O Ceará Criolo tem só sete meses de existência. Mas, desde que foi ao ar, a gente (eu, Rafael Ayala, Tatiana Lima, Jéssica Carneiro e Rayana Vasconcelos) já participou de uma série de debates sobre o CC e representatividade com alunos de ensino superior.

Somos comunicadores e nessas ocasiões trocamos ideias com jovens de cursos de Jornalismo ou Publicidade e Propaganda daqui e de fora. E, quanto mais eu componho mesas sobre questões raciais, mais fica claro pra mim o quanto a Academia permanece à margem da discussão da marginalização do povo preto.

O curioso é que essa marginalização é um fenômeno (em grande parte) explicado exatamente pelo modo como as empresas de comunicação retratam o povo preto. As mesmas empresas que vão contratar esses futuros jornalistas e publicitários, sejam eles pretos ou não.

Apesar dessa corresponsabilidade das empresas onde nós, comunicadores, vamos atuar, a matriz curricular das graduações de Comunicação pelo Brasil é “a mesma” há anos. E nem de longe contempla a diversidade do povo brasileiro. No caso do Jornalismo, minha área de atuação, a gente se forma basicamente para ter um texto bom.

A gente ouve logo nos primeiros dias de aula que todo produto de comunicação só tem sentido se abraçar todo tipo de gente. E que, para isso acontecer, o texto precisa ser compreendido pela mais humilde das pessoas. Mas essa decodificação deve passar também pela garantia de direitos e pelo respeito.

É aí onde mora o perigo. O mundo carece mesmo – dadas as circunstâncias históricas e ao contexto mercadológico atual – é de técnicos humanizados. Mas não apenas aquela humanização de saber a diferença entre escrever uma boa reportagem sobre a beleza de uma casa e outra, excelente, sobre a beleza da vida de quem mora dentro dessa mesma casa. Estou falando da humanização que parta da premissa de como as empresas de comunicação nos desumanizam. Invisibilizam minorias. Criminalizam o diferente.

As empresas de comunicação têm uma dívida histórica com o povo preto por, há séculos, perpetuarem estereótipos depreciativos. Tanto quanto o Estado brasileiro tem por, desde o começo dos tempos, negar a esse mesmo povo preto o acesso a direitos básicos. [Um exemplo, caso você não saiba ao que me refiro: após a tão celebrada libertação dos escravos, o Brasil teve uma constituição que PROIBIA os negros de frequentarem a escola. Sem educação, esses indivíduos foram empurrados para periferias precarizadas e cargos de baixa remuneração]

Quando o jornal chama de traficante o negro preso com drogas e classifica como “usuário” o branco preso com a mesma quantidade da mesma droga nas mesmas circunstâncias, o leitor se sente respaldado (e, em dada proporção, até induzido) a associar a imagem de qualquer outro negro à insegurança. Aí, o negro com quem ele cruza na rua passa a ser visto como possível assaltante. E ele, leitor, muda de lado da calçada.

Quando a reportagem do Jornal Nacional retrata o negro apenas como motorista, empregada doméstica, gari, serviços gerais e segurança, por exemplo, o telejornal de maior audiência do País diz nas entrelinhas que: ou o negro é incapaz de exercer funções de maior visibilidade e melhor remuneração ou não as exerce por falta de interesse. É gari – e invisível – porque quer. Não passa no vestibular porque é preguiçoso. Não ganha mais porque não se esforça. Aí, assim, o telespectador chama de “privilégio” o Prouni, o Fies e as cotas de concurso público.

Quando negros só são convidados a participar de debates sobre racismo, as instituições reduzem a capacidade deles de posicionarem-se sobre outros temas que os afetam tão fortemente quanto o preconceito. A vida do povo preto não se resume a ser chamado de macaco. A gente pode ser o especialista que fala sobre impeachment, projeção econômica, cenário eleitoral e as inúmeras outras variáveis que compõem a vida de qualquer pessoa.

Passou da hora de os cursos de Comunicação terem disciplinas voltadas ao debate aberto, franco e sem estigmas sobre a verdadeira importância do povo preto pra formação do povo brasileiro. Assim como grita a urgência de esses cursos questionarem de maneira prática o papel exercido pelas empresas de comunicação na marginalização da população preta e como essas novas gerações de comunicadores precisam/devem/têm que se comportar na perspectiva de mudar um discurso secularmente perpetuado em detrimento dos negros.

Além disso, os cursos de Comunicação precisam de mais professores negros. As redações de jornal ainda são majoritariamente brancas e femininas. A representatividade preta (e masculina e LGBTQI+ e pobre e indígena) tem que aumentar. Do contrário, novos alunos se enxergarão cada vez menos num curso cuja função social é de extrema importância para a defesa dos direitos mais plurais mas tem de forma recorrente e descarada defendido interesses de uma minoria numérica do nosso país.

Quase todos os convites que nos foram feitos até agora deram-se graças à rede de afetos que nós, do CC, construímos no decorrer das nossas carreiras. É claro que há importância na proposta do portal. Mas não fosse essa nossa rede de afetos composta por professores sensíveis à causa das minorias, poucos teriam sido os estudantes tocados pelas palavras que compartilhamos nesses eventos.

Essas trocas precisam aumentar. Devem aumentar. Essas reflexões precisam ser mais frequentes. Para o bem do Jornalismo. Para o bem da Publicidade. Mas, sobretudo, para o bem – e a sobrevivência – do povo negro e da sociedade brasileira. Inclusive e principalmente nos tempos que vivemos, nos quais um presidente da república acha desimportante pensar, respeitar e preservar histórias e individualidades.

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