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Home»Opinião»Artigo»Forjar cota é crime
lucas fraude 1
Foto: Reprodução TV Globo.
Artigo

Forjar cota é crime

Bruno de CastroBy Bruno de Castro10 de Junho, 2019Sem comentários4 Mins Read
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Bolsonaristas e Lulistas que me perdoem, mas bom senso é fundamental e hoje preferi falar do Lucas.

Lucas Soares Fontes é jovem, 24 anos, branco, tem olhos azuis e é cotista de um concurso público realizado três anos atrás em Juiz de Fora, cidade de Minas Gerais. Ele não é uma pessoa com deficiência. Também não é indígena. Conseguiu a vaga por ser negro.

Após repercussão nacional do caso nesse domingo durante exibição no Fantástico de ontem (9), o rapaz acabou exonerado do cargo de técnico em seguro social, do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), nesta segunda-feira (10). E, claro, levantou toda a discussão – quase sempre rasa – da necessidade das cotas.

A autodeclaração étnico-racial é fundamental. Mas não é o único meio de identificação dos pretensos cotistas. É preciso deixar isso claro porque ainda hoje, oito anos depois do início da vigência da Lei de Cotas, ainda tem quem reverbere a falácia cretina de que “pra conseguir uma vaga é só chegar lá e dizer que é preto.”

A própria Lei de Cotas determina que as instituições tenham outros meios de atestar a veracidade das informações dos candidatos. Tanto que existe a eterna polêmica em torno dos (maldosamente chamados) “tribunais raciais”, as tais bancas criadas para avaliação daqueles que pleiteiam vaga.

Mas minha questão aqui é o que leva uma pessoa branca, naturalmente com mais chances de ser alçado a uma boa posição social, a querer ser paga com recurso público tendo forjado um concurso que a leva a um cargo cujo ofício lida diretamente com o atendimento de pessoas.

Nunca, nem na mais remota hipótese, quem luta pela inclusão social do povo negro (ou mesmo o Governo) imaginou a possibilidade de um branco fingir ser preto para ser ainda mais beneficiado do que já é, principalmente diante da chance de ser punido por isso.

Sim, forjar cota é crime. De falsidade ideológica. E dá prisão. De um a cinco anos. Exatamente a o que Lucas está respondendo judicialmente (artigo 299 do Código Penal brasileiro). E a o que qualquer um flagrado nesta condição deve responder. A política de cotas é necessária demais pra ser fragilizada por gente irresponsável e mal-intencionada.

Na verdade, a gente já tem um presidente ignorante demais, que nega o racismo, mede o peso dos negros em arrobas e chama cota de privilégio, coisa que por si já deixa o cenário sombrio o suficiente quanto à sobrevivência de uma lei tão importante.

Ninguém precisa de um indivíduo tentando a todo custo se favorecer quando já é favorecido pelo simples fato de ter nascido branco e de olhos azuis. Esse tipo de gente precisa mesmo é de punição. Pra servir de exemplo a todos os demais adeptos ao “jeitinho brasileiro.”

A política de cotas deve ser expandida. Se a maioria da nossa população é negra, é urgente, portanto, que sejam os pretos a maioria do ensino superior, do serviço público e de tantos outros espaços hoje tomados por brancos com tanta certeza de sucesso na vida.

Por ironia do destino, caberá ao pior dos presidentes desde a redemocratização do Brasil a decisão de renovar as cotas ou dar a elas um fim. Com ele, tem surgido uma onda de ignorantes em todos os sentidos que esse adjetivo possa representar. E é com gente da estirpe do Lucas que a gente tem que lidar. É com esse tipo de indivíduo que a gente, negro, tem que concorrer.

Mas nada que uma boa condenação judicial e outra dose de educação não resolvam. O caso dele e o de tantos outros que hoje pensem em fazer o mesmo. A desonestidade tem um preço alto.

Saiba mais sobre as cotas.

bb
Bruno de Castro

Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.

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