16 de Abril, 2021
Sem titulo 1

140 anos do movimento dos jangadeiros: um novo olhar

“No Ceará não se embarcam mais escravos”. Era o que gritavam os negros jangadeiros na Praia do Peixe, atual Praia de Iracema, em Fortaleza, quando os comerciantes-traficantes pediam a eles que levassem cativos nas jangadas até o navio. Esses jangadeiros negros respondiam que não.

O episódio ocorreu nos dias 27, 29 e 30 de janeiro de 1881. Um acontecimento que revelou duas coisas. A primeira: lideranças negras à frente do movimento, notadamente o liberto José Luiz Napoleão e a esposa, também liberta, Maria Simôa da Conceição, conhecida popularmente como Preta Tia Simoa. A segunda: uma forte organização, marcada pela consciência negra dos jangadeiros (sim, defendo que esses jangadeiros eram todos ou em sua maioria negros), que culminou na eficácia do movimento.

Foi essa ação dos negros e negras que deu visibilidade ao movimento abolicionista e de fato radicalizou a ação abolicionista. Não fosse por isso, os abolicionistas continuariam libertando as mulheres, que não tinham tanta relevância no comércio interno, e indenizando os donos de escravizados.

Foram três dias de rebeldia e resistência nos quais esses transgrediram a ordem social de que “negros devem obedecer aos brancos”. Era o que os brancos desejavam. Entretanto, isso não ocorria de forma absoluta e cegamente. A negrada sempre resistia às violências e ao processo de desumanização que a condição de escravizado representava. E nesse evento não seria diferente.

Esses jangadeiros esperaram o momento certo para se rebelarem. Quando se recusam a embarcar em suas jangadas os cativos, eles estão enfrentando a classe dominante da província do Ceará. E esses comerciantes-traficantes procuraram usar de todos os meios para concretizar seus objetivos. Buscaram subornar os jangadeiros para que os mesmos abandonassem seus princípios e levassem seus cativos ao navio. Mas a negrada ficou firme.

Alguns leitores podem estar estranhando essa abordagem. Durante décadas, um enfoque que privilegia o protagonismo dos abolicionistas predominou nas obras oficiais que tanto formou muitos cearenses nas aulas de História do Ceará. Essa narrativa histórica não demonstra o interesse de discutir o papel das lutas negras no processo da abolição no estado. Na verdade, é possível que nem considerem que houve resistência negra. No entanto, discordamos dessa perspectiva de análise sobre esse episódio. Essa discordância está fundamentada numa investigação feita em livros raros e fontes documentais pesquisadas no Arquivo Público do Ceará, Instituto Histórico do Ceará e Biblioteca Pública Menezes Pimentel sobre o tráfico interprovincial1. Esses estudos revelaram que houve grande resistência de escravizados contra o comércio de seres humanos. Prática que durante a segunda metade do século XIX predominou no Império Brasil.

É justamente por causa da leitura dessas fontes que construímos o argumento de que seriam negros os jangadeiros que estão à frente do movimento e recusaram embarcar em suas jangadas os cativos. A base principal desse argumento se encontra na história de vida do seu líder, José Napoleão.

Quem foi José Napoleão?

Sobre o José Luiz Napoleão, pouco se sabe. O que se tem é retirado dos episódios da paralisação dos jangadeiros, jornais e de fala de terceiros. Tudo indica que a ausência de maiores informações sobre esse liberto na história está associada à decisão dele de indicar outra pessoa para assumir o comando do movimento abolicionista na praia. Ao se afastar do círculo dos abolicionistas eleitos como principais e únicos protagonistas da Abolição da escravidão no Ceará, sua vida, ao que parece, deixou de ter importância para a História.

Raimundo Girão, em narrativa sobre o movimento dos jangadeiros, informa que após as vitórias conquistadas pelos homens do mar, o presidente da Sociedade Cearense Libertadora, José do Amaral, procurou José Napoleão e de forma insistente propôs que assumisse a direção da campanha abolicionista no “campo praieiro”. Após ouvir pacientemente a sugestão, esquiva-se de tal responsabilidade, que na interpretação de Girão desculpou-se “escondido na sua exagerada modéstia: ‘Seu Zezinho, tem aqui um que serve para o que o senhor quer: — é o Chico da Matilde”2.

Napoleão indica o Chico da Matilde, Francisco José do Nascimento, que aceita a missão. Esse ato de Napoleão é uma atitude evidente de que entre eles não havia disputas. Ao contrário. O que parece é que havia entre ambos um respeito mútuo e confiança.

Recomendar o Chico da Matilde representou um reconhecimento a alguém do seu meio, possuidor de grande valor a quem já conhecia bem. O resultado logo se viu, pois o epíteto de “Dragão do Mar” não foi uma mera loa poética e sim resultado da competente campanha exercida no combate à escravidão.

Nascido em Aracati, negro, assim como Napoleão, Chico da Matilde, o Dragão do Mar, era prático-mor da Barra. Trabalhou como responsável pelo serviço das lanchas do então comendador Luís Ribeiro da Cunha, um dos principais traficantes e negreiros de Fortaleza. Foi justamente por exercer tal função que fora despedido, fruto da retaliação promovida pelos negreiros contra aqueles que participaram da paralisação dos jangadeiros em 30 de agosto de 1881.

Segundo ainda Girão, a recomendação de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, para ser o representante dos abolicionistas na praia por Napoleão, também é enfatizada por Isac do Amaral:

Nas greves da praia em 1881 tivemos, como principal mentor dos jangadeiros, o liberto Antonio Napoleão [nessa fala o nome dele aparece como Antônio e não José], caráter adamantino de abolicionista e de altruísmo fora do comum. Com seu titânico esforço conseguiu, vintém a vintém, juntados avarentamente, até com o sacrifício da alimentação, obter carta de alforria. Longe, todavia, de gozar mais folgadamente os foros da cidadania conquistada, Antonio Napoleão continuou a quebrar os grilhões de seus irmãos de cativeiro, fazendo de seu pé-de-meia os fundos necessários para ir indenizando novas alforrias. Mas era de tal modéstia que ninguém o pôde fazer líder oficial da classe marítima, em cujo meio se tornou venerado. Dizia-nos sempre: ‘para esse lugar, seus moços, só um homem novo e forte como o Chico da Matilde, que é também jangadeiro muito sério e amigo dos colegas da praia’. Daí nasceu a escolha deste, cujo o nome próprio era Francisco José do Nascimento…”.3(Grifos meus)

Observe que tanto Isac do Amaral quanto Girão recorrem à “modéstia” de Napoleão para explicar a recusa à continuidade do movimento como representante abolicionista no campo praieiro. E essa mesma modéstia é responsável pela recusa também de ser visto como “líder oficial da classe marítima”. É provável que haja outras razões para tal atitude.

Não se deve desconsiderar a possibilidade de Napoleão ter-se negado a assumir tal posto por realmente ser modesto. Reduzir seu ato a um traço de caráter seria, no mínimo, anti-histórico. Pode-se nesse momento levantar outras hipóteses que tenham levado Napoleão a não assumir esse compromisso. Uma delas seria a de que ele não desejaria uma parceria mais estreita com a instituição abolicionista Sociedade Perseverança e Povir. E a razão pode ser encontrada na própria condição social e no projeto político daqueles que a formavam, os ex-negociantes. O historiador Geraldo Nobre apresenta informações importantes quando diz:

Na verdade, eram negociantes quase todos os principais libertadores: José Correa do Amaral, Antonio Cruz Saldanha, José Teodorico de Castro, Francisco Florêncio de Araújo, Manuel Albano Filho, Joaquim José de Oliveira Filho, Alfredo da Rocha Salgado e Raimundo Maciel, da corrente radical, impulsionada por João Cordeiro e Antonio Leal de Miranda, Joaquim Januário Jefferson de Araújo, José Francisco da Silva Albano, Luis Ribeiro da Cunha, Luis Seixas Correia, João da Fonseca Barbosa e outros, do Centro Abolicionista Cearense, de tendência progressiva, surgida em reação áquela primeira e em solidariedade com alguns vultos atacados duramente e expostos à execração pública, nas manifestações e nos boletins de iniciativa dos mais exaltados…”4

Todos brancos de classe média e que lutavam por uma mudança sem radicalismo do quadro social, mas apenas pela substituição do trabalho escravo pelo assalariado. Essa possibilidade não deve ser descartada. A história de vida do velho Napoleão é marcada por situações de muita luta e provações. A luta de um ex-escravizado para conseguir sua liberdade é bem diferente daquela proposta almejada pelo movimento abolicionista cearense.

E mais: a experiência forjada na luta cotidiana do cativeiro construiu, entre escravizados e libertos, visões bem distintas de liberdade. E a liberdade desejada pelo ex-escravizado seria bem diferente daquela implantada pela abolição da escravatura. Napoleão pôde ter intuído tudo isso. E essa forma de encarar os fatos deve ter pesado sobre sua decisão. E isso pode ser percebido numa notícia do Jornal Gazeta do Norte em 1882.

Reuniões

Hoje ao meio dia reunem-se:

A libertadora Cearense em casa do 2º secretário, Antônio Martins.

A sociedade Typographica Cearense em casa do 1º secretário Antônio Firmino Goyana.

Club dos libertos em casa de José Napoleão. (Grifo meu)5

Penso que José Napoleão não confiava totalmente nessa sociedade. Veja que ele está à frente, presidindo, outra associação.

A fala de Isac do Amaral revela as dificuldades de Napoleão para ter sua alforria, e daqueles que procuraram seguir o mesmo caminho: “Com seu titânico esforço conseguiu, vintém a vintém, juntados avarentamente, até com o sacrifício da alimentação, obter carta de alforria”. Volto a chamar atenção aqui sobre a experiência de vida deste liberto. É nela, acredito, que se encontram os motivos das decisões tomadas por Napoleão. A luta o tornara desconfiado e ladino. Não aceitaria qualquer proposta ou parceria mais extensa. Sua participação na paralisação se deu pelo fato de ser algo concreto e sob o controle dos jangadeiros.

A indicação imediata do amigo Chico da Matilde foi sua estratégia de não participar sem ter que revelar as verdadeiras razões e, conjuntamente, recomendar alguém de sua confiança. Dessa forma, continuaria acompanhando de perto o movimento e dando contribuições. O argumento fala por si: “para esse lugar, seus moços, só um homem novo e forte como o Chico da Matilde, que é também jangadeiro muito sério e amigo dos colegas da praia”, além da negação ao posto, aponta alguém com os mesmos atributos: ligado a praia, relação próxima com os “colegas da praia” e idade – moço e forte. Com esse discurso, Napoleão foi bem esperto: evita expor razões que poderiam prejudicar o movimento e, ao mesmo tempo, recomenda como seu substituto Francisco José do Nascimento, um negro de sua confiança que passa a fazer parte do movimento abolicionista, forçando a História oficial, mesmo a contragosto, reconhecer que havia um representante dos homens da praia no cenário político das lutas abolicionistas cearenses. Nesse panorama é que desaparece “o Chico da Matilde” e nasce para a sociedade e para a historiografia a figura do Dragão do Mar. Quanto a Napoleão, continuou na luta do seu modo, como mostrado acima.

Pode-se deduzir que, se corretas essas ponderações, Napoleão foi um homem perspicaz diante desta situação. A vida o tornara assim. A opção de indicar Dragão do Mar para ficar em seu lugar foi certeira, pois ele assumiu esse papel de forma firme e coerente.

Não se trata aqui de julgar o papel de um em detrimento do outro. Ambos foram homens que tiveram suas vidas marcadas pela sociedade escravista e que a viveram de forma digna, merecendo, portanto, um lugar na História do Ceará. O que se procura, nesse momento, é apresentar uma outra possibilidade que explique a recusa de Napoleão em não querer e passar para outra pessoa o cargo de representante dos abolicionistas entre os jangadeiros. E essa razão pode ser encontrada na falta de credibilidade do movimento abolicionista em lutar por uma real abolição da escravidão no Ceará.

A vida de Napoleão, um ex-escravizado que lutou para comprar a própria liberdade e a liberdade da família, o deixou bem ladino. E a indicação de Nascimento pode ter sido feita, por confiar no amigo, pelo conhecimento de sua história de vida e de suas convicções.

Há algumas histórias na vida de Francisco José do Nascimento que elucidam suas fortes convicções ao comprometer-se com a causa abolicionista. Acredita-se que por ele ter conhecido um dos participantes da revolta do barco Laura II, foi fundamental para um maior entendimento de sua formação e da sua consciência de luta contra a escravidão.

Como foi exposto acima, na vida do liberto José Napoleão pode ser encontrada a razão de a maioria dos jangadeiros serem negros. O velho Napoleão, a duras penas, juntou um pecúlio e comprou sua alforria. Depois, a da mulher e a dos filhos. Porém, não parou aqui. Ele continuou a quebrar os grilhões de seus irmãos de cativeiro, fazendo de seu pé-de-meia os fundos necessários para ir indenizando novas alforrias.6

A conjuntura desse período era muito perigosa para os negros. Estamos falando aqui do tráfico interprovincial. Tive acesso a muitos processos de libertos que acusavam comerciantes de reescravizá-los. Mesmo livres, os comerciantes, de alguma forma, tomavam suas alforrias e os colocavam nos seus lotes de escravizados que seriam negociados no Rio de Janeiro. Portanto, esses tantos libertos que Napoleão ajudou a libertar, sabendo dessa situação, podem ter tido a ideia de morar um próximo do outro na praia. Passam, assim como Napoleão, a viver da pesca. E como ex-cativos sabiam muito bem o que era ser escravizado.

Esse conjunto de fatores foi expressivo para o processo de organização do movimento. As experiências passadas dentro ou fora do cativeiro que alguns vivenciaram tornou-se o elo de uma organização forte de jangadeiros, que caminhou no sentido de uma ação decisiva e concreta contra o tráfico interno. Esse ato se configurou na paralisação dos embarques de escravizados em jangadas para os navios. E eles gritavam: “Nos portos do Ceará não se embarcam mais escravos !!!”

1 FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. “Catirina, minha nêga, tão querendo te vendê…”: escravidão, tráfico e negócios no Cearádo século XIX (1850-1881). Fortaleza: SECULT/CE, 2011, v.1. p.332.

2GIRÃO. Raimundo. A Abolição no Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1969. Pág 108.

3 GIRÃO, Raimundo. A Abolição no Ceará. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1969.

4 NOBRE, Geraldo. Historicidade da associação commercial do Ceará 1866 -1991. – Fortaleza: Stylus Comunicações, 1991. Pág. 90

5 Jornal Gazeta do Norte, pag.4. 1882. Agradeço ao meu amigo Jofre Teófilo por essa fonte.

6 GIRÃO, idem.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *