Setenta nomes foram anunciados nesta quarta-feira (10/4) pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult) para a XIII Bienal Internacional do Livro, que vai acontecer entre 16 e 25 de agosto deste ano em Fortaleza.

Para quem (como eu) estuda Literatura, consome Literatura, produz Literatura e enxerga na Literatura a saída para muitos dos problemas do mundo, a simples garantia de que a Bienal vai acontecer em tempos tão tenebrosos já é de se comemorar.

Mas há um aspecto grave desta edição que precisa ser considerado. Apenas quatro desses 70 convidados são negros. Quatro. Pouco mais de 5% do total. Somente Conceição Evaristo, Gilmar de Carvalho, Dércio Braúna e Descartes Gadelha. Isso, lembrando, dentro de um evento autointitulado internacional.

A gente está falando de um percentual menor até do que o total de brasileiros que se autodeclara preto (8%, conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)). Se a gente considerar a quantidade de pardos (46%), então, a diferença é gritante.

É algo a se pensar porque a literatura negra nunca esteve tão em alta. Inúmeros autores negros figuram hoje no centro de discussões importantes e transversais às questões etnicorraciais. E inúmeros escritores negros já mortos foram fundamentais para isso acontecer.

Ao ter um número tão irrisório de escritores negros, a XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará perde uma grande oportunidade de dar visibilidade a uma literatura que não só merece espaço como precisa ter espaço. E assegurar uma participação significativa de negros não seria favor algum.

É dever do Estado fazer isso até como garantia de resgate de uma cultura (a negra, para que fique claro) que ele mesmo estimulou a extinção quando escravizou africanos e depois abandonou famílias inteiras ao relento, libertando-as sem qualquer política pública de amparo, qualificação e reinserção social. Como ainda o faz atualmente.

Ter escritores negros no rol dos convidados mostra à juventude (a negra, em especial) o quanto é possível ser um indivíduo dono de uma narrativa diferente da que as empresas de comunicação repetem todo dia em todas as plataformas. Não só o enredo da morte, do tráfico, do menosprezo, da indiferença e de tudo o mais de ruim pertence ao povo preto.

Dá pra sonhar em ser executivo, magnata, diretor, jornalista, atriz, apresentadora de televisão e escritor. Dá pra ser o que a gente quiser! Mas tudo começa com a gente lendo autores negros e participando de eventos de grande magnitude nos quais a gente se enxergue. Se identifique. Ainda mais quando a terra onde um desses eventos de grande magnitude é nacionalmente conhecida como a primeira a libertar os escravizados. O nome disso é representatividade.

Para quem quiser dicas de autores negros(as) contemporâneos, anote aí. A lista é grande: Djamila Ribeiro, Chimamanda Adichie, Sueli Carneiro, Igiaba Scego, Angie Thomas, Shonda Rhimes, Vilma Piedade, Toni Morisson, Elisa Lucinda, Fátima Trinchão, Lázaro Ramos, Junião, Edimilson de Almeida…

Isso pra citar os que me vêm na cabeça. Porque tem mais. Muito mais.

Em contato com o Ceará Criolo, a Secult alegou estar ciente da pouca quantidade de autores negros, disse defender a diversidade etnicorracial na Literatura e assegurou que: 1) a programação da Bienal divulgada ontem não é definitiva 2) alguns autores negros convidados não tinham agenda disponível 3) negociações com outros autores negros estão em andamento. A secretaria se comprometeu em anunciar em breve lista complementar (com mais nomes negros, claro).

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