“Filhos de Sangue e Osso” faz parte da série “O Legado de Orïsha”, escrita por Tomi Adeyemi. Foto: Divulgação.

“Filhos de Sangue e Osso” faz parte da série “O Legado de Orïsha”, escrita por Tomi Adeyemi. Foto: Divulgação.

“Filhos de sangue e osso”: o livro que todo adolescente preto precisa ler

Obra integra a série “O Legado de Orisha” e já tem continuação publicada à espera de tradução para o português.

Por muitos anos, a magia corria por Orïsha como o mais abundante rio. Zélie tem esses dias vivos na memória, lembrando das palavras de encanto que a mãe entoava em iorubá para evocar Oya, a divindade da morte. A menina também recorda de forma igualmente vívida o genocídio cometido contra seu povo – os majis divinais – pelo rei cruel que havia assumido o trono.

Desde então, ela assiste tanto à desigualdade social quanto é subjugada até quase perder o último fio de esperança. Quando ouve falar que ainda há meio de trazer a magia de volta e mudar a situação de Orïsha, Zélie não pensa duas vezes em partir nessa jornada na companhia do irmão, Tzain, e da princesa Amari. 

“Filhos de Sangue e Osso” faz parte da série “O Legado de Orïsha”, escrita por Tomi Adeyemi, uma autora nigeriana-estadunidense. Ambientado numa versão imaginária da Nigéria, o livro se destaca na literatura fantástica por ser o primeiro a trazer os elementos sobrenaturais da cultura iorubá, fugindo do padrão europeu de bruxas, vampiros ou fantasmas. Dentro da narrativa, a ancestralidade é retratada como mitologia e demonizada. Assim como acontece na vida real com as religiões de matriz afro. 

Foto: Divulgação.

Devido a isso, os poucos majis que habitam em Orïsha são duramente oprimidos e não têm como se defender, já que não possuem magia para isso. Eles são os únicos na região com a capacidade para manipulá-la. E é por meio dessa perseguição que Adeyemi mostra de forma didática como o racismo estrutural atua. 

Apesar de a obra não trazer – pelo menos ainda no primeiro livro – personagens brancos – as pessoas que ocupam cargos de poder no país são negros menos retintos, os kosidán, até mesmo Amari, a princesa, sofre com comentários sobre o tom mais escuro da pele. Na história, aquela cor é considerada como pertencente às camadas mais pobres. 

A escrita do livro de Adeyemi é simples e lembra um pouco o estilo de Rick Riordan, autor da saga Percy Jackson e os Olimpianos – o que torna a trama cativante. Mas não é fácil digerir as crueldades às quais os majis e todos que não concordam com o sistema são submetidos.

É impossível não se identificar com Zélie e Amari ao longo da história. São duas personagens femininas fortes e que têm um desenvolvimento muito bacana de acompanhar. As duas são opostos perfeitos. Zélie é a típica encrenqueira revoltada, enquanto Amari é delicada e calma, o que não diminui sua fome por justiça. Elas encontram conforto uma na outra.

Ambas possuem camadas que vão sendo expostas aos poucos conforme a trama evolui, assim como Tzain e Inan, irmão de Amari e herdeiro direto do trono. De início, podemos pensar que os dois têm a mesma premissa, os filhos perfeitos e líderes natos, podendo assumir o protagonismo da narrativa. Contudo, é interessante notar o fardo que carregam com tais características e como é complexo se desvincular dele. 

O primeiro livro da série “O Legado de Orïsha” foi lançado em 2018 e a negociação para adaptação da obra para o cinema  surgiu em 2019, com a LucasFilm, produtora de Star Wars comprada pela Disney em 2012. No entanto, novas informações não foram divulgadas desde então. O segundo livro foi lançado no fim de 2019, mas ainda não há tradução para o português.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *