Lanço meu primeiro livro dentro de algumas semanas. E é impossível atravessar a expectativa desses dias sem pensar no quanto a Literatura nunca foi pra mim. Ou melhor: até foi, mas só enquanto leitor.

Sou de um tempo no qual Machado de Assis era branco, nos registros oficiais e no imaginário coletivo. E as histórias de Monteiro Lobato não eram apontadas como preconceituosas. E não existiam ainda tantos escritos sobre racismo, ser negro ou apenas ser.

E olhe que tenho somente 33 anos.

A verdade é que eu demorei a perceber que livros não são objetos. São lugares. Lugares infinitos, eternos e acolhedores. Ninguém me disse isso na infância. Nem na adolescência. Nem mesmo eu já sendo homem feito. Descobri por mim mesmo. Fuçando. No bom e velho linguajar cearense: escascaviando.

Nem mesmo nos corredores da faculdade de Jornalismo a possibilidade de escrever um livro me foi apresentada como possibilidade. Porque não era, de fato. Eu não enxergava que era. Não tinha referencial. Ninguém era espelho pra mim. Nenhum negro. Os livros que li eram de autores brancos. Todos eles.

As histórias tinham brancos conquistando impérios, brancos ocupando cargos importantes, brancos ficando milionários, negros sendo escravizados, negros fazendo serviços e funções braçais e negros morando em favelas, sem, muitas vezes, saberem sequer o próprio nome. Eu só soube de Abdias Nascimento mais de uma década depois de me formar. Só conheci Toni Morrison e Maria Firmina dos Reis ano passado. Só descobri Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro e Winnie Bueno por causa das redes sociais. Só esbarrei em algo de Conceição Evaristo por indicação de uma amiga (branca).

E tantos outros “sós” me formam.

Interrompi essa espiral quando um homem e uma mulher improváveis me disseram: “Bruno, você pode ser o que quiser”. Inclusive na Literatura.

Especialmente na Literatura.
Principalmente na Literatura.

Ambos brancos. Ambos escritores. De dois continentes diferentes, com vidas distintas em tudo, inclusive no estilo narrativo, mas dispostos à mesma sensibilidade que iluminou pra mim um caminho até então impossível.

Ao lerem isso, Socorro e Valter vão dizer que não há o que eu agradecê-los. Mas a verdade é que eles – os dois, cada um a seu modo – ressignificaram um pedaço importante meu. Desenharam pra mim um outro jeito de eu me enxergar. De eu me querer.

Eu não me descobri preto. Antes de me dar conta da beleza e da riqueza que é ter a pele escura, o mundo me apontou como tal. “Negrinho”, “escurinho”, “moreninho”, “ladrãozinho” e tantos “inhos” caibam no despedaçar a alma de alguém eu ouvi.

Da mesma forma, eu não me descobri escritor. Foram Socorro e Valter quem me apontaram pra mim mesmo como tal. Eles me salvaram com palavras. Palavras são um tipo de fé. E fé é o que a gente enxerga quando o mundo está cego. Eles, Socorro e Valter, são feitos de palavras. Palavras bonitas. De esperança. Da chance de eu, um homem negro e de periferia, me ver na Literatura. Ver na Literatura um lugar pra mim.

Agora, ocupando esse lugar, quero que ele seja de muitos outros negros. Que o menino da favela mais pobre entenda desde cedo o poder transformador de estar num lugar e cruzar com alguém igual a ele. E, a partir disso, narrar a vida dele – ou a de quantos personagens ele quiser – pro resto do mundo. Pra quantos mundos ele achar que existem.

A gente não precisa esperar até a maturidade pra se considerar possível num mundo que todo dia o dia todo se mostra impossível (e nos diz que somos impossíveis). A gente deve/precisa ter consciência de si desde a meninice. Só assim a gente deixa de ser um amontoado de “sós” e passa a ser gente.

Socorro e Valter, obrigado.

PS: meu primeiro livro se chama “E, no princípio, ela veio: crônicas de memória e amor”. É uma homenagem à minha mãe, a maior fortaleza de mim mesmo sem eu ter saído de dentro dela. São 17 textos sobre ela, o sertão, a gente e a vida. Sobre o amor e o Amor. Está sendo publicado pela Editora Moinhos. Tem prefácio de Valter Hugo Mãe e posfácio de Socorro Acioli.

 

FOTO EM DESTAQUE: André Borges/Agência Brasília.

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