Em todo samba que eu vou, Pedrina samba comigo. Não há como falar desse ritmo em Fortaleza sem falar dela.  Quando essa negra chegava nos bares com sua careca e seu copinho de cachaça, as rodas, quase na sua totalidade masculinas, se abriam para acolhê-la.

Ela ficava sentada balançando a cabeça na cadência quase todo o tempo, mas quando tocava Guerreira, música famosa na voz de Clara Nunes, ela levantava e dançava como se não existe mais nada além daquele momento. Era como ter uma entidade diante dos olhos. Ao final, ela gritava:

Viva o Samba!

Em sua casa, funcionava a sede do Encontro Cearense de Compositores de Samba (Eccos), onde numa quarta-feira sim e outra não os compositores levavam letras para passar pelo seu crivo, apresentar aos demais e ensaiar. Tudo regado a chá e café. Álcool só para olhar na belíssima coleção de cachaça ostentada na sala. Eu, que nunca toquei coisa nenhuma nem compus uma estrofe, ficava lá só bebendo daquela demonstração pura de amor ao samba. 

Descobri depois que Pedrina do samba era a famosa planner do mercado publicitário. Imaginem só a minha emoção em saber que o nome referência no que eu faço era a mesma pessoa com quem encontrava aos domingos no Zé Bezerra. Ela agora era um dos meus primeiros exemplos de representatividade na publicidade cearense. Tia P inspirou a mim e a muitos amigos enquanto profissionais.

Feminista e militante do Movimento Negro, Pedrina fundou entidades como o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) e o grupo André Rebouças. Seu nome aparece ao lado de outras mulheres importantes, como Lélia Gonzalez, Neusa das Dores e Maria José na tese de doutorado de Ivan Costa, intitulada “As pedagogias do movimento negro no Rio de Janeiro e Santa Catarina (1970-2000): implicações teóricas e políticas para a Educação brasileira ”, onde o autor aborda a importância das lutas por direitos sociais da população negra.

Sua vida e obra ainda se tornarão livro preparado pelo pesquisador, sociólogo e historiador carioca Amauri Mendes Pereira.

Nascida no Pará, Pedrina morou em Brasília e no Rio de Janeiro, mas escolheu Fortaleza para viver – até morrer, em abril de 2017. Dois anos após sua morte, o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Afrobrasilidade, Gênero e Família (Nuafro) inaugura o Acervo Pedrina de Deus, composto por uma série de documentos e livros colecionados em mais de 30 anos de atuação intelectual, política e militante dela.

De acordo com Zelma Madeira, coordenadora do Nuafro,

o espaço é uma homenagem e ao mesmo tempo um local para o compartilhamento de referências teóricas e informações gerais sobre a questão étnico-racial e feminista brasileira.

O acesso ao público ocorrerá de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h, na sala do Nuafro, no Centro de Educação do Campus Itaperi da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

A inauguração do Acervo, às 18h do dia 24 de abril, na sede do Nuafro, contará com a participação da Roda de Samba Eccos.

Viva o Samba!

Viva Pedrina de Deus e dos homens!

Serviço:

Inauguração do Acervo Pedrina de Deus
Quando: 24 de abril, às 18h
Local: Sala do Nuafro, no Centro de Educação da UECE, Campus Itaperi (Avenida Silas Munguba, 1700).

Funcionamento do Acervo Pedrina de Deus: de segunda a sexta-feira, das 14h às 18h, na sala do Nuafro, no Centro de Educação da UECE, Campus Itaperi.

Imagens: somosvos.com.br

Deixe um comentário

Categories: Afrossaberes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *