Especialistas ouvidos pelo Ceará Criolo citam a Internet como fator complicador para o desenvolvimento de transtornos psicológicos. Produções cinematográficas são outro campo de alerta. Também afetado, o ambiente escolar requer atenção dos educadores. Quanto mais natural for o debate em torno da saúde mental, menos glamourizada será a prática de atentar contra a própria vida

Fosse a depressão um diagnóstico simplório de “falta de Deus”, como tanto propaga o imaginário popular, dois dos mais importantes líderes religiosos do Brasil não teriam atravessado esse que é um dos principais transtornos psicológicos associados a quem atenta contra si. Os depoimentos dos padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo ganharam as redes sociais e são o retrato de duas verdades: transtornos psicológicos e pensamentos de morte podem afetar qualquer pessoa e falar sobre saúde mental é uma coragem impositiva. A qualquer pessoa. Especialmente em tempos globalizados, como os atuais.

O acesso à Internet facilita a vida moderna, mas também abre margem para ataques que, se não gerenciados de maneira apropriada, podem ter consequências graves. O chamado cyberbullying está cada vez mais presente no mundo virtual e é de forma recorrente apontado como motivo para muitos jovens desenvolverem problemas psicológicos. É causa que pode estar relacionada, por exemplo, com a morte da popstar coreana Sulli, de apenas 25 anos, em 14 de outubro.

Ataques cibernéticos já resvalam em relações interpessoais, trabalhistas e até no ambiente estudantil do mundo real. “Se o ataque for gordofóbico, homofóbico ou racista, a orientação inicial é a criança ou o jovem procurar os pais. Porque geralmente quem está fazendo essas ameaças é um colega de sala ou do prédio e, às vezes, a medida mais simples, que é conversar com os pais, resolve. Em geral, os pais obrigam o filho a deletar publicações e apagar comentários”, pontua o psicólogo Rodrigo Oliveira.

Se o conteúdo em questão for de cunho sexual (exposição cuja violência psicológica é ainda maior), a abordagem precisa ser outra. Mais incisiva. Até porque, além de sofrer cyberbullying, a vítima dificilmente procura os pais espontaneamente. Há vergonha, medo e sentimento de culpa. Por ter tirado e compartilhado a foto (ou permitido o clique), ela quase sempre acredita que tudo está acontecendo porque ela merece.

Psicólogo Rodrigo Oliveira

“Quando há ameaça de divulgação de imagens íntimas, dificilmente você tem o controle desse material. Viraliza muito rápido. Quando a coisa chega aos ouvidos da vítima, geralmente já é caso de procurar a Justiça. Pra vítima, diretamente, a orientação que dou é dizer que não há nada de errado em compartilhar uma imagem que ela queira com alguém que ela gosta e confia. Mas alerto que é preciso tomar cuidados. Porque naquele momento ela confia naquela pessoa e isso pode mudar em algumas semanas. O interessante é que, quando surgir essa vontade, se tenha cuidado de não mostrar o rosto ou alguma parte do corpo que te identifique. Mas para quem espalhou a foto o discurso tem que ser direto. Pra assustar. A pessoa precisa saber que cometeu um crime”, acrescenta o psicólogo.

A DESUMANIZAÇÃO
No caso de mulheres negras, os ataques cibernéticos são ainda mais hostis, especialmente se elas forem ativistas de questões raciais ou relacionadas à identidade estética, e podem ter consequências imprevisíveis. Pesquisadora do tema, a professora Tatiana Paz afirma que as contranarrativas ao que elas apresentam e defendem nas redes são insistentemente depreciativas.

“As pessoas têm se apropriado das possibilidades comunicacionais para expressar conteúdos de ódio. Elas agridem a imagem dessas mulheres [Tatiana pesquisou youtubers negras]. Essa violência está muito associada ao racismo estrutural, que desumaniza o corpo negro e a intelectualidade negra. Esses ataques atingem a autoestima dessas mulheres, que muitas vezes acabam acreditando que aquela mensagem é real e sobre elas. Isso reverbera no psicológico”, afirma Paz.

Doutora em Educação, a pedagoga alerta para o fato de crianças e adolescentes, sujeitos naturalmente mais vulneráveis, em processo de formação socioemocional e comumente expostos ao bullying do mundo real, apresentarem déficit de atenção, introspecção e até comportamento mais agressivo, no instinto da autodefesa, quando também expostos ao cyberbullying.

A educadora Tatiana Paz

Segundo ela, os relatos de cyberbullying são recorrentes entre professores e pais de alunos, e podem estar relacionados a opressões raciais e de gênero. “Pensar essas formas de violência é pensar em quais valores são transmitidos pela família, pela mídia… Essas violências são estruturais, têm ligação com a formação de uma sociedade desigual, de valores coloniais, e precisam ser trabalhadas de forma muito específica pela escola. O primeiro passo é dar nome a essas opressões. Falar claramente que é racismo, que é homofobia, que é gordofobia…”, sugere Tatiana.

CINEMA E JORNALISMO
É preciso ainda estar [muito] atento a fatores externos. Ao que as crianças e jovens assistem, por exemplo, pois empresas de comunicação e produções cinematográficas exercem forte influência no modo como qualquer pessoa enxerga o mundo. Na infância e na juventude, a escola acaba sendo um dos espaços mais propícios para a detecção de atitudes extremas, como aponta um estudo do governo americano a respeito de um seriado sobre o universo de uma jovem que tira a própria vida.

Divulgado em maio deste ano, o levantamento indica que a veiculação dos primeiros episódios, em março de 2017, tem ligação direta com o aumento de quase 30% dos casos de pessoas que se autolesionaram de forma fatal nos Estados Unidos no mês seguinte à estreia. Uma das principais críticas ao seriado é o de retratar a autodestruição como solução possível para problemas existenciais (e até romantizada em muitos momentos), quando a política pública de saúde mental indica rigorosamente o contrário: quem está em sofrimento psicológico deve buscar alguém de confiança para conversar e ajuda especializada (ou, em casos extremos, uma emergência hospitalar). Mas nunca morrer.

Recentemente, um suspense psicológico sobre um famoso anti-herói do cinema também envolveu-se em polêmica ao associar os transtornos psicológicos de um homem de meia-idade à violência como única saída para resolver sofrimentos da alma, dívidas emocionais interpessoais e/ou exclusões sociais. Ambos os produtos têm como público-alvo adolescentes e jovens (15 a 29 anos), uma das faixas etárias mais críticas para o cometimento de autoflagelo e atentado à vida.

“Se o sujeito tem a autoestima afetada por situações de violência, o desenvolvimento cognitivo dele certamente vai ser afetado. E o professor precisa estar atento ao sujeito na sua totalidade. Ele não consegue resolver todos os problemas, mas precisa entender que a aprendizagem perpassa todas essas dimensões. Nem sempre a prevenção consegue dar conta. Então, quando as violências aparecem, é importante conscientizar a família. O educador precisa estar dentro dessas questões, porque as esferas do desenvolvimento humano [afetivo, cognitivo e social] estão interligadas”, finaliza Tatiana Paz.

SAIBA MAIS
Além da depressão, são associados à prática de tirar a própria vida: transtorno bipolar, abuso do álcool e outras drogas, esquizofrenia e transtorno de comportamento boderline.

O comediante piauiense Whindersson Nunes foi outra celebridade que recentemente admitiu de forma pública sofrer de transtorno psicológico. Publicou vídeo no qual relatava estar triste há alguns anos, mesmo tendo conquistado tanto sucesso, fama e dinheiro, e não sentia vontade de viver.

Com mais de 23 milhões de seguidores no Instagram e 36 milhões de inscritos num canal do YouTube, ele foi diagnosticado com depressão, mostrou pro mundo que o transtorno pode afetar qualquer pessoa, procurou ajuda especializada (um psicólogo e um psiquiatra) e cancelou a agenda de shows por três meses.

Ele dedicou esse tempo só para tratar o vazio que sentia. Chegou a tomar remédios, algo não prescrito para todos os tipos de paciente porque muitos solucionam as próprias questões “apenas” com as sessões terapêuticas ou outras abordagens.

Após admitir, publicizar e tratar o transtorno, Whindersson declarou à revista eletrônica global Fantástico: “hoje, eu me sinto bem pra falar. E quem quiser perguntar pode perguntar e eu vou falar. Eu me sinto feliz. Sinto que eu estou fazendo o que tinha pra fazer, que encontrei um sentido.”

IMAGEM EM DESTAQUE: Rayana Vasconcelos.

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O especial Vidas Negras Importam é composto de 13 textos. leia também:

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FIQUE ATENTO AOS SINAIS, SALVE VIDAS E ESQUENTE O CORAÇÃO

O CUIDADO COM QUEM FICA

ENCONTRE O CUIDADO ADEQUADO E POTENCIALIZE A (SUA) VIDA

LOCALIZE O SERVIÇO MAIS PERTO DE VOCÊ

SOBRE REDESENHOS, VIDAS E CADEIRAS NA PRAÇA

FALAR PRO CORPO SARAR

ENTRE AVANÇOS E RECUOS DO PODER PÚBLICO

UMA COR PARA O ANO INTEIRO

“É PRECISO AJUDA PORQUE DIFICILMENTE VOCÊ SE AFASTA DE VOCÊ”, ALERTA PSIQUIATRA

ARTIGO DE OPINIÃO: RACISMO E SAÚDE MENTAL

BATE-PAPO COM O LEITOR: DECIDIMOS FALAR DE VIDA

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