A diversidade religiosa e a liberdade de culto são direitos civis assegurados pela Constituição, porém, ainda é longo o caminho a percorrer para que todas as religiões sejam devidamente respeitadas. Nesta sexta-feira (21/1), Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, a Secretaria da Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), por meio da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial (Ceppir), realiza um encontro virtual com representantes de diferentes credos para dialogar sobre diversidade étnica racial e religiosa do povo brasileiro.

A live “Intolerância Religiosa é Racismo” acontece às 15h, no Instagram @direitoshumanosce, e contará com a participação da Yalorixá Evelane Farias; da doutora em Educação e membro da Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu, Silvia Vieira; do Padre Ermanno Allegri, integrante do Movimento Igreja em Saída; e do Pastor da Igreja Evangélica Batista, Kennedy Moura. A conversa será mediada pela coordenadora da Ceppir, Martír Silva.

“Esse espaço que abrimos para dialogar com lideranças religiosas diversas é uma forma que encontramos de celebrar a diversidade e de chamar a atenção da nossa sociedade para a necessidade cidadã de se respeitar a diversidade religiosa e a liberdade de culto de todas as religiões”, destaca Martír Silva. Para a coordenadora da Ceppir, perseguições e violências decorrem do racismo, especialmente porque acometem sobretudo as religiões de matriz africana e afro-brasileiras. “É preciso combater a intolerância, em cada espaço, em cada conversa, reforçando a necessidade do respeito às diversidades. Todes têm o direito de praticar tranquilamente a religião na qual encontram acolhimento e paz”, reforça a titular da SPS, Socorro França.

Mulher negra e de terreiro, Silvia Vieira ressalta que, de fato, é importante perceber que intolerância religiosa nada mais é do que racismo religioso. “Nós, mulheres de terreiro, somos atingidas cotidianamente pelo racismo religioso, que é um dos braços do racismo estrutural e que está claramente ligado à negação da cultura e das tradições do povo negro”, lembra a educadora. Silvia ainda relata que muitas mulheres empreendedoras que integram o coletivo Elas do Axé, do qual também faz parte, enfrentam preconceitos por serem do Candomblé ou da Umbanda. “Neste período de pandemia, muitas de nossas companheiras, chefes de família, perderam seus empregos. Elas relatam que eram apontadas como “macumbeiras”, claramente de forma pejorativa, e muitas pessoas não compravam suas comidas ou quaisquer outros produtos por essa razão”, relata Silvia, ao reforçar, ainda, o reconhecimento da cultura e das tradições do povo negro como caminho para o combate à intolerância religiosa.

Evelane Farias é também mulher de axé, é mãe, artesã e sacerdotisa candomblecista que reverencia os orixás não só na perspectiva religiosa, mas como guias e como seus ancestrais. Para os povos de matrizes africanas, ela lembra que o combate ao racismo religioso é luta que não dá trégua. “No nosso caso, a intolerância religiosa é agregada a fatores raciais, tendo em vista que os povos de matrizes africanas trazem em seu legado cultural a religiosidade de seus antepassados. Isto ainda incomoda a maior parte do povo brasileiro, que foi catequizado numa visão eurocêntrica, onde qualquer lembrança de que nós também viemos da África e que a maior parte da nossa população é negra, deve ser repudiado”, conta a Yalorixá, que pontua também a importância de seguir lutando para manter vivas a cultura, a identidade e ancestralidade das religiões afro-brasileiras.

Para o Padre Ermanno Allegri, a intolerância, seja ela qual for, deve ser combatida por todos os setores da sociedade. “A intolerância nos ataca em nossos direitos e a intolerância religiosa é a base para todos os outros tipos de intolerância. Não podemos permitir esse tipo de comportamento em uma sociedade democrática como a nossa”, pondera o sacerdote que integra o Movimento Igreja em Saída.

Pastor da Igreja Evangélica Batista de Fortaleza, Kennedy Moura afirma que a bondade pressupõe o reconhecimento do outro. “O intolerante não reconhece o outro como igual, se torna um ser arrogante cercado de suas próprias certezas e isso é o oposto do que o cristianismo nos ensina”, reflete Kennedy, que repudia a intolerância religiosa e qualquer tipo de comportamento de ódio destinado às demais religiões. “Deus é amor e esse é o maior ensinamento do cristianismo: amar ao próximo como a ti mesmo”, lembra.

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