Conceição Evaristo é a curadora da próxima Bienal Internacional do Livro do Ceará e a gente PRECISA estar eufórico por isso. Uma mulher negra, que fala de negros, não se envergonha de lutar pelo povo preto e usa as palavras na luta contra o racismo, estará à frente do maior evento literário do estado e o terceiro maior do gênero no Brasil.

Mas desde já quero fazer uma provocação. Sim, com dois anos de antecedência e com todos nós ainda de ressaca pelo fim Bienal deste ano, na qual, inclusive, Conceição arrastou uma multidão para o evento que participou e foi ovacionada. E faço isso agora para não dizerem que qualquer disposição em contrário foi por falta de tempo ou dificuldade de articulação.

Ter Conceição Evaristo como curadora significa a obrigação moral da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), promotora da Bienal, de ter um número decente de autores negros no evento de 2021. Ou seja: será a chance de, enfim, oferecer ao público leitor uma programação mais representativa na perspectiva étnico-racial, já que a edição deste ano foi tão desproporcional.

Dos 70 nomes do primeiro escalão anunciados para a Bienal deste ano, apenas CINCO eram negros. O equivalente a 7%. SETE POR CENTO. E, mesmo com outros escritores inseridos na programação posteriormente (muito em decorrência da pressão de movimentos sociais), a quantidade de autores pretos foi irrisória. E Conceição foi a única que, de fato, sejamos francos e diretos, brilhou.

Fui a oito dos dez dias de Bienal deste ano. Nunca participei tão ativamente de um evento do tipo como agora. Assisti a inúmeros debates da programação, circulei em todos os stands, comprei uma montanha de livros, fiz parte de uma mesa sobre autores inéditos e, nisso tudo, vi uma multidão de gente nos corredores do Centro de Eventos do Ceará.

O público da Bienal foi de mais de 450 mil visitantes. E olha: deu gosto ver aquele pavilhão todo colorido de negros, pardos e pretos. Nós fomos maioria visível no público e minoria esmagadora entre os autores, mesmo sendo o Ceará um estado majoritariamente autodeclarado negro.

Por isso, é fundamental que a chegada de Conceição Evaristo à curadoria não se transforme em mais um “pelo menos.” Não dá mais pra suportar essa história de “pelo menos tinham cinco negros na lista inicial de autores”. Ou: “pelo menos a programação teve alguma atividade sobre questões étnico-raciais”. Ou ainda: “pelo menos houve algum tipo de debate sobre pluralidade”. Porque foi isso o que mais eu ouvi (e muita gente do Movimento Negro também) quando questionou a necessidade de aumentar a representatividade preta no evento.

É claro que Conceição Evaristo não foi escolhida à toa. Para além do peso inegável do nome da mineira (e de toda a repercussão da não entrada dela para a Academia Brasileira de Letras), importa MUITO à Secult tê-la na curadoria depois de nenhum dos organizadores da edição deste ano ser negro.

A decisão é inteligente. Estratégica. Simbolicamente importante. Necessária. Agrega valor. Tende a reduzir tensões com os movimentos sociais, já calejados de tanto silêncio quando gritam pelo básico. A gente não está exigindo o absurdo. Ninguém quer uma Bienal Preta (muito embora isso seria sensacional!). A luta é “apenas” por equiparação. Como pode sermos maioria da população e maioria do público da Bienal e termos tão poucos nos representando “do lado de lá” dos palcos?

Celebremos a escolha de Conceição. É merecida. Mas, por favor, que não cheguemos ao fim da Bienal de 2021 com a balela de “não teve tanto autor negro mas pelo menos ela foi a curadora, né”? Chega de conformismo. Che-ga!

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