Texto de Tatiana Lima e Jéssica Carneiro

A Publicidade é a bola da vez para o presidente demonstrar toda sua falta de conhecimento. A notícia é destaque nos mais importantes veículos de comunicação do país: Bolsonaro censura campanha do Banco do Brasil sobre diversidade. Não que seja de se surpreender com qualquer tropeço ou atrapalhada deste senhor que hoje ocupa a presidência, mas há dias em que todos os limites são ultrapassados. Vamos analisar junt@s o motivo pra tanto “bafafá”?

Do ponto de vista publicitário

O filme publicitário do BB é uma bela peça. Senão, vejamos.

O texto é simples, direto, transmite informações importantes. A batida lembra a levada do “teile e zaga”, tão famoso na narração de Alcione Alves, o que traz familiaridade; um “eu já ouvi isso”. A campanha fala em fazer tudo pelo celular, convida as pessoas a baixarem o aplicativo, fomentar um lado mais rápido e prático na relação com o cliente.

Qual público gasta mais tempo no smartphone? Qualquer pesquisa nesse sentido aponta os jovens como principal target com essas características. E a cada dia que passa, as pessoas estão deixando de consumir por consumir. Elas estão abrindo espaço e a carteira para aquilo com que se identificam. Isso é uma visão de negócio sem volta. Se eu tenho várias opções de bancos, vou investir o meu dinheiro naquele que, além de me fornecer o que preciso, me possibilite sentir representad@, mesmo que minimamente.

Preto tem dinheiro. Pessoas com vitiligo compram casa. Gays investem em ações. É impossível existir “excesso de diversidade”, como alega Bolsonaro. Simplesmente pelo fato de um material de 30 segundos jamais poder contemplar a totalidade da diversidade, avalie exceder essa representatividade. O que Banco do Brasil fez foi apenas o começo de uma reparação histórica da sub-representatividade de muitos de seus clientes.

Quando falamos de bancos, dificilmente vem uma boa associação a nossa cabeça. Instituições financeiras em geral são vistas como sanguessugas do dinheiro, do tempo e da paciência alheia. Lembrem-se: neste momento estamos falando dos bancos, e não do presidente, talkey? O filme ataca um dos pontos mais críticos na imagem dessas instituições. Ir ao banco é sinônimo de filas intermináveis e burocracia excessiva. Uma ida ao banco é certeza de não fazer mais nada no dia. Mais uma bola dentro da campanha e mais uma bola murcha e muito fora do presidente.

Do ponto de vista político

A campanha do presidente (o qual, em muitos momentos, comporta-se como presidenciável) foi toda baseada no ataque às minorias e às políticas de diversidade, e abre espaço hoje para uma gestão que confirma tudo o que já se anunciava: muita intolerância, racismo, misoginia e LGBTfobia. Mas como uma “simples” campanha publicitária pode ser algo de tanta preocupação para o chefe do executivo, a ponto de exigir a um dos maiores bancos do país a retirada de uma campanha? Juramos não saber a quem gostaríamos de despejar nosso repúdio primeiro: se ao presidente ou se à direção do Banco do Brasil.

Quando pensamos por que o discurso da diversidade incomoda tanto, é impossível não sermos levados a concluir que qualquer movimento que pretenda desbancar a branquitude (machista e heterocisnormativa) será sumariamente atacado. Trazer a pauta da diversidade não só para a Publicidade, mas para a agenda política, é furar a superfície cristalizada do racismo estrutural. E nos parece que nosso presidente não está nada disponível a fazê-lo.

A intelectual Sueli Carneiro, em sua obra Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil, é categórica ao dizer que

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro (no caso, todos os seres não-brancos, não-heterossexuais, não-cisgênero, não-homem, não-elite etc) em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de ser representados em sua diversidade.

Quais são as consequências disso, afinal?

Enquanto a branquitude permanece inquestionada, a população negra permanece sub-representada, à mercê das “cotas de casting” para não-brancos das produções publicitárias, travestidas de “política de diversidade”.

O que o presidente e todo seu governo precisam entender é que o Brasil é um país composto por metade da população que se autodeclara como negra (pretos e pardos). E se nós, de repente, exigirmos que a mídia, a política e todas as outras instâncias sociais nos representassem de fato? Que país sobraria para o presidente governar?

Não estamos falando de uma representatividade capenga, que enfia uma pessoa negra no meio do casting cheio de gente branca e paga de “inclusivo”; ou que coloca um punhado de mulheres em cargos do executivo e, por isso, diz valorizar a população feminina. Se metade da população brasileira é de pessoas pardas e negras, o mínimo que deveríamos ter é metade da televisão com atores, apresentadores, jornalistas negros e pardos; metade do senado, da câmara e da assembleia legislativa de políticos negros e pardos. Isso, sim, seria representatividade.

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