A identidade negra e africana do cearense – Parte II

O fluxo frequente do comércio atlântico e entre províncias de cativos que traziam novos escravizados do continente africano foi um, dentre vários momentos, que contribuíram para o cativo já “adaptado” à realidade local lembrar de sua identidade étnica. No caso da Província do Ceará, não havia um comércio direto com o continente africano e sim com as províncias vizinhas (Pernambuco, Maranhão e Bahia).

Sabe-se que o processo de tentativa da quebra da identidade africana começava lá no continente. Na praia ou dentro do barco, havia um padre que batizava o africano e, posteriormente, um nome cristão lhe era dado. O inferno para os escravizados começava a partir daquele momento, quando atravessavam o Atlântico rumo ao “novo mundo.”

Ao entrarem no barco, eles eram levados para o porão do navio, já com a identidade de escravizado, e privados de suas liberdades. Aqueles homens, mulheres e crianças agora nada mais eram do que uma mercadoria semovente. Quando chegassem em terra, seriam vendidos e estariam submetidos à vontade de um senhor, a quem pertenceriam como propriedade.

Porém, sabe-se que essa tentativa de impedir que os africanos continuassem sendo africanos não ocorreria de um dia para o outro. E a própria dinâmica do comércio, por incrível que pareça, tornava-se o grande obstáculo que dificultava a realização dessa ação. Como?

Aqueles que já estavam aqui conquistavam espaços de liberdade materializados no ato de poderem rezar e realizar festas. E esses momentos de lazer tinham como referências suas culturas. Os que chegavam do continente africano e participavam desses momentos fortaleciam e ascendiam a chama dessas manifestações culturais e alimentavam uma memória coletiva africana que o sistema escravista tentava apagar. Esses que chegaram pensavam que não mais vivenciariam suas culturas. E, ao chegarem aqui, as encontravam. Não de uma forma pura, mas reelaboradas e dentro das condições possíveis que os que viviam aqui podiam criar. Esse momento dos festejos era realizado, seja nas ruas ou na senzala, reproduzidos pelos seus.

Entre os vários pedidos há a solicitação feita em 23 de dezembro de 1868, por “Bernadino Antonio de Moraes, que requeria licença para aprezentar em público o folguedo =Congo= desde o dia 24 [de dezembro] até o dia 9 de Janeiro”. O despacho traz esta informação: “Pagos direitos fiscais, volte”10. No mesmo dia, outro pedido foi feito, desta vez, licença para “aprezentar em público o folguedo (burrinha e boi) desde o dia 24 do corrente até o dia 9 de Janeiro vindouro”. O despacho ao lado da petição possui a mesma resposta do pedido. A solicitação foi de “Francisco Rodrigues Chaves”.1

Observem que o pedido para apresentar o folguedo do Congo e da Burrinha ocorre no período natalino e denotando uns 16 dias de festa. Nessas festas, as fontes revelaram, estavam presentes negros escravizados, libertos, africanos, africanos livres e brancos. Representava, portanto, um grande espaço de sociabilidade.

É possível que esta festa do Congo começasse na Igreja do Rosário (onde hoje é a Praça dos Leões, em Fortaleza), mas não se limitava a esse local. Segundo Câmara Cascudo, essa dança lembra a coroação do Rei do Congo e da Rainha Jinga de Angola, com a presença da corte e de seus vassalos.2

Em “Festas negras em Fortaleza”, Janote Pires inicia suas considerações falando sobre um trecho de uma interessante crônica publicada num antigo jornal fortalezense, na qual o autor lembra de seus tempos de juventude (…). Momentos em que se divertia assistindo os congos, os fandangos, as pastorinhas, os maracatus, o bumba-meu-boi, que eram “a alegria da petizada[garotada]”.

Uma informação interessante na crônica reproduzida por Janote seria a localização onde ocorriam essas manifestações culturais de origem afro:

(…) no primeiro quarteirão da Rua Senador Pompeu, e também se recordou de uma passagem peculiar dos congos que “dançaram” certa noite na Rua da Boa Vista, no trecho compreendido entre a Praça do Ferreira e a Rua de São Bernardo. 3(Grifos meus)

O batuque começava às 8 horas e sob a direção de um homem que se chamava Xavier, um preto manetta que os Congos popularizaram. Segundo Janote:

Nos congos (ou autos de rei congo), encenavam-se passagens da história africana, particularmente as guerras congo-angolanas, e, a certa altura da apresentação, havia a cena da morte do filho do Rei do Congo: o “prinspo” (Príncipe) Sueno.

Como podem observar, eram espaços onde a memória coletiva africana (no caso aqui, Congo-angolana) era constantemente lembrada e realimentada. Portanto, esses espaços eram lugares de fortalecimento da identidade étnica. E, como pode-se ver, eram momentos vivenciados em público.

Entretanto, essa cultura Congo-angolana não se limitava aos autos do Congo, Sambas de Umbigada, Boi e a burrinha por aqui. Havia também a capoeira. Como a capoeira angola é considerada muito mais antiga que a regional, talvez essa que existiu aqui seja dessa categoria. Veja o artigo do jornal:

Capoeira no Ceará

O cearense

Anno XXIX, Nº 32 — domingo, 25 de abril de 1875

R$ 100$000 rs

Fugio no dia 3 do corrente da cidade do Recife província de Pernambuco o escravo Miguel de 19 annos de idade natural da cidade de Sobral no Ceará, pardo porém não muito escuro, corpo reforçado, boa altura e um tanto espigado, rosto comprido, olhos castanhos, dentes perfeitos, cabellos pixainhos, nenhuma barba (apenas buço) pés grandes, é official de marcineiro, levou vestido calsa (sic) e camisa branca e jaqueta, gosta de jogar gynastica e é bastante regrista. Este Escravo foi comprado pelo abaixo assignado em 6 de Dezembro de 1866 ao negociante desta praça José de Sá Leitão, que assignou a respectiva escriptura como bastante procurador do Major Miguel Francisco do Monte do Sobral. Roga-se pois as autoridades e bem como aos capitães de campo, ou mesmo a qualquer pessoa do povo que apprenheda o referido escravo leve-o a cidade de Fortaleza, na capital rua Formosa nº (sic) e no Recife rua do Márquez d’Olinda nº 56 1º andar escrptorio dos Srs. Leal & Irmão, ou na rua da União nº 43 que receberá a gratificação acima mencionada. Recife 7 de Dezembro de 1847. Manoel Gomes Miranda Leal. (grifo meu)

O escravizado Miguel, de 19 anos, tinha uma profissão (marceneiro) de bom porte. Pelas características descritas no jornal, é possível que tenha sido vendido no comercio interprovincial. No Recife, aproveitou um momento e evadiu-se com a finalidade de voltar para junto dos seus em Sobral, no Norte do Ceará. Uma característica de Miguel que nos chama atenção é o fato de ele ser identificado por gosta de jogar gynastica. Penso que aqui encontra-se um cativo praticante da capoeira.

As informações que virão a seguir são resultado do tempo em que fui aluno do mestre Armando Leão, onde vivi, durante esse tempo, uma experiência muito interessante da capoeira angola e que foi expressa em um texto mais amplo4.

A capoeira Angola é vista como a capoeira praticada pelos escravizados, rica em sabedoria e mandinga. Seu jogo é feito em grande parte no chão. Já sua irmã mais nova, a capoeira regional, surgiu nos anos 30 do século XX. Tendo como seu criador o baiano mestre Bimba, possui características bem diferentes e marcantes da angola. Mestre Bimba incorporou à capoeira outras modalidades de artes marciais, no caso o Jiu-jitsu. Como consequência, o jogo passou a ser feito na maior parte do tempo em pé e utilizando-se de saltos acrobáticos.

A capoeira angola é um universo impressionante onde quem está disposto a ir além das aparências vivencia um rico processo de ensino e aprendizagem. E todo esse aprendizado é pautado sobre uma visão de mundo completamente oposta a que estamos acostumados a receber e viver.

O que me refiro aqui é à presença vivida dos valores, princípios e visão de mundo de um dos grupos étnicos africanos escravizados no Brasil: os Angolas, membros do grupo linguístico Banto, presente em todos os momentos da aula. Para quem quer ver e aprender, é só usar a visão e exercitar a percepção. Logo notará que ser angoleiro exige uma desconstrução do que se é. E a construção de um novo ser. Pois o princípio passado através de um processo de ensino e aprendizagem está alicerçado numa cultura que possui valores e visão de mundo, não totalmente, mas em grande parte oposta à moderna ocidental. Essa, uma cultura profundamente preconceituosa, esvaziada de princípios humanos e extremamente excludente. Sem o mínimo respeito à natureza e aos mais velhos, possuidores de grande experiência, vivida por longos tempos. Portanto, merecedores de grande respeito e atenção.

Visão e percepção passaram a ter uma grande importância, pois só assim pude entender o que o professor Armando quis dizer quando, em muitas das nossas rodas de conversa, alertava-nos para a concepção de tempo entre os Bantos.

Em manifestações culturais afrobrasileiras que lutam pela preservação de uma tradição africana, tais como o Candomblé (e outras de origem africana) e a Capoeira Angola, é perceptível que o tempo para o africano é compreendido dentro de uma perspectiva completamente diferente da que a cultura ocidental vive.

O tempo na sociedade moderna ocidental é visto como algo linear, comprado (tempo é dinheiro), disciplinador e controlador. Já para os africanos Ele é circular, produtivo, lugar de aprendizado. O indivíduo não está preso a Ele. O indivíduo produz o tempo. Tempo disse a tempo que pra tempo tudo tem tempo, diz o caboclo Mineiro.

Uma outra questão que gostaríamos de ressaltar diz respeito a um aspecto da concepção de mundo para os Bantos, que é a noção de SER.

Entre os povos que fazem parte desse grupo linguístico, a noção do ser é substituída pela noção de FORÇA. Portanto, há entre eles a busca constante de meios de alimentar sua força. Daí o respeito aos ancestrais coletivos e individuais divinizados. Daí o respeito aos mais velhos, detentores de experiência e conhecimento.

Penso que já dá para ter uma ideia de como a presença dessa cultura africana foi e é rica em nossa história. Para finalizar, não poderia deixar de tocar no Maracatu e na Umbanda.

Não creio mais na história contata que corre em bocas pequenas de que o Maracatu daqui veio do Recife. Há notícias da existência de maracatus no final do século XIX e início do século XX. Com a abolição, esses negros e negras não foram aceitos na sociedade fortalezense e, consequência do racismo estrutural, foram empurrados para a periferia e subúrbios de Fortaleza. É nesses lugares que se deve encontrar os maracatus durante os anos anteriores, a década de 30 do século XX, período em que é chamado para sair na avenida com outras agremiações.

Antes, possivelmente por ser uma atividade reprimida por um discurso civilizatório, os maracatus desfilavam nos bairros em que foram criados, a exemplo do Maracatu do Morro do Moinho, que ficava por trás da estação férrea; da rua São Cosme (atual padre Mororó); da rua do Oiteiro (antiga Aldeota e atual região do Colégio Militar); do Beco do Aperta Hora (atual rua Governador Sampaio); do Manoel Furtado; do João Ribeiro, localizado ao fim da rua Major Facundo, na altura da antiga Praça do Livramento (atual praça do Carmo), e do negro João Gorgulho (grupo de folguedos africanos – 1910).5

Não considero o Maracatu só festa. Percebo-o também como lugar de preservação de memória de uma realidade sociocultural na medida em que se vê uma reelaboração do cortejo dos reis do Congo ou Angola. E no momento em que se vê a coroação da rainha tendo como música de fundo uma loa onde ao orixá Xangô – o grande rei de Oió, que é o personagem central (sincretismo com a cultura Iorubá). E quando a boneca Calunga vai à frente do cortejo para proteger e afastar os maus espíritos.

Há a existência também de uma troca ou ligação com outras manifestações culturais de origem afro-brasileiras, como a Umbanda e o Candomblé, já que são incentivados a disputarem. Cada um cuida de si a sua forma. Não há ali inocentes.

Essas manifestações culturais de origem africana trazem em si as marcas de uma resistência e sabedoria adquiridas durante o tempo. Por tudo que sabemos que elas passam, estarem vivas no presente, no meu modo de pensar, representa uma grande vitória.

Há dentro dessas entidades pessoas que lutam para preservar a tradição presente no interior das mesmas – utilizarei o termo zeladores ao me referir a esses indivíduos – resultado das constantes violências que a cultura negra sofre ao longo do tempo.

Percebo isso no Maracatu, quando o pessoal antigo reclama da batida de outros maracatus que procuram imitar aquele ritmo do Recife. O que geralmente escuto é que essa agremiação não é Maracatu cearense. Que é necessário “preservar nossa batida; essa sim é que é a batida do nosso Maracatu, lenta e ritmada”. Não vou aqui dizer que aqueles que usam a batida mais rápida não são. Porém, estou de pleno acordo, com a fala e a defesa, de que a batida lenta é a que nos identifica e nos torna ímpares.

Entretanto, é preciso que saibamos que as culturas tradicionais africanas são dinâmicas e se articulam, estão interligadas, havendo uma constante relação entre sagrado e profano muito presente. Tendo isso em mente, fica mais fácil de entender o que disse acima. Assim como o afoxé tem ligação estreita com o Candomblé, o maracatu cearense tem sua ligação muito próxima com a Umbanda.

É dito por muitos pesquisadores que a Umbanda é uma religião brasileira, por ter se estruturado a partir da contribuição de várias religiões aqui presentes, como catolicismo, pajelança indígena, espiritismo e candomblé de angola. Contudo, é inegável a forte presença de divindades africanas e de encantados de negros velhos, que descem (além dos caboclos) para ajudar através da incorporação dos médiuns que se desenvolvem e são usados por esses para se comunicarem e trabalharem. Mas o que muitos não têm consciência é que em África já havia manifestações religiosas semelhantes à Umbanda vividas pelos povos Umbundos e que foram trazidas para cá junto com esse povo.

Segundo Jan Vansina, historiador e antropólogo belga considerado uma autoridade da história da África Central, especificamente do que é hoje a República Democrática do Congo e Burundi, muitos escravizados do Reino do Congo eram católicos desde meados de século XVII e a religião de muitos do reino de Umbundo era uma síntese entre os cultos da Umbanda e o catolicismo. Portanto, é possível que quando esees povos aqui chegaram, deram uma grande contribuição para essa religião que aqui se formava com elementos de outras religiões europeias e indígenas, até mesmo em sua estruturação, já que traziam uma experiência vivida no reino de Umbundo.6

A umbanda é uma religião afrobrasileira muito presente no Ceará. Aqui, há um grande número muito de terreiros dessa religião. Uma presença forte.

Enfim, como se pode ver, busquei aqui, em dois artigos, mostrar a presença da cultura africana no Ceará é um universo muito rico e que ainda é pouco explorado. Espero que com a produção desses artigos esteja contribuindo para a intensificação e expansão de pesquisas e trabalhos sobre a presença negra no Ceará.

1 APEC – livro de lançamentos de despacho – Requerimento de passaportes (Para escravos) – 1868 . Ala 19 – Est. 393 – Livro 2. Fl. 14.

2 SOUZA, Marina de Mello. “Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de rei congo.” Ed. UFMG, 2001.

3 MARQUES, Janote Pires. Festas de negros em Fortaleza. Territórios, sociabilidades e reelaborações (1871-1900). Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009. Pág. 21.

4 FERREIRA SOBRINHO, José Hilário. Cultura popular e culturas afrodescendentes In: Negros no Ceará: história, memória eetnicidade.1 ed.Fortaleza: Museu do Ceará, 2009, v.1, p. 65-94.

5 Texto disponível em: http://www.fortalezanobre.com.br/2014/06/maracatu-cearense-e-sua-historia.html

6 HEYWOOD, Linda M.(org.) Diáspora negra no Brasil. (Tradução: Ingrind de Castro Vompean Fregonez, Thaís Crsitina Casson, Vera Lúcia Benedito). São Paulo: Contexto, 2008. Pág.8.

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