ARQUIVO PESSOAL / RAQUEL GERBER

Conheça 3 documentários sobre trajetória negra no Brasil

Nós já falamos aqui no Ceará Criolo sobre o documentário AmarElo, do rapper Emicida. Lançado em dezembro de 2020 na Netflix, o longa metragem celebra o legado da cultura negra brasileira, em meio aos bastidores do show de lançamento do álbum de mesmo nome do cantor, no Theatro Municipal de São Paulo.

Confira a seguir três documentários que, antes de AmarElo, trataram da trajetória dos negros e negras no Brasil.

  1. O Negro da Senzala ao Soul (1977)

Lançado em 1977, por Gabriel Priolli, então repórter da TV Cultura, em seu primeiro emprego como jornalista, aos 24 anos. Priolli conta que o filme surgiu de uma reportagem comum da TV Cultura, quando ele foi enviado para cobrir a “Quinzena do Negro” na USP, evento acadêmico organizado pelo sociólogo Eduardo de Oliveira e Oliveira (1924-1980).

À época, na Cultura, o chefe de reportagem era o jornalista negro Roberto Camargo, e Paulo Roberto Leandro, também preto, era diretor do departamento de jornalismo. “Foi uma ousadia muito grande, pois o Brasil era oficialmente uma ‘democracia racial’ e ponto. Não existia questão do negro. Simplesmente afirmar que existia, que o racismo era um problema estrutural, que precisava ser enfrentado e faria parte central da luta democrática tinha uma dimensão subversiva muito grande.”

O documentário O Negro da Senzala ao Soul pode ser visto na íntegra no YouTube.

  1. Ôrí (1989)

“No Brasil, você pode encontrar nos terreiros, nas escolas de samba, nos grupos de maracatu, nos ranchos, nos blocos de frevo, os reinos africanos recriados”, diz o militante do movimento negro Ciro Nascimento, durante um desfile da Vai-Vai em 1980, registrado pelo documentário Ôrí, lançado pela socióloga e cineasta Raquel Gerber em 1989.

Ôrí em iorubá significa “cabeça”, mas também “consciência”. Partindo da vida e do pensamento da historiadora e militante negra Beatriz Nascimento (1942-1995), o filme documenta os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988, discute a relação entre Brasil e África e o conceito de quilombo. “E eu conheci nessa época, em 1977, a Beatriz Nascimento, por quem senti uma grande afinidade no campo das ideias”, recorda Gerber.

“Ela estava produzindo uma historiografia que queria se contrapor à historiografia oficial, que mostrava o negro brasileiro só como escravo. Então ela se propunha a fazer uma nova historiografia dos quilombos no Brasil, mostrando o quilombo como recriação de uma formação societária, mas também como uma forma de organização e resistência dos negros ao colonialismo. Uma forma que vem da África para as Américas e se perpetua até hoje.”

O documentário Ôrí pode ser visto na íntegra na plataforma Tamanduá: https://tamandua.tv.br/filme/?name=ori

  1. Frente Negra Brasileira (1985)

O documentário Frente Negra Brasileira, de pouco mais de 17 minutos e editado por Ras Adauto e Zózimo Bulbul, registra um grande encontro da história negra brasileira. Em 1985, na sede campestre do Clube Aristocrata — histórico clube para negros criado na década de 1960 em São Paulo, em resposta à discriminação sofrida pela elite negra por parte da high society paulistana —, militantes do MNU se encontraram com remanescentes da Frente Negra Brasileira.

Filó Filho, um dos criadores do acervo Cultne, junto a Carlos Medeiros, Ras Adauto e Vik Birkbeck, conta que o encontro surgiu de uma discussão dentro do movimento negro sobre a questão da memória. “Ali foi um momento histórico entre gerações do movimento negro, jovens ouvindo os mais velhos, e eles falando ali enquanto sujeitos daquele momento da década de 1930”, diz Filó Filho, cujo nome de batismo é Asfilófio de Oliveira Filho.

“A importância da memória é essa. Futuras gerações, os próximos doutores que nós vamos ter, terão referências com base nisso que nós plantamos. Estamos entregando o bastão para essa geração que está aí”, diz o videomaker e produtor.

O documentário Frente Negra Brasileira pode ser visto na íntegra no YouTube, disponibilizado pelo acervo Cultne.

Crédito da imagem em destaque: ARQUIVO PESSOAL / RAQUEL GERBER

Com informações da BBC

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