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Home»Opinião»Artigo»Colorismo: ser “negro de pele clara e classe média” não me protege do racismo
racismo redes sociais brasil
A montage blend of African American faces close up, both men and women with different shades and colors in skin tone. Melanin beauty.
Artigo

Colorismo: ser “negro de pele clara e classe média” não me protege do racismo

Bruno de CastroBy Bruno de Castro18 de Agosto, 2020Updated:6 de Fevereiro, 20214 comentários10 Mins Read
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Falei aqui há bem pouco tempo sobre antirracismo ser um estilo de vida e não uma tag de rede social. Problematizei a discussão pela perspectiva dos indivíduos não-negros que se autoproclamam antirracistas e, por isso, pensam ter o direito de falar em nome de negros e criticar o modo como negros lutam contra um modelo de sociedade (racista) que os oprime em benefício de uma etnia dita superior (a branca). Pois bem. Proponho hoje outra perspectiva.

Pode parecer óbvio, mas vivemos tempos nos quais o óbvio precisa ser dito. Vamos lá: negros de pele clara também são negros. Também sofrem racismo. Também são alvos preferenciais de baculejos. Também são apontados como ladrões. Também apanham da polícia. Também são assassinados diariamente. Também têm seus corpos desaparecidos sumaria e misteriosamente em comunidades pobres. Essas vidas também precisam, portanto, ser consideradas. Elas também importam.

Essa é uma discussão cara, eu sei, ao movimento negro – seja ele institucional ou não, politizado ou não. O tão falado colorismo, vira e mexe posto na pauta da “afroconveniência”. E é natural que o debate se coloque assim, acalorado. A construção da identidade do negro no Brasil é historicamente subjetiva e cheia da imposição de significados ruins. Nossa linguagem é embranquecida e as empresas de comunicação estrategicamente dão visibilidade a casos de fraudes em cotas para promoverem um debate raso sobre o assunto. Um desserviço, eu diria.

Além disso, nós atravessamos toda a nossa existência, desde antes mesmo de nascermos, quando ainda estamos em gestação, sendo colocados à prova. Dizem, primeiro, que não existimos. “Aqui no Ceará não tem negro, tanto que a abolição aqui aconteceu primeiro”. Depois, já nas palavras iniciais que aprendemos, nos ensinam que somos outra coisa. “Meu filho mesmo num é negro não; ele é moreno”. Por fim, mas não menos grave, escancaram o discurso. “Deus me livre de ser preto; não sou nem bandido.”

Eu, Bruno, por exemplo, não sou retinto [negro de pele escura]. Durante toda a minha vida, inclusive dentro de casa, ouvi que era “bem bonitinho” por ser “moreninho”. Eu mesmo, uma vida inteira, me chamei de moreno. Levei 32 anos para me olhar no espelho e enxergar um Bruno negro, bonito e intelectualmente possível dentro dessa negritude. A minha negritude. Levei mais de três décadas para compreender as inúmeras exclusões que o mundo foi/é capaz de impor a mim. E vai continuar impondo, mas agora com minha resistência.

Essa ignorância fez da minha vida fácil? Significa que não sofri ataques preconceituosos, reais ou virtuais? Que não senti na pele (literalmente) os efeitos do racismo? Que desconheço a dor de ter um direito subtraído? Que não sei a dor da violência institucional? Que basta querer para poder? Não. Significa que certamente isso me impactou menos do que impacta em um negro de pele mais preta tanto quanto me impactou mais do que impacta (impacta?) em um indivíduo branco.

colorismo

O gesto “inocente” e “fofo”, culturalmente tido como carinhoso, de ser chamado (e se chamar) de moreno já é um ato de racismo. De negação do que eu de fato sou. Porque, vamos ao óbvio que precisa ser dito, moreno não é cor. Eu fui, sou e serei negro. E quem diz isso sou eu, dono de mim e maior entendedor da minha trajetória e das minhas dores. E, consequentemente, quem define o que fazer com os episódios da minha vida. Se vou transformá-los em militância ou não? Sou eu quem diz. Se será uma militância de rua ou de palavras, como é a que me proponho, sou eu quem escolhe.

Negro de pele clara, eu também entrei em inúmeras farmácias e o segurança, do outro lado da loja, imediatamente veio pro meu lado e fez questão de segurar a arma, até então guardada na cintura. Também fui parado por policiais no meio da rua para ser submetido a uma revista por ser “indivíduo em atitude suspeita”. Também levei uma surra desses mesmos policiais. Também fui acusado de roubo nos tempos de colégio (e a “tia da cantina” disse ter certeza de que era eu o ladrão porque “foi um neguim”). Também tive minha capacidade questionada por chefes que optaram por um colega branco para exercer determinada tarefa sob o argumento de que “ele fica melhor no vídeo”. Também fui comparado a um traficante exibido no telejornal como um troféu porque, na cabeça da minha chefe, nós éramos parecidos – já que “ele é nêgo igual a tu”. Também já entrei em livraria e nenhum vendedor me atendeu. Também tentei pagar conta de alto valor e tive de ouvir da vendedora, após uma olhada criteriosa da cabeça aos pés, se pretendia fazer um crediário para quitar a dívida. São inúmeros os meus casos de “negro da pele clara e classe média.”

A propósito, precisamos desmistificar também o lugar social do negro – tenha ele a cor de pele que for – no debate antirracista. Da mesma forma que não devemos perseguir o sujeito universal, é urgente que a gente desista dessa ideia de que só pretos retintos, moradores de periferia, excluídos do/pelo poder público, desletrados e tantos outros marcadores sociais ruins podem militar no antirracismo. O antirracismo é obrigação de todos. Defender o oposto disso é, na verdade, estar a serviço da lógica que reforça o estereótipo negativo do nosso povo, construído pela branquitude e pela elite exatamente pra isso: pra dizer que nós, negros, não podemos.

Ser “negro de pele clara e classe média” não me exime do desprivilégio de uma vida racializada todos-os-dias-o-dia-todo e marcada por exclusões e preconceitos e agressões e mortes. Meu cabelo, a fé que eu professo, minhas roupas, meu vocabulário, meus ancestrais, tudo isso ainda me compõe enquanto negro. E um negro visto pelos outros como tal – passível, portanto, de sofrer as consequências do racismo nosso de cada dia. Tanto sou visto assim que o mundo me lembrou disso em centenas de causos da vida real, como já narrei dois parágrafos acima.

Negros que sentam numa cadeira de escola particular não são menos negros por isso. Negros que não moram em comunidades paupérrimas não são menos negros por isso. Negros que ocupam uma boa posição no mercado não são menos negros por isso. Negros que ganham bem não são menos negros por isso. Negros com ensino superior não são menos negros por isso. Negros que têm condições de manter um carro e não andam de transporte público não são menos negros por isso. Negros ricos não são menos negros por isso. Negros que tiveram algum privilégio na vida, especialmente aqueles decorrentes da luta dos pais por um futuro melhor, não são menos negros por isso. Se você acha que um negro só é o “negro original”, aquele “raiz”, se preencher todos os requisitos do estereótipo brasileiro sobre a pobreza, lamento dizer, você é racista e precisa urgentemente descolonizar seu pensamento.

Vou além: esse mesmo negro, que você acusa de privilegiado porque estudou em escola particular, ganha bem, tem carro e blá blá blá, se ele decidir ser um militante antirracista, entenda, isso é algo bem distante da vitimização. Ouvi recentemente essa baboseira de gente dita letrada, “sem preconceitos e estudante de mestrado.”

Esse negro se colocar na linha de frente do embate não é favor. É obrigação! Um dever moral. É justamente por ocupar espaços majoritariamente brancos que ele tem respaldo para criticar o sistema. E ele sabe disso. Sabe, por exemplo, que só estudou em escola particular porque o pai tinha o entendimento da importância da educação para definir o rumo da vida do filho. Para muitos negros, de pele clara ou não, estudar é fator determinante de futuro. Determina, inclusive, se esse negro tem um futuro. Muitos dos meus amigos negros da infância estão mortos.

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Esse “negro de pele clara e classe média que estudou em escola particular” e você acusa de “se vitimizar” ao fazer militância tem, na verdade, é consciência do papel dele. Milita por isso. É fundamental, na verdade, que adote essa postura para outros negros terem as mesmas oportunidades, especialmente os retintos e favelados, ainda tão sem oportunidade de participação em discussões da agenda pública e de tomada de decisões. Ele milita para não ser mais um caso isolado de sucesso e os racistas continuarem se valendo do argumento cretino da desimportância das políticas afirmativas.

Ele – esse “negro de pele clara e classe média” – estar disposto ao debate público, ao posicionamento público, ao confronto, ao risco do cancelamento, é uma rotina massacrante. Cansa. Porque ele é julgado pelos menores atos. Por coisas que um indivíduo branco não é. Então, seja você negro ou não, antirracista ou não, aí vai uma sugestão: em vez de achar que a sua militância – seja ela qual for – é correta e a dele – desse “negro de pele clara e classe média” – é errada, faça um favor (a você e às causas em questão) e preserve o silêncio.

Você não se torna um militante melhor pisando na militância do outro. Seu discurso não se torna mais aceitável quando você dedica tempo para rebaixar uma pessoa negra (ou de qualquer outra etnia/minoria) em luta. Se você se diz antirracista e faz isso, se diminui a militância do outro, a sua responsabilidade é maior ainda. Porque vende a imagem de uma luta (do antirracismo) reforçando algo que o racismo faz, que os brancos fazem, muito bem: se valer de qualquer motivo, a menor das desculpas, para dizer – gritar, de preferência – o quanto o negro é errado e, por isso, não deve ser ouvido.

Para mim, francamente, e todo o meu respeito a quem pensa o contrário, o colorismo nada mais é do que conceito de elite branca disseminado com o único objetivo de segregar o povo preto. É uma lógica simples. Segregados, nós enfraquecemos. A mobilização é menor. A pressão política diminui. A reivindicação por mudanças surte menos efeito. Os eleitos para cargos de tomada de decisão e poder são poucos. A consciência coletiva é reduzida. A produção de conteúdo é dispersa e confusa. E nós estamos caindo direitinho nessa armadilha.

Quando você diz que vidas negras importam, seja num grito durante o protesto na rua ou numa tag de rede social, é fundamental compreender se está falando de todas as vidas negras ou apenas das vidas negras que você quer que te importem. Ou seja: as vidas negras que orbitam em torno de você, que são de mais fácil alcance, ok, mas nem de longe representam todo o espectro da negritude. Porque nós, negros, somos diversos e um povo admirável exatamente por isso.

Se todas as vidas negras importam MESMO pra você, isso implica dizer que a vida do “negro de pele clara e classe média” deve entrar na sua conta da luta antirracista. Assim como a vida do zelador do seu prédio, da travesti que se prostitui na esquina da sua rua, da empregada doméstica da casa do seu namorado branco que vive num condomínio fechado em bairro “rico”, do colega de sala, da cantora milionária, do entregador de aplicativo, do gari, da sua mãe, da faxineira do seu trabalho e de todas as pessoas que você enxerga em todos os lugares que está.

O difícil é enxergar, né? Mas você consegue. Como disse, o antirracismo é um estilo de vida, uma prática diária, uma (des)construção rotineira, uma disposição para o treino do olhar e dos afetos. Inclusive para os negros, de pele clara ou retintos. Antirracismo está longe, ainda bem, de ser só uma tag modinha num post lacração que você faz na sua rede social preferida. Como bem me disse uma amiga ao ler esse texto: “o debate do colorismo só serve à branquitude.”

https://www.instagram.com/p/CDdzdVZlvTB/
bb
Bruno de Castro

Comunicólogo e mestre em Antropologia, é especialista em Jornalismo Político e Escrita Literária e tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra e colaborador do El País Brasil. Atua hoje como assessor de comunicação. Venceu o Prêmio Gandhi de Comunicação, o Prêmio MPCE de Jornalismo e o Prêmio Maria Neusa de Jornalismo, todos com reportagens sobre a população negra. No Ceará Criolo, é repórter e editor-geral de conteúdo. Escritor, foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2020.

artigo bruno de castro colorismo racismo
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4 comentários

  1. Alícia on 8 de Abril, 2021 17:47

    Como é bom ler isso, sou negra da pele clara e tenho muitas dúvidas sobre isso, tem gente que fala que eu sou negra tem outros que falam que eu não sou. Fica até um pouco confusa. Tenho 13 anos é quero aprender muito ainda sobre isso.

    Reply
    • Ceará Criolo on 9 de Abril, 2021 08:52

      Alícia, obrigado pelo comentário. A gente fica muito feliz de te ajudar de alguma forma. Uma dica é você ler o livro “Colorismo”,da Alessandra Devulsky, Ele acabou de ser lançado pela editora Jandaíra. Faz parte da coleção Feminismos Plurais, que trata diversos outros temas.

      Reply
  2. Alice on 27 de Julho, 2021 14:58

    Um diálogo tão necessário! Obrigada pelas palavras! Que continuemos nessa luta diária com resistência e fé de dias melhores.

    Reply
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