salvar alguém. Marielle questionou. E nós levaremos seu legado.

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