Por volta de 2015, um grupo de professores e estudantes do campus do IFCE em Crateús, no Sertão dos Inhamuns cearense, começou a mapear as escolas indígenas e quilombolas da região. Naquele ano, não havia ainda o Neabi, mas tal estudo já poderia ser considerado uma atividade embrionária.

Apenas em 31 de julho de 2017, a Resolução nº 71 é aprovada, instituindo os Neabis no âmbito do IFCE. Coordenado pela professora Valéria Lourenço desde janeiro de 2018, o Neabi do campus conta alunos do Ensino Médio, Técnico e Superior, além de professores de diferentes áreas, como Sociologia e Geografia, jornalista e assistentes sociais.

 

Valéria Lourenço

 

Entre as diversas atividades espalhadas pelo tripé Ensino, Pesquisa e Extensão, em 2018, o Neabi começou a mapear os Programas de Unidades Didáticas (PUD) dos cursos do IFCE e os participantes perceberam a ausência da temática étnico-racial. “Os estudantes não viam algo relacionado, por exemplo, à temática indígena, quilombola, em quaisquer cursos. A gente começou um processo de formiguinha pra perceber e ver onde ali a gente poderia encaixar a temática étnico-racial”, comenta a coordenadora.

O resultado desse esforço? Bem, o programa didático do curso de Letras ganhou a disciplina de Literatura Africana de Língua Portuguesa e vários livros ligados à temática afro-brasileira foram incluídos no curso de Química do Ensino Médio. “Tem uma disciplina que é chamada Projetos Sociais, uma disciplina que está, por exemplo, no curso de licenciatura em Física. A gente fica pensando como é que vai discutir a temática étnico-racial em Física, em Matemática… A professora Carla Gomes acaba conseguindo trabalhar várias temáticas transversais, como gênero, racismo”, exemplifica.

Dois projetos de pesquisa estão sendo desenvolvidos no Neabi. Um deles é para mapear como o IFCE está aplicando as leis 10.639 e 11.645. Enquanto a primeira torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afrobrasileira nas instituições de ensino, a segunda torna obrigatório também o ensino de história e cultura indígena. O produto final será um relatório para verificar o cumprimento de tais legislações pelos estabelecimentos de ensino públicos e privados.

 

Neabi Crateús

 

O outro projeto é contar a história de duas lideranças da comunidade de Queimadas. Um deles é Nenê Lourenço, uma liderança quilombola, referência local e já falecido. Dom Fragoso é a outra personalidade a ter a história contada, uma liderança importante ligada à Igreja Católica e que lutou contra desigualdade na realidade local tanto em relação à terra quanto no tocante ao acesso à educação.

De acordo com a coordenadora, Crateús conta com cinco etnias indígenas e duas escolas indígenas. Assim, o município apresenta uma característica diferenciada: indígenas vivendo em centros urbanos. Por conta da ativiades do Neabi, vários alunos começaram a se identificar como indígena ou quilombola e, a partir, a ter acesso a alguns benefícios, como o Bolsa Permanência. “Nunca tivemos alunos quilombolas recebendo essa bolsa e ano passado três alunas quilombolas passaram a receber. Debate é da representatividade”, destaca.

Para Valéria, o ponto principal do Neabi é congregar pessoas de diferentes áreas e vivências, professores e alunos, para um aprendizado coletivo, desconstruindo imaginários criados sobre várias identidades do Brasil. Esse debate não se restringe ao campus do IFCE e tem papel fundamental na desconstrução do mito da ausência de negros no Ceará.

“Sou do Rio de Janeiro. Sou uma mulher preta, retinta. Quando cheguei aqui, percebi muito isso na pele. Em vários lugares que vou, as pessoas fazem esse marcador comigo. Perguntam se sou angolana, se sou da África, da Bahia, do Rio. Não me reconhecem como pessoas daqui por causa desse imaginário de que não existe negro no Ceará, ao mesmo tempo em que o Ceará foi o primeiro a abolir a escravidão. É muito importante a gente fazer essas desconstruções de que não existe negro aqui, de que indígenas não podem viver em cidades. E esses debates também acabam transversalizados por outros. Ao falar de negros, indígenas, a gente acaba transversalizando com o gênero. A gente acaba falando da mulher negra, como é ser mulher negra, indígena”, analisa.

 

TEXTO DE RAFAEL AYALA.

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