A voz de Francisco desliza tão facilmente pelo ouvido em todas as nove faixas de “Raiz”, seu álbum de estreia, que a gente nem sente o CD passar. O timbre suave, as letras delicadas, as melodias simples (e, ao mesmo tempo, muito bem lapidadas) e as referências escancaradas à cultura preta fazem o trabalho desse rapaz de apenas 24 anos ser uma obra-prima.

“Raiz” foi lançado no último dia 10 de janeiro, está disponível em todas as plataformas digitais e desde que esbarrei numa postagem de Pabllo Vittar a respeito do primeiro single (“Coração tambor”) meu player não toca outra coisa. Foi ouvir o verso “a verdade é o silêncio que mora dentro de cada ser” pra ser fisgado e seguir pra música seguinte e pra próxima e pra outra e pra repetir tudo de novo.

O clipe, gravado em Luanda, maior cidade e capital de Angola, na África, é um abraço na ancestralidade do povo negro. De encher olhos, ouvidos e coração. Porque fala de passado mas também de futuro. Do quanto a minha gente é rica das felicidades, dos amores e das esperanças. Da certeza de uma fortaleza indestrutível. Eterna.

Impossível ouvir o álbum sem pensar nele como uma homenagem à negritude. Daqui, de Salvador, terra de Francisco, e dos povos originários africanos, nosso melhor presente, como bem diz o cantor em “Afro futurista”, faixa que fecha o CD e na qual ele divide os vocais com o avô Gilberto Gil.

Cabe aí, inclusive, uma reflexão. Fran, como se apresenta artisticamente, é filho de Preta Gil e neto de um dos maiores nomes da música popular brasileira. Mas faz questão de abdicar do sobrenome. Um recado direto do desejo de ter uma carreira solo reconhecida pelo som de excelente qualidade que faz e não somente pelo peso da família.

Eu mesmo, sendo bem franco, sequer sabia do parentesco. Descobri só depois de Fran me levar pra um passeio bonito pela terra de onde todos viemos. Admiração grande pela musicalidade desse moço. No ar rarefeito de afetos dos dias atuais, ele é uma lufada de esperança e orgulho que precisamos ter das nossas origens.

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