Na praça General Tibúrcio, mais conhecida como Praça dos Leões, fica o endereço da igreja mais antiga da cidade. Ela é pequenina, simples e em meio ao corre-corre do Centro e da vizinhança de outros prédios históricos, passa despercebida. Tombada pelo patrimônio histórico, a igreja do Rosário tem sua trajetória construída por mãos pretas.

Conta-se que em 1730 um africano construiu, exatamente no atual local, uma capela de palha e taipa onde os negros se reuniam para rezar terços e novenas.

Como nas demais igrejas, os pretos eram discriminados. Foi preciso construir seu próprio templo longe da vila que estava localizada ao redor da matriz de São José. Por ordens do padre visitador Lino Gomes Correia, em abril de 1742, os senhores de engenho permitiram que os escravos trabalhassem na manutenção e tivessem os dias santos para seus rituais na igreja Nossa Senhora do Rosário.

Em 27 de outubro de 1747, diante do pagamento da quantia de 10$000 pela missa e 7$000 pela música aos padres, acontece a primeira festa em homenagem à padroeira. Daí em diante, bandos de congos formados por escravizados e forros vinham dançar todos os anos na noite de Natal em frente a igreja.

Eram festas luxuosas, como lembra João Nogueira:

era festa de pretos, mas levada com grande pompa e luxo. As negras escravas ostentando cordões de ouro, brincos e joias de valia que suas bondosas senhoras lhes emprestavam para que se apresentassem como o espavento e brilho exigido pela importância da missa e coroação dos reis.

E pelas ruas vinha o cortejo cantando e executando bailados e jogos simulando combate, rumo ao Rosário.

O Secretário, então, perguntava: Os pretinhos dos congos, pra onde vão?
O coro respondia: Nós vamo pro Rosário. Festejá a Maria.
Secretário: Oh! Festeja, oh festeja, oh festeja. Com muita alegria.
Coro: Nós vamo pro Rosário, Festejá a Maria.
Secretário: É de zambi a pumba. É de bambê.
Coro: Miserere, miserere. Misere rê.
Secretário: Papaconha, papaconha. Peneruê.
Coro: É de zambi a ponga. E qui bambê.

Com a permissão do clero, em 1753, é dado início às obras de reconstrução da igrejinha que ameaçava desabar. Após dois anos, estava pronta a nova igreja do Rosário, agora de pedra e cal.

Por duas vezes, a matriz de São José foi reconstruída. Nas ocasiões, seus pertences e atividades foram transferidos para a igrejinha, fazendo com que assumisse status de catedral.

Testemunha de vários fatos históricos e obras de restauração, a igreja que conhecemos difere, e muito, da sua origem, inclusive pela desvinculação do povo negro. Importante patrimônio histórico de Fortaleza, seu nome poderia ser rebatizado para igreja do Rosário dos Pretos, como acontece em várias pelo país.

Seria uma reparação mínima, mas já faria jus ao legado deixado pelo povo preto.

 

Imagens:

www.fortalezanobre.com.br

irmandadedorosariofortaleza.blogspot.com

 

 

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