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4 de Dezembro, 2021
chiquinha

Exposição resgata história negra de Chiquinha Gonzaga

Com curadoria dos Núcleos de Comunicação e Música da instituição, co-curadoria da cantora Juçara Marçal e consultoria de Edinha Diniz, biógrafa da compositora, o Itaú Cultural abriu nessa quarta-feira (24/2), em São Paulo, a Ocupação Chiquinha Gonzagaque ficará em cartaz até 23 de maio.

Além de mergulhar na vida e obra da compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, a exposição resgata a sua afrodescendência, quase eliminada pelas práticas do racismo estrutural. A mostra foi desenvolvida integralmente durante a pandemia do Covid-19 e segue todos os protocolos e recomendações das autoridades sanitárias.

Uma das peças originais mais simbólicas em exibição é o broche de ouro com pauta musical das primeiras notas da valsa Walkyria, composta por Chiquinha Gonzaga em 1884, para a opereta A corte na roça. O objeto, hoje pertencente ao acervo do Museu da República, foi oferecido a ela em 1885 por críticos teatrais, em decorrência do sucesso da opereta, e virou adereço habitual da maestrina desde então.

Na exposição, o broche estará disposto à frente de um piano vertical tradicional, locado para representar um outro piano, que é histórico: um Ronisch, feito na Alemanha, que ela trouxe da Europa em 1909 e com o qual trabalhou até a sua morte. Atualmente, o instrumento original está instalado no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Chiquinha era mulher negra, filha de pai branco e mãe “parda liberta” – termo utilizado no Assentamento de Batismo da mãe, que é um dos documentos que estarão na Ocupação –, que sofreram dificuldades por formarem um casal de pessoas de camadas diferentes. Rapidamente formatou sua personalidade talentosa e transgressora. Ela nasceu no Império e viu a implantação da República. Abolicionista, lutou ativamente pela libertação dos escravizados. Enfrentou o forte conservadorismo da época e tornou-se compositora e maestrina, em um mundo em que a carreira artística feminina era vista com maus olhos. Casou-se oficialmente uma única vez, mas viveu três diferentes relacionamentos amorosos em um tempo em que não existia o divórcio.

Este é o universo que o público encontrará no espaço expositivo do piso térreo do Itaú Cultural. Cerca de 120 itens conduzem o visitante pela vida e produção de Chiquinha, entre suas partituras, como a de Ó Abre Alas, a primeira marcha de Carnaval do país, composta em 1899 por ela para o Cordão Rosa de Ouro. Outra referência é A Corte na roça, espetáculo pelo qual se tornou a primeira mulher a escrever partitura para teatro no Brasil.

Um mecanismo ativável por pedais que disparam o som de diferentes instrumentos toca trechos de Ó Abre Alas. Outra ferramenta ativa as teclas de um piano de chão, por meio do qual se ouvem diferentes composições de sua autoria. Cada tecla pisada aciona um audiovisual com a execução e arranjos feitos por musicistas contemporâneos sobre diversos gêneros compostos por Chiquinha: Di Ganzá, toca uma valsa de opereta, Amaro Freitas, uma polca, Mestrinho vai de maxixe, Maíra Freitas, segue com uma cançoneta cômica e Ana Karina Sebastião com uma dança africana.

Por toda a exposição encontram-se documentos da época, objetos, partituras, capas e fotos. Cinco audiovisuais produzidos pelo Itaú Cultural com textos biográficos feitos pela escritora e dramaturga Maria Shu, escritos especialmente para a mostra, apresentam Chiquinha contando trechos de sua vida, na pele de Dona Jacira, multiartista e mãe de Emicida; Jup do Bairro, cantora, compositora e apresentadora; Beth Beli, percussionista e fundadora do bloco carnavalesco Ilú Obá De Min, a atriz Indira Nascimento e a cantora Fabiana Cozza. Todas são negras como Chiquinha, cuja história se desdobra em suas vidas.

Diferentes sons embalam a exposição desde a entrada. Uma paisagem sonora idealizada pela instituição para esta exposição envolve o visitante com sons das ruas do Rio de Janeiro do século XIX, na época capital do Brasil. O recurso traz elementos que ajudaram Chiquinha em suas composições e ritmos.  

A vida e a carreira de Chiquinha perpassaram momentos fundamentais da história brasileira, como a proibição do tráfico internacional de escravizados, em meados do século XIX, a Lei do Ventre Livre, em 1871, a Lei dos Sexagenários, 1885, a assinatura da Lei Áurea, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte. Para levar o público à atmosfera do período, a Ocupação conta com cinco gravuras da coleção Brasiliana Itaú, com panoramas do Rio de Janeiro e imagens como a da Praça do Comércio.

O compositor Carlos Gomes, seu contemporâneo, foi uma de suas grandes referências – presente na mostra em moedas e medalhas comemorativas, pertencentes ao acervo do Banco Itaú –, da mesma forma que a grande amizade que nutria pelo também compositor e flautista Joaquim Callado. Assim, toda a exposição é circundada por uma linha do tempo que faz um paralelo do Brasil que nascia como República com alguns acontecimentos da vida da maestrina.

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