Aninha Gata: a última Rainha do Congo coroada em Fortaleza

Esses dias, navegando pelo Facebook, vi uma publicação do professor Hilário Ferreira sobre Zé Tatá, o rei da noite, apontado pelo historiador como um dos personagens negros do Ceará. Confesso jamais ter ouvido falar dele. Quando o assunto é figuras negras históricas do estado, apenas lembro de Dragão do Mar, Preta Tia Simoa e José Luís Napoleão, o que aponta uma urgente necessidade de leitura da minha parte. Ao pesquisar mais, acabei descobrindo outra figura histórica: Aninha Gata.

Janote Pires Marques, no artigo “A invisibilidade do negro na história do Ceará e os desafios da Lei 10.639/2003”, nos conta que Aninha Gata foi uma das últimas rainhas negras da Irmandade do Rosário de Fortaleza. Ela era a dona de uma pequena quitanda na antiga rua das Flores, atual rua Castro Alves, no Centro da cidade. O apelido “Gata”, na verdade, vinha de sua zanga com as provocações dos moleques que “miavam” perto dela e ela respondia com desaforos e pedradas.

“Queixou-se ao então delegado de polícia da capital, major Pedro de Araújo Sampaio, alegando ter sido Rainha do Congo e não ser possível sujeitar-se às molecagens da garotada, sobretudo quando, aos domingos, ia à missa na Sé”, informa Gustavo Barroso no livro “A margem da história do Ceará”. Aninha até conseguiu escolta policial, mas a gozação não cessou.

“Aninha Gata teve reconhecimento oficial suficiente para que o chefe de polícia lhe providenciasse uma escolta policial. Ora, qual outra mulher cearense do século XIX conseguiu esse feito? Não deveria essa “rainha” figurar entre os personagens famosos da história do Ceará?”, questiona Janote no artigo.

A Coroação de Reis do Congo é uma antiga dramatização de origem africana que em Fortaleza é realizada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Segundo o historiador Gustavo Barroso, os últimos Reis do Congo coroados em Fortaleza foram Aninha Gata e Firmino, ex-escravo de seu pai.

“Nos dias da semana, Aninha Gata tinha seu próprio negócio onde também tecia relações sociais e, aos domingos, frequentava a missa na Igreja Matriz da cidade. Em todos esses momentos e espaços, agia com orgulho e solenidade coerentes com sua história de vida, o que respaldou a reclamação junto à autoridade policial para que tomasse providências contra o desrespeito a sua figura de rainha negra”, destaca Janote.

São muitos os personagens negros invisibilizados na história do Ceará. Ser antirracista é também trazer à tona tais figuras. Com a chegada do Mês da Consciência Negra, seguiremos com nosso propósitos de resgatar nomes e histórias daqueles que muito contribuíram para a construção histórica, política e social desse estado que tem negro sim.

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