É preciso pensar também nas famílias de quem é diagnosticado com sofrimentos psicológicos, tentou tirar a própria vida ou consumou o fato. O tempo de cada um nesse processo é muito particular, tanto quanto é fundamental a ressignificação das coisas (e das pessoas). Procurar ajuda especializada pode ser tão importante quanto ter uma rede de amor e uma rotina para chamar de sua

Quando a filha chegou em casa, a raiva da representante comercial virou medo. “Ligaram pra ela porque eu comecei a gazear aula. Ela ficou revoltada e me perguntou por que eu estava fazendo aquilo. Falei que não aguentava mais, que estava traumatizada com a maldade de algumas pessoas. A mamãe ficou desesperada quando soube que eu tentei algo contra mim mesma”, lembra a jovem.

Hoje com 36 anos, ela recorda de incontáveis episódios de bullying na infância. “Nessa época, só um colega ligou pra mim. Literalmente. Eu levei muito, muito tempo pra conseguir ter relacionamentos saudáveis e amigos verdadeiros. Não sei como aguentei. Só sei que hoje a vida está boa. E falar é terapêutico”, acrescenta.

Falar. Foi graças à ajuda especializada que a então garota percebeu como era importante se cuidar e manter-se ali, viva. Negra e gorda, ela representava tudo o que a escola de alto padrão onde estudava insistia em marginalizar. A coragem da mãe de buscar acompanhamento especializado diante do sofrimento psicológico da menina foi determinante para o futuro da jovem ser o presente promissor de hoje.

A estudante é agora professora, milita contra o bullying e alerta sobre o perigo da autodestruição a todo aluno em quem percebe algo diferente. “Se minha mãe não tivesse insistido em irmos num psiquiatra, eu não sei o que teria acontecido. Trocar de colégio, ir para uma sala com gente diferente, que até transexual tinha e todo mundo se respeitava, aliado ao que ouvimos do médico foi muito, muito importante. Dá um nó na garganta de lembrar, mas sei que sou mais forte. O suporte especializado foi fundamental tanto pra mim quanto pra minha mãe”, segue a educadora.

E foi tão necessário assim porque quando alguém em casa apresenta sintomas de sofrimento psicológico ou sinaliza alguma intenção de se machucar ou mesmo efetiva o atentado, a família toda precisa de cuidados. Estudos indicam que pelo menos cinco pessoas ao redor de quem está doente também adoece um pouco. “Lidar com o estigma, a vergonha, o tabu e a culpa não é fácil. Psicoterapia é uma possibilidade. Caso não seja possível, encontrar rotinas de atividade física, lazer, amigos, ter com quem conversar ou participar de grupos para familiares pode ser uma boa”, sugere a psicóloga Isadora Dias.

Alguns equipamentos das redes públicas de saúde mental oferecem suporte familiar. Centros de Assistência Psicossocial (Caps) devem dispor desse serviço – que também pode ser encontrado em grupos voluntários e em clínicas-escola de cursos de Psicologia.

FACILIDADE E EXIGÊNCIA
O suporte à família é impositivo porque o vínculo de parentesco, no sentido da proximidade, seja afetiva ou territorial, tanto pode facilitar o diagnóstico de sinais de alerta de um ente com sofrimento psicológico ou pensamentos de morte quanto pode exigir dessa casa – de todos os integrantes – uma total ressignificação do que aquela pessoa foi e do que é a vida. Isso precisa ser entendido e posto como prioridade.

“Na minha cabeça, não tinha nada que que pudesse me confortar. A dor é grande demais. Até que encontrei outra mãe que também perdeu um filho e ela me disse: “procure um grupo de apoio ou um Caps e bote pra fora essa angústia. Você vai ver como faz bem”. Claro que isso não trouxe meu menino de volta. Eu nunca vou esquecer daquele dia. Memória de mãe é eterna. Mas eu me dei conta de que não posso maquiar minha dor. Ele se foi porque não teve coragem de falar. Eu precisei ter. Tive e não me arrependo.”

O relato da comerciante remonta a meses e meses de espera entre 2009 e 2012. De eternidade em eternidade, ela atravessou quase três anos desde a morte do filho até pedir socorro a um especialista. Viveu um luto intenso depois da euforia de vê-lo começar o curso superior tão almejado. Seria médico. Dizia pra mãe do desejo de ajudar outras pessoas. Queria curar as dores do mundo.

“Eu dormi mãe e acordei sem meu filho. Posso dizer que quase cheguei no fundo do poço. Eu me sentia culpada. Queria saber onde errei, entender o porquê. Só sai disso com meu marido literalmente me puxando pelo braço e com a força que encontrei no grupo de apoio. A gente pensa que só a gente tá passando por isso. Mas não é. Vi que muitas mães sentiam a mesma dor que eu e decidi que ia continuar. Por ele. Pelo meu filho. Se elas conseguiam, se estavam ali, de pé, eu também estaria.”

O primeiro passo foi a escuta terapêutica. Mas a linha de cuidado envolve outros procedimentos. “O direcionamento acontece conforme a demanda, porque a vivência da família diante da perda de um ente compreende questões que podem perpassar o sentimento de culpa, o estado de choque pela forma da morte, a mudança de rotina, a necessidade de reorganização na convivência e repercussões que a perda acarreta até mesmo a reconstrução da vida”, especifica a enfermeira e terapeuta ocupacional Málbia Oliveira Rolim Barbosa.

“Atribuir um novo significado frente o contexto que vai deixar uma marca para sempre nesta família é fundamental. Contudo, o tempo para construir uma nova percepção diante deste fenômeno é muito particular. O acompanhamento terapêutico ajuda a lidar com esse contexto, assim como uma família bem orientada tem mais chances de manejar o sofrimento”, complementa o psicólogo Victor Melo.

* As identidades das entrevistadas são mantidas sob sigilo a pedido delas.

FOTO EM DESTAQUE: Mateus Dantas.

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