Elevador de serviços

Por Paulo Rodrigues
Analista político e social

Nos Pampas gaúchos, aquela enorme região do Rio Grande do Sul na divisa com o Uruguai e a Argentina, faz muito frio! No dia em que Irene completou 13 anos, a mãe foi falar com a patroa para que conseguisse um trabalho para a filha. Podia ser como ajudante na casa de qualquer pessoa conhecida da patroa. A situação estava muito difícil em casa. Irene estava crescendo e não podia ficar às tardes solta nas ruas do bairro. O jeito era encaminhá-la para um trabalho. O pai trabalhava na construção civil, mas ganhava pouco. Tinha baixa escolaridade e, por isso, não era valorizado. Tinha aprendido o ofício com o pai dele.

– Por que colocar a guria a trabalhar tão cedo, dona Marlene? Encaminhe ela para estudar, ter uma boa profissão. Quem sabe ela até possa lhe ajudar ao final da sua vida, argumentou Patrícia.

A vida do pobre nem sempre era tão certinha assim, Marlene pensava, enquanto sacolejava no ônibus de volta para o barraco onde vivia com Irene e João, marido trabalhador, que desde os nove anos trabalhava em obras com o pai. Aprendeu tudo sobre construção de edifícios na prática, mas nunca foi valorizado porque não aprendeu a ler nem a escrever. Aos negros, não sobra tempo para estudar. O aluguel e a fome parecem que estão sempre batendo à porta. Para dona Patrícia, é muito fácil dizer “ponha a guria a estudar”. Mas pagar de que jeito?

Absorta em seus pensamentos, tentando encontrar uma saída sobre o que fazer com Irene, Marlene nem percebeu que passou da parada onde deveria descer. Enquanto voltava a pé, depois de descer cinco ou seis paradas adiante, pensava que não era essa a vida que queria para Irene. Começar tão cedo como ajudante de empregada doméstica, ser tratada, como ela própria foi muitas vezes, igual a uma escrava, quando as patroas não permitiam que talheres, banheiros e toalhas fossem compartilhados. Dona Patrícia está certa! A guria tem que continuar os estudos. Ser alguém! Não reproduzir a história da mãe, dizia Marlene para si mesma!

– Aqui em casa tem muitos livros, Marlene! Diga para a Irene vir aqui escolher alguma coisa para ler. Ela pode levar para casa. É melhor do que deixar a guria correndo nas ruas. A senhora sabe como é essa juventude, arrematou Patrícia.

Essas conversas com Patrícia fizeram com que Marlene começasse a refletir sobre a vida não só da Irene como a dela, a do marido, as dos pais e a de amigos próximos. O marido era um bom homem, trabalhador, nunca deixou faltar o básico em casa, mas, às vezes, quando perdia o emprego, quer porque a obra terminou, quer porque houve má administração da obra, ficava em casa bebendo até aparecer outro emprego. E, quando demorava para aparecer, ele partia para agressões físicas em Marlene, como se ela fosse a culpada por serem negros e, assim, na hora das demissões, fossem os primeiros, mas nas admissões, os últimos. Era triste ver o marido nessa angústia, mas também não estava mais a fim de suportar as agressões físicas, e agora percebia que Irene talvez fosse por esse mesmo caminho, casando-se com um rapaz com estudo e trabalho precários, também ela própria com estudos e trabalhos precários. Não! Não queira isso para a filha! Irene vai estudar! É o estudo que dará ferramentas para que ela busque caminhos para escapar da pobreza e de trabalhos precários!

Apesar de ter estudado quase nada, Marlene tinha um refinado conhecimento sobre talheres, qual talher é utilizado para comer determinada comida; sobre comportamento à mesa, não falar de boca cheia, não falar ao mesmo tempo que outra pessoa; ao preparar um jantar que bebida acompanha a carne ou a massa. Tudo isso foi resultado de observações nas diversas casas de médicos, advogados e empresários que trabalhou. Mas em todas as casas ela sempre foi só a serviçal que era humilhada quando algo saía errado e, quando dava certo, a patroa é quem era cumprimentada. Dona Patrícia foi a primeira que se interessou em conversar sobre o futuro, dizendo que o futuro pode ser diferente: o dela, Marlene; o da Irene e o dela própria, Patrícia!

Patrícia é uma antropóloga branca que nasceu com tudo pronto na vida. Era só seguir o curso já traçado por outras pessoas. Em criança, fez balé, natação, canto e idiomas. Quando chegou na adolescência, idade que Irene tem hoje, já tinha uma vasta rede social formada. Era só começar a ler os clássicos da literatura e entrar para a universidade. Tão certo quanto o correr de um rio!

– Marlene, a senhora acha que eu concordo que alguém seja retirado de seu país, de seu convívio, e seja enviado para trabalhar de graça em outro país, para enriquecimento de outras pessoas? Temos uma dívida enorme com todos os negros e seus descendentes que foram jogados nessa situação. O mínimo que podemos fazer é o que empresas estão propondo atualmente: abertura de vagas nos altos escalões só para negros. É uma forma de abrir brechas para que haja real diversificação de pensamentos nas decisões que as empresas vierem a tomar, dizia Patrícia, numa tarde chuvosa, lá nos Pampas, quando as duas se sentaram para trocar ideias.

Depois dessas conversas com Patrícia, Marlene passou a incentivar Irene a ler. Era a única herança que poderia deixar para a guria. Não tinha como pagar aulas de balé, tênis ou natação, mas tinha como conseguir livros emprestados com dona Patrícia. Marlene conseguiu se aproximar de Irene repassando as histórias sobre negros que ouvia de Patrícia. Eram histórias de sofrimento durante a escravidão, muito trabalho pesado e, ao final da jornada de trabalho, muitas vezes, ainda servir ao Senhor. Mas também havia as histórias de homens e mulheres valentes, verdadeiros heróis negros, que muitas vezes conseguiam liderar grupos em fuga, rumo a uma terra livre e prometida que muitos chamavam de quilombos. Lá, nesses quilombos, viviam por sua conta e risco, porém, podiam plantar sua própria verdura para consumo de todos e as crianças não precisavam mais trabalhar desde muito cedo. Iam brincar e estudar, aprender os costumes e as religiões africanas. Irene passou a esperar ansiosa a hora em que a mãe voltava para casa. Assim, as duas podiam conversar alegremente sobre a saga dos negros na diáspora.

Ontem, a construtora onde o pai da Irene trabalha entregou oficialmente o prédio aos compradores. João foi homenageado como funcionário padrão, aquele que não teve nenhuma falta, não desperdiçou material, não teve advertências, enfim, foi um exemplo para todos. Quando mãe e filha chegavam para participar das homenagens, ouviram uma voz cujo conteúdo é conhecido dos negros da diáspora:

– O elevador de serviços é aquele lá no fundo!

Marlene não se deu por vencida, respondendo prontamente:

– O meu é este aqui mesmo! É que comprei um apartamento recentemente. Estou meio perdida neste prédio!

E ficou olhando firmemente para a moderna Sinhá, aquela que ainda não admite andar no mesmo elevador com uma negra!

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