Ellen Oléria tem um discurso muito claro. O amor. É por ele que ela tem a certeza da mudança dos tempos. É de braços dados com ele que ela abre espaço num mundo cheio de ódios e intolerâncias. E diz na maior das facilidades sobre a necessidade urgente de a gente amar mais, mesmo que na menor das acontecências.

Se é pra falar de tristeza, que se perca saliva pela alegria. Se é pra tratar do ruim, que se pregue o bem. Se é de promover quem não se gosta, que se faça justo o contrário. Tão simples que chega a doer quando ela bota toda a lógica de mundo dela pra fora e essa filosofia de vida esbarra na complexidade dos dias da gente, sempre tão propensos a outras possibilidades.

O Ceará Criolo trocou dois dedos de prosa com essa brasiliense. Ok, não foram só dois dedos de prosa. Foi uma hora cravada de um papo pra fazer qualquer um pensar. Sobre si. Sobre o lugar que ocupa. Sobre privilégios. E sobre, principalmente, a imperiosidade de a gente conjugar outros verbos.

A conversa aconteceu no saguão do hotel onde Ellen está hospedada na passagem por Fortaleza para o show “Preta Música”, que faz com o grupo O Quadro na Caixa Cultural. Bata e colar africanos, ela saiu do bate-papo pra uma caminhada pelo calçadão da Praia de Iracema.

E tudo o que rolou você confere agora.

 

 

CEARÁ CRIOLO l Como se deu teu processo de identificação? Tu se percebeu negra primeiro ou alguém te apontou que tu era negra?

ELLEN OLÉRIA l Eu sempre soube que era negra. Aprendi na mais tenra idade. Eu tenho uma sensação de que o pertencimento étnico-racial acontece muito a partir do olhar do outro. É quando você é “outrificado” e quer saber a que você pertence. A quem você pertence. Sou de uma família de pessoas negras conscientes do seu pertencimento étnico-racial.

Lembro de uma vez eu falando pra minha mãe: “ah, eu queria ser modelo. Mas pessoas morenas como a gente não podem ser modelo, né, mãe?”. E minha mãe falou: “morenas como a gente, minha filha?”. E eu disse: “é”. E ela falou: “mas a gente não é moreno. Você não é morena. Você é negra”. Isso eu era muito jovemzinha. Tinha uns três aninhos. Aí, ela perguntou: “e por que que gente negra como a gente não pode ser modelo?”. E eu disse: “ah, eu nunca vi uma”. Aí, ela disse: “então você vai ser a primeira.”

Eu contei essa história pros meninos da (agência) Laboratório Fantasma quando tava me preparando pra entrar no palco da São Paulo Fashion Week, quando desfilei pela Laboratório. Acho que não fui a primeira não. Mas já valeu. (risos)

CC l E essa questão da referência é muito importante, né? Hoje nós temos algumas, você mesma é referência pra muitas meninas, mas na sua infância você não teve tantas ou não teve nenhuma…

ELLEN l A gente tem, sabe? A cultura brasileira não conseguiria sobreviver sem nossa força de trabalho, sem nosso imaginário, sem isso que nos identifica tanto. Se a gente tirar a presença negra da cultura brasileira, acaba a cultura brasileira.

Mas, de fato, as referências que acabam chegando pra nós são referências muito estereotipadas. São figuras muito relacionadas à dependência química, à pobreza, à miséria, à violência, à loucura… Pra construírem uma personagem louca, o que as pessoas fazem? Rapidamente preparam um cabelo pra q ele se assemelhe a um black power. Não necessariamente a um cabelo despenteado. Tem algo mesmo de nega maluca. Esse lugar da mulher negra como violenta e histérica é um discurso geralmente aliado aos corpos das mulheres negras.

Mas nesse ambiente de uma sociedade com muitas tensões eu também tenho muita alegria de ter feito parte dessa pequena célula muito acolhedora, muito agregadora. A gente fazia nossas graças ali, nossas piadas com nossos corpos de uma maneira muito lúdica. A gente ri de si nunca de modo depreciativo. Nós somos assim e isso é o que nos faz ser quem somos. Não como demérito. Nossa graça sempre foi muito sadia.

 

 

CC l Tua autoidentificação negra fluiu pro teu campo musical num movimento natural? Porque você começou a cantar muito cedo, né? Tua carreira não começou no The Voice Brasil, como muita gente imagina…

ELLEN l Profissionalmente, eu comecei muito cedo. Tirei minha carteira da Ordem dos Músicos com 17 anos. Eu tava bem crua. Mas eu toco desde muito pequena…

CC l Eu pergunto isso porque tua primeira música no The Voice foi um recado claro de que era uma negona que tava chegando com tudo… [Ellen cantou “Zumbi”, de Jorge Ben Jor, numa referência a Zumbi dos Palmares, maior líder antiescravagista da história brasileira]

ELLEN l (risos) É. Acho que é isso: ter um corpo negro em performance já é discursivo. Já é simbólico. Já é um ato político. Por mais que o que eu diga não seja instrumentalizado nesse viés discursivo, a minha presença já é o meu discurso em si. Mas eu acredito que não seria possível uma outra forma de fazer arte e de musicar. Só posso falar a partir desse lugar de fala. Só posso falar a partir do que percebo no mundo. Eu tô muito conectada. Eu tô profundamente conectada com esse pertencimento. Não seria possível fazer outra arte despregada do meu corpo, do meu discurso, da minha identidade, das minhas identidades, dos meus pertencimentos. Eu fiz o que foi possível, acho.

CC l Pra proposta do The Voice, o público entendeu isso perfeitamente. Tanto é que você ganhou. Mas, para além da vitória, tuas performances tiveram um reflexo social muito forte porque você era uma desconhecida na primeira edição do programa e deu um recado muito claro…

ELLEN l Eu sempre espero que sim. Meu desejo é que sim. A gente produz, mas não conhece a real força, a potência que uma obra pode alcançar, né? A gente faz desenhando um mapa e o nosso desejo é de que as pessoas cheguem no que a gente quer dizer. Mas a gente tem muitos desdobramentos possíveis também. E eu sempre acho isso muito maravilhoso.

Uma coisa que me surpreendeu muito foi ver muitas meninas cortando o cabelo como o meu e usando óculos modelo aviador grandão nos dois anos que se seguiram ao programa. Aonde eu ia tinham meninas assim.

CC l E naquela edição você foi a única que se assumiu com cabelo afro, né?
ELLEN l Eu acho que não existe um modo de não se assumir, de não ser. A gente pode disfarçar vários pertencimentos. Eu posso não contar pra você que eu sou lésbica. Você pode não saber da minha predileção, por mais que eu, como diriam os nossos, eu dê pinta, você pode nunca saber. Porque performance de gênero não é o mesmo que orientação sexual. Mas ser negra é algo que eu não consigo esconder. Não tem como, irmão. A gente vai usar todos os artifícios e tecnologias possíveis e imagináveis, mas a gente não vai conseguir mudar isso.

CC l A sua cor chega primeiro que você aos lugares…
ELLEN l É isso. Antes de entender que eu era mulher, eu entendi que era negra. Antes de entender que eu podia ser vegana, eu entendi que era negra. Antes de eu entender a minha orientação afetivo-sexual, eu entendi que era negra. Isso é muito primordial.

E eu entendo que pra muitas pessoas que experienciam em seus corpos a mestiçagem elas tenham trânsitos diferentes. Percebam isso em momentos diferentes das suas vidas. Porque o racismo é tão estrutural nas nossas histórias que muitas vezes a pessoa foi apresentada ao mundo enquanto indivíduo negro e ela nem conseguiu perceber os processos de violência pelos quais ela passou. O nosso olhar é altamente colonizado ainda. E altamente racista ainda. A educação racista é pra todo mundo.

 

 

CC l O fato de dentro de casa você ter tido essa consciência aflorada muito cedo fez com que você conseguisse enxergar isso facilmente? Dentro de casa não foi um processo violento você se enxergar negra, mas fora foi?

ELLEN l A violência parte do lado de fora. Essa afirmação vem muito ferrenha em casa exatamente pra eu perceber que eu não tô só. A minha mãe sempre foi muito combativa nesse sentido. Nunca admitiu que nós fôssemos destratados. Não diante dos olhos dela, sabe? Minha mãe sempre foi muito posta no lugar da mulher negra raivosa. Porque ela explodia. Mesmo. Em todos os lugares. Explodia, fazia escândalo e exigia um tratamento adequado, educado. Pra nós todos. Pra mim e pros meus irmãos.

Minha mãe é uma figura muito importante pra gente. Lembro dela ainda passando naquele crivo de seleções pra emprego. Quando se dizia que era necessário ter boa aparência, ela já sabia que não precisava nem levar o currículo. Porque ela ia levar o currículo com a foto dela e a vaga ia estar preenchida. Por outra pessoa.

Então, a gente vivenciou muitas coisas juntas. Essa violência, que a gente conhece desde muito pequenininhas na rua, também me fez muito combativa. Apesar de ser a filha caçula de minha mãe, eu sempre investi muito contra as pessoas que agrediram minha irmã na rua, mesmo com palavras. Eu aprendi a reatividade. Me defendi e defendi muito os meus com violência nas ruas. Respondi à violência com violência.

Esse processo de formação todo me levou a uma dimensão mais argumentativa. A gente precisa desenvolver outras ferramentas. Pra não se expor tanto à violência do mundo ou alimentar a máquina destrutiva, porque essa violência não acaba nunca. se a gente não parar, ela não acaba nunca. E a argumentação existe justamente pra que não seja necessário usar a violência.

CC l Uma das grandes questões que o Movimento Negro levanta é o modelo de ensino que temos nas escolas sobre a figura do negro, que é sempre colocado no papel de subalterno, de reprodução, de trabalho braçal etc. A gente aprende desde cedo que nada ligado à intelectualidade é pra gente. Você acredita que uma mudança dessas visões pode ter efeito prático nessa ampliação do diálogo? Ou a vertente da luta é por outro lugar?

ELLEN l Eu acho que a gente tem que ir por todas as vertentes. A gente precisa ocupar os espaços de fato. E entender que a gente consegue ser o povo da força física também. Nós somos poderosíssimos! Somos poderosíssimos! As marcas desse processo escravocrata ainda seguem no meu DNA. A gente sobreviveu a um dos maiores extermínios da história da humanidade. Eu tô viva e a gente sobrevive às maiores violências do Estado.

Nós somos maioria nos manicômios, nos presídios, nos cemitérios. Nós somos maioria sofrendo violência obstétrica nos hospitais, nós morremos mais, nós sofremos mais violência doméstica e mais violência sexual, e a gente continua aqui. A gente tá aqui. Eu não sei se um outro povo resistiria a isso.

Muitas tradições cometem o suicídio diante de processos de humilhação. A nossa tradição é de sobrevivência, irmão. A gente ama a vida. E festeja a vida. A gente sobrevive com muita alegria, inclusive. Mesmo à margem socialmente, a gente construiu a potência do samba, do jazz, do funk, da salsa, do mambo, do maracatu, do forró, do coco…

CC l A gente levantou cidades! São Paulo é o que é hoje graças ao povo preto…

ELLEN l É isso, meu irmão! A gente tá falando de consagração mesmo. De glória! Falar dos nossos pertencimentos em todos os lugares que a gente puder ocupar é falar de uma trajetória gloriosa. De uma linhagem de luz. De reinado. E de poder. Meu irmão, se não fosse o poder, e se não fosse o amor, pra nos manter vivos até aqui diante dessa campanha de extermínio que ainda é muito viva, eu não sei o que seria. A gente tá falando de um povo que é o fundamento cultural do ocidente. Mesmo diante dos processos de violência aos quais fomos submetidos.

CC l E essa ocupação de espaços que você fala, no contexto social e político que a gente tem hoje, com o presidente dizendo que racismo não existe e uma série de outros absurdos, é muito mais urgente que a gente se coloque e se afirme…

ELLEN l E é muito importante a gente lembrar que as forças governamentais foram eleitas por um povo majoritariamente negro. A nossa gente escolheu essas figuras pra nos representar. Pra falar dos nossos acessos. E pra dizer das nossas leis e de como a gente vai se organizar socialmente. Foi a nossa gente que escolheu essa equipe. E eu não tô falando só de Governo Federal. Eu tô falando do que a gente consegue enxergar nas nossas cidades.

É muito importante a gente também não subestimar a inteligência da nossa gente e o desejo da nossa gente. Nossa gente escolheu esse caminho. Às vezes, eu me assombro um pouco porque percebo pessoas nossas levantando discursos contraproducentes. Discursos contrários aos nossos avanços. Contrários à nossa existência. Ao nosso direito. Direito à vida. Direito ao acesso. Acho alarmante, mas entendo que esse é o poder da democracia. Mas também não levo com a ingenuidade de que eles não sabem. Hoje a gente está num momento muito divergente e o argumento fundamental das pessoas é mandar o outro estudar. Estudar o que, cara?

CC l Ficou muito claro pra todo mundo quais eram os dois projetos em pauta nas eleições do ano passado, né? Ninguém pode se dizer surpreso agora…

ELLEN l É. E as pessoas escolheram um caminho. É como eu escutar as pessoas reclamando do que tá tocando na rádio, dizendo que é horrível hoje e o bom era nos anos 70. Mas é nossa gente que dá o play no som que tá tocando, cara. Por que a gente tá reclamando? O povo está escolhendo. Está dizendo o que quer.

Isso tem a ver com desejo também. Uma pessoa que chegou cansada do trabalho, ela não quer pensar na poesia maravilhosa. Ela só quer rebolar a raba. Ela tem o direito de ser o que ela quiser. Ela tem o direito de alisar o cabelo dela. Ela tem o direito de não gostar de compartilhar o ambiente comigo. E ela não precisa dizer o porquê. Ela tem o direito. Ela não pode é impedir que eu entre e saia. Mas ela tem o direito de não gostar de mim, mesmo sem me conhecer.

Impedir o meu acesso é o que o racismo faz. O racismo hierarquiza acessos. Prioriza acessos. Bens e direitos que deveriam ser de todos acabam sendo de uma categoria. Isso não pode acontecer e por isso que a gente tem os movimentos sociais. O Estado mesmo não dá conta dessa diferença toda.

CC l Você disse que o nosso povo escolheu o caminho político e às vezes algumas coisas te assustam. Qual leitura você faz dessa escolha?

ELLEN l Nós somos um povo altamente colonizado, né? Ainda com pensamento ainda muito hegemônico, que dialoga muito com essas forças de controle social. A gente não conseguiu falar ainda sobre a capitalização dos nossos corpos. Que corpo que vale mais que o outro. Tem um corpo que vale um luto nacional e outro que não, a gente não vai falar sobre isso porque ele não nos interessa. Que mortes valem, que vidas valeram, que vidas não valem nada. A gente precisa fazer como o sistema do capital se apropria dos nossos corpos. E como o corpo de uma mulher negra vale tão menos do que o corpo de um jovem branco, cis, hétero, branco e cristão. Quando a gente vai interferir nessa valia? Quando a gente vai conseguir dizer que toda vida vale? A gente ainda tá dizendo que algumas vidas valem menos mesmo. Mas o Sol, quando vem, ele nasce pra todo mundo.

Eu não acredito em meritocracia. Mas as pessoas acham mesmo que ocupam os seus postos e têm a conta bancária que têm porque merecem. Elas acham que tem a ver com merecimento, porque ela trabalhou. Ela não se dá conta de que o outro que não tem também trabalhou. Talvez de uma maneira muito mais agressiva que a ancestralidade dele toda. Tem um povo que trabalha alucinadamente e não tem pra viver dignamente. Não tem nem o que comer.

Eu encontrei muita pobreza nas ruas de São Paulo, diferente de Brasília, onde eu me criei. E tinha uma família na calçada e o moço pediu comida. Eu entrei pra comprar uma marmita. O dono do restaurante ficou muito chateado e disse: “isso aí é todo dia.”

CC l Mas a pessoa tem fome todo dia, não?
ELLEN l Muito obrigada. É isso. Você num come todo dia, cara!? Comer é todo dia, irmão. E por que a pessoa tá com tanto ódio de outra que tá precisando? Não quer dar? Não dá, cara! Não precisa ter raiva do cara que tá pedindo. E tava com raiva de mim, que tava dando.

CC l Na cabeça dele, é como se você tivesse estimulando o cara a não trabalhar, a ser vagabundo e a ganhar comida fácil…
ELLEN l Exatamente. Mas o dinheiro é meu e eu boto onde eu quiser, né? E isso ele não pode impedir. Aí ele fica com ódio.

CC l E o cara que tava pedindo era negro?
ELLEN l Adivinha? Com uma esposa negra, com três meninas pequenininhas, uma delas de colo. Acho que a mais velha tinha sete anos. Foram despejados de casa. Ficaram quatro meses sem conseguir pagar o aluguel e estavam na rua.

Cada história de uma pessoa na rua é uma história. Mas na maioria a gente vai encontrar a mesma ancestralidade. A grande maioria das pessoas que estão passando necessidade a gente vai encontrar esse lugar de exploração. A gente trabalhou bastante, cara, pra construir isso tudo aqui. E hoje acontece algo muito fantástico: hoje, a gente consegue ver milionários também dialogando com essa ancestralidade. Eu percebo que o nosso avanço é real. A gente vai chorar as nossas tristezas, mas precisa celebrar as nossas vitórias também.

Tem muita coisa acontecendo que a gente precisa deixar brilhar. A gente tem figuras internacionais poderosíssimas. E eu tô falando de capital mesmo. Porque o conceito de riqueza é muito amplo, né? Mas nós temos famílias negras reconstruindo isso a partir dos lugares que ocupam mesmo.

 

 

CC l Como você avalia toda a polêmica em torno da Beyoncé, por exemplo? Nos últimos trabalhos, ela tem deixado uma marca muito forte da ancestralidade dela. De negritude. De assumir o cabelo. De empoderar a filha sobre isso. E muita gente diz que tudo não passa de marketing…

ELLEN l Quem diz isso não conhece a obra dela. Desde o primeiro disco você consegue ver muito fortemente o R&B acontecendo. O hip hop tá muito presente no modo como ela compõe. O corpo dela é um corpo marcado. Apesar de ela ser uma negra mestiça, ela é evidentemente uma mulher negra. Eu não sei qual é a questão. Podem falar o que quiserem. A gente não consegue esconder um corpo negro, irmão. É um corpo negro em performance. Blá blá blá. Vão falar, irmão. As pessoas sempre vão falar.

CC l Hoje em dia, aos 36 anos e tendo passado por tantas coisas, dentre as quais um reality show de alcance tão grande, você consegue olhar pro mundo sem ser pela perspectiva étnica? Você anda na rua e percebe que os pretos estão trabalhando enquanto as famílias brancas estão de férias? Ou não chega a ser algo gritante pra ti?

ELLEN l Cada pessoa que foi alfabetizada nos mecanismos do racismo não consegue desligar a máquina. Se você foi alfabetizado em algum momento da sua vida, se você conseguiu aprender alguns mecanismos, se você viu o mecanismo do racismo acontecer, você não desliga. É como visão. Quando você põe os óculos, você pode ver. Agora…tem gente que anda cego mesmo. Ceguinho, tateando. Porque não percebe, né?

Geralmente, uma pessoa branca não precisou nunca falar sobre racismo. Ela não precisa. Pra que ela vai se conectar com isso? Se uma pessoa não é cadeirante, ela anda na rua e não percebe que não tem rampa. Ela não percebe. Ela não foi alfabetizada no cotidiano com essa demanda. Se ela não é obesa, ela não sabe o que é passar numa catraca de ônibus ou sentar num banco de avião. Se ela não é vegana, ela não vai perceber que não tem comida disponível pra alguém que não come carne e produtos de origem animal. Ela não sabe. Ela nunca precisou se conectar a demanda. Um homem não precisa saber que aquela fala foi misógina. Ele não sabe. Nunca viveu aquilo.

Aí, as pessoas precisam de educação; precisam ser ensinadas, né? Eu sempre acho que não. Todo mundo fala que a educação vai mudar tudo. Acho que a gente precisa de doses de sensibilidade. Só sensibilidade. Um pouquinho só.

CC l Mas nesse mundo doido dá pra ter isso?
ELLEN l Dá. Dá sim. Se eu consigo ver, meu irmão, um fenômeno racista, você pode ver. Eu não sou melhor do que você. Você também não é melhor que eu. Pode ser mais difícil pra alguns, como na escola eu adorava matemática e uma amiga minha sofria, tinha dificuldade. Aí a gente estudava junto. Às vezes, cantar afinado é dificultoso pra alguém. Mas todo mundo pode aprender a cantar. Uns vão cantar melhor mesmo que outros. Por uma série de fatores. Mas todo mundo pode cantar. A música é de todo mundo. Algumas pessoas vão ter mais facilidade, outras menos. Mas todo mundo pode.

A gente precisa exercitar mais a solidariedade. Se sensibilizar pra pensar mais o lugar da outra pessoa é o exercício de todas as religiões. É a compaixão, mano. Se colocar no lugar da outra pessoa. Aí não importa em que você acredita. Mesmo se você for ateu, pensar em organização social é pensar isso. As pessoas precisam acessar as coisas. Como o Sol, que nasce pra todos.

CC l A solidão da mulher negra, algo tão discutido hoje em dia, te assusta?
ELLEN l Eu sou uma mulher lésbica. Acho que a solidão da mulher negra é diferente do lado de cá. Os homens abandonam muito as mulheres negras. Mas as mulheres acolhem. A gente, culturalmente, traz essa marca do cuidado. Somos postas pra isso no mundo. Para o cuidado.

E eu não tô dizendo que toda mulher é cuidadosa e que os homens não são. Não é isso não. Mas eu acredito que a experiência da lesbianidade nos aproxima muito fortemente dum amor muito profundo entre mulheres. Muito profundo. E aí eu tenho a alegria de ter na minha vida muitas mulheres negras. E acho que a solidão é um fenômeno presente na vida adulta, independente do seu pertencimento étnico-racial. A solidão é um dos fenômenos que faz a gente entender que a gente cresceu. A solidão está. A solidão é. Ela é. Ela é senhora. Pra todo mundo.

CC l O que diferencia teu momento atual dos outros da tua vida e carreira, e como está sendo a receptividade do teu show, que é de música preta?
ELLEN l Tem alguns anos que eu decidi atualizar fortemente esse conceito revolucionário que é o amor. Tô cantando forte o amor. Eu acho que a gente precisa cantar o amor. A gente tava falando há pouco de sensibilidade e eu acho que é nessa dimensão que a gente reconstrói. Eu tô pensando nessa revolução. Em cantar essa revolução.

Já cantei muito nossa luta. Cantei muito nosso sangue. Cantei muito nosso suor. Cantei muito nossas tretas. E eu tenho cantado muito o amor desde o disco Afrofuturista, que foi um marco muito grande pra mim. Porque foi desejado e gestado por quatro anos. Antes de lançar o disco anterior, eu já trabalhava nele. E ele foi feito numa parceria muito bonita com a Poliana Martins e braços vindos de vários lugares do Brasil e da América Latina. Pessoas que me enriqueceram muito e me ensinaram muito. Eu continuo nessa força. Cantando esses pertencimentos. Cantando esse modo como eu percebo meu corpo passando pelo mundo. O disco é uma espécie de foto sonora do tempo. E tenho cantado esse tempo a partir dessas composições que me conectam muito com minha ancestralidade mas que me fazem muito pensar no presente. Porque o futuro é agora. É agora que estou construindo o futuro que terei. Tenho cantado isso.

E foi uma alegria muito grande encontrar “O Quadro”. Eu sonhei muito com esse encontro. Eu desejei muito. Três anos trás, eu falei que seria legal fazer essa dobradinha. E isso ontem [num dos shows em Fortaleza] foi material. Saiu da dimensão do sonho e virou matéria. “O Quadro” canta e tem uma produção muito próxima da minha. A gente dialoga muito com fundamentos do hip hop. Mas a gente se permite, dentro dessa imensidão do que é a música brasileira no mundo, muitos encontros estéticos. A gente mistura muita coisa. E tudo o que chega pra nós a gente fagocita. A gente devora. E é algo muito típico da música brasileira. A gente devora a música do mundo. A gente canta o soul como se fosse da gente. É nosso. A gente fez ser nosso. Taí o Tim Maia. Tem o nosso sotaque. O nosso jeitinho. As nossas sutilezas. A gente bebeu muito no mundo. Mas percebo que a gente mergulhou muito nos ritmos das tradições religiosas afro-brasileiras.

Eu tenho deixado isso acontecer muito naturalmente. Mas exigiu muita pesquisa. Muito mergulho. E a gente se misturou de um jeito muito bonito, muito fluido. No show, a gente faz canções minhas e canções d’O Quadro, e a gente visita referências comuns. O pessoal pergunta porque “Preta Música”. Mas se a gente tirar a parte preta da música não tem música brasileira. Se tirar o preto, não tem música. A música brasileira é preta.

CC l Você acha que o público tem esse entendimento?
ELLEN l Eu acho que a gente ainda tem mazelas muito profundas da nossa história escravocrata. A gente não pode esquecer isso. Existe uma cegueira muito grande discursiva. Uma cegueira identitária. As pessoas não conseguem se olhar no espelho aqui.

As pessoas brancas não conseguem dizer que são brancas, mano. Parece ofensivo. E em alguma medida deve ser. Porque você ter que lidar com essa história sua, que você herdou, deve ser muito violento, cara. Tem pessoas brancas na minha ancestralidade também. É isso. As pessoas brancas se defendem muito. Mas acho que chegou um momento muito legal de perceber quem é, quem tá junto, quem não tá. E ontem foi maravilhoso. Um teatro majoritariamente branco celebrando conosco nossa tradição negra.

CC l Do palco, no show, deu pra perceber isso?
ELLEL l Meu irmão, a máquina do racismo, uma vez que você é alfabetizado, você não desliga. Onde você entra você vê. Olhe em volta aqui, no restaurante [do hall do hotel]. Fala pra mim: cadê as pessoas negras? Estão aqui, conversando nessas duas cadeirinhas aqui. (risos) É isso. A gente tem, mesmo nas cidades mais negras do nosso país, resquícios da segregação.

As pessoas gostam de dizer que a gente não viveu aqui. O que é a favela, velho? A gente vive e não gosta de dar os nomes. Mas dar nome é dar significado às coisas. Vamos dar nome! O que ela sofre na escola não é bullying. Chama racismo! Chame de racismo. Não tenha medo.

Eu entrei no carro esses dias em São Paulo e o motorista falou pra mim “nossa, você foi muito direta”. Porque eu falei pra ele: “eu sou a mulher negra que tá na esquina de blusa azul”. Aí, eu disse: “funcionou, né?”. Ele achou estranho, forte demais. Porque eu podia ter dito pra ele que eu era uma loira de vestido vermelho e isso não seria ofensivo. Mas dizer que eu sou uma mulher negra vestindo azul é ofensivo.

CC l Aqui no Ceará existe o mito de que não existem pretos, muito embora, ironicamente, a população majoritariamente se autodeclare negra nos censos do IBGE e nós tenhamos 85 comunidades remanescentes de quilombo. O povo aqui se diz “moreno claro”. Se afirmar preto aqui é quase uma ofensa…

ELLEN l Quem quer ser negro num país onde ser negro significa não ter acesso ao básico, significa morrer na mão da polícia, significa você morrer nos aparelhos do estado pelos aparelhos do estado, significa você ter uma educação inferior ou receber um salário menor? Quem quer ser negro, cara? As pessoas vão dizer que são morenas mesmo. Porque elas querem outras coisas. Querem o melhor pros seus filhos. O projeto da mestiçagem é um pouco esse apagamento.

O eugenismo tá aí. O projeto eugenista é muito presente na história do nosso país na hora que a gente fala de povoamento. Não é à toa que a gente trouxe pessoas italianas. Rolou um investimento do Estado. Foi financiado pelo Estado. As pessoas não gostam de falar sobre isso e falam que têm as coisas porque merecem. Porque o avô trabalhou. Não, amor. O teu avô recebeu uma grana pra plantar. Pra comprar uns bichos pra trabalhar no roçado com ele. Não é assim: mereceu. Trabalhou. A gente também trabalhou. A gente também quer. A gente trabalhou mais. O fundamento disso aqui é a gente. Quem carregou essas pedras aqui foi a gente.

 

 

CC l O Rock in Rio criou na edição deste ano um palco chamado “Espaço Favela”. E você acabou de dizer que é preciso a gente dar nome às coisas pra elas terem um significado. O que você acha de um dos maiores festivais de música do mundo ter um “Espaço Favela” destinado a artistas de comunidades pobres? A gente tem que ocupar esse tipo de lugar? Ou não é qualitativamente interessante?

ELLEN l (silêncio) Cara, a gente tá falando de um dos maiores festivais de música do país. A gente tá falando de um grupo majoritariamente branco recebendo uma receita imensa. Como funciona o cachê do pessoal do palco favela em relação aos outros palcos? Não sei quanto é. Eu imagino. Mas não sei. Não sei se eu diria que a gente precisa boicotar não, sabia? Porque eu acho que a gente precisa estar nos lugares. Eu não diria “não vai, amiga” pra uma mulher negra que recebeu um convite pra tocar num dos festivais mais importantes do país. Eu vou dizer “vai e brilha muito; vai e arrasa.”

Eu acho que a gente pode se ocupar de coisas mais relevantes. Cadê o nosso festival com o palco que a gente vai dar o nome? Se o que a gente pode fazer é ocupar um palco num festival, a gente vai ocupar um palco num festival. Há uma maneira melhor de a gente fazer isso? Talvez. Aí eu acho que a gente vai ter que dizer qual é a maneira. A gente tá muito acostumado a sentar e ficar reclamando, sabe? Tudo do outro é melhor.

A gente precisa ocupar os lugares sim. E, se há polêmica, é bacana. Porque aí a gente tá falando sobre isso, né? Que é o mais importante.

CC l E festival de música preta não tem, né?
ELLEN l Não tem, gato. Não tem. Apesar de a gente estar em todos, né? Porque você sabe que é a gente que mantém os festivais de pé. Somos nós lá, montando os equipamentos de som, os equipamentos de luz. Somos nós atrás das câmeras. Somos nós os microfonistas. Somos nós, gato. Somos nós montando o palco. Aí, eu acho que a gente precisa fazer melhor.

Você não pode falar pra um cara que monta um palco que ele tem que boicotar um evento e deixar de receber um cachê pra três ou quatro dias de trabalho que pra ele pode ser maravilhoso e determinante pra ter comida em casa. Você não pode fazer isso. Isso não é inteligente. Acho que isso é contraproducente. A gente pode falar de coisas mais relevantes e edificantes pra nós.

Qual o nosso plano? E nós vamos fazer o quê? Minha ideia é sempre nos meus discursos falar das minhas referências. Falar das autoras que eu tô lendo, como falei aqui da Poliana Martins. Acho ela foda, das coisas mais maravilhosas que a gente tem na nossa poesia contemporânea. Gosto de falar da Conceição Evaristo, que marca muito meu imaginário e é uma ponte incrível pra eu conhecer outras autoras.

Depois da Conceição, eu cheguei nas autoras estadunidenses. Zora Hurston, Alice Walker, Toni Morrison. A gente precisa falar das coisas que nos interessam, ao invés de a gente gastar energia falando do inimigo, promovendo o inimigo. Por que, se eu acho que é ruim? Por que eu estou falando disso com os meus? Por que eu estou publicizando essa parada? Por que eu estou divulgando esse evento? Por que eu comprei o ingresso?

A gente pode quebrar o sistema por outras vias. Como consumidoras a gente pode quebrar. E a gente também pode fazer acontecer. Se organizar e criar o nosso. E, se as nossas estão lá, vamos lá ver as nossas. Vou trazer uma pessoa odiosa pra quê? Não tem sentido. A não ser que essa pessoa esteja investindo diretamente contra um direito meu e quando eu tiver uma ação contra. Falar por falar acho que não precisa. Que contribuição eu dou com isso? Essa militância de Internet precisa ser mais sofisticada. Mais coletiva. Menos individualista.

Um dia desses, eu vi uma menina reclamando que um artista nosso brilhante tava vendendo caro uma camiseta. Mana, lá na minha casa, eu aprendi desde criança que quando a gente acha um produto caro ou não tem o dinheiro pra comprar a gente não compra. Para de vir a público falar mal do cara que tá pagando uma pessoa pra cortar o pano, que tá pagando uma pessoa pra fazer uma impressão que você não vai encontrar em nenhum outro lugar, que tá pagando pros Correios levarem essa camiseta pra sua casa, que tá pagando 6% pra gestora do cartão de crédito, que tá pagando uma equipe pra realizar tudo isso, que tá pagando pro cara que desenhou e comprou a tinta, e que tá fazendo o negócio dele. Para de reclamar e vai lá no grande conglomerado, entra no shopping e compra, porra. Não vem pichar um mano nosso, velho! Não precisa ficar falando do cara.

Por que eu vou promover uma marca que não me interessa divulgar? Por que eu estou atualizando isso? Por que eu não deixo morrer no tempo e no esquecimento? Que campanha estúpida! Cuspindo pra cima. Por quê?

Me chamaram pra uma campanha político-partidária nas eleições. Pra eu publicizar. Eu disse que não achava inteligente. Que não ia postar nada. Eu trabalho com afirmatividade. Eu vou dizer o quê? Trazer à memória o que pode me trazer esperança. Falar das minhas autoras maravilhosas, dos filmes incríveis que eu vi, das séries maravilhosas que me tocaram e fizeram eu chorar, quero compartilhar o disco da minha amiga Letícia Fialho, maravilhoso. Chama “Maravilha Marginal”. Todo mundo tem que ouvir. Vou falar do disco do Rodrigo Bezerra, que tá lindo, com a Larissa Umaytá. Lindo.

É isso. Eu acho que a gente tá produzindo coisas incríveis, a gente faz coisas incríveis, e acessar os grandes veículos, espaços muito hegemônicos, é complexo. Mas lugares vazios são ocupados por ideologias dominantes. Não vou deixar vazio. Vou ocupar. Lá na sala de aula, no radinho… Vou fazer meus movimentos pra ocupar. E aquilombando a gente é mais forte, mano. Andando junto. Junto mesmo.

Os cristãos ensinam isso direitinho, sabia? São muitas ramificações do cristianismo. E eles se odeiam. (risos) Mas quando estão falando publicamente sobre um projeto, seja um que eles amem ou odeiem, eles andam juntinhos. Protestantes e católicos dão aos mãos, cara. E emplacam o projeto que querem. Eles nos ensinam isso. Sabe quem ensina isso também? Todas as tradições religiosas afro-brasileiras.

Era pra gente ter morrido aqui, cara. E a gente tem os cultos verdadeiramente ecumênicos da humanidade. Eu celebro com você o seu deus e você celebra comigo o meu. Isso é o candomblé, meu irmão. E a gente não deixa nenhuma tradição morrer. A gente se carrega aqui. É isso que eu acho que é a sobrevivência da nossa gente. É essa a glória. Amor, irmão.

 

 

PERFIL
Ellen Gomes de Oléria tem 36 anos. É atriz por formação e atua profissionalmente como cantora há 19 anos. Também é compositora e instrumentista autodidata. Nasceu em Brasília, no Distrito Federal, e ganhou projeção nacional ao participar da primeira edição do The Voice Brasil, em 2012, cantando em todos os programas músicas de origem negra. E venceu o reality. Tem três álbuns solo, tendo lançado dois de maneira independente e um pela Universal Music. No mais recente, Afrofuturista, de 2016, atuou também como produtora.

 

Deixe um comentário

Categories: Entrevistas

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *