18 de Setembro, 2020

“Não somos cobaias”: o racismo científico em tempos de pandemia

Desde que o novo coronavírus (Covid-19) foi declarado pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os noticiários mundo a fora destinaram todos os holofotes ao desenvolvimento da doença e os devastadores rastros dela. Como se não fosse suficiente todo o caos trazido por este desastre sanitário, a população africana parece ter mais uma ameaça contra a qual se proteger: o explícito racismo que a põe em risco.

Explicando: vários pretos e várias pretas espalhados(as) pelo mundo, como as estrelas do futebol Samuel Eto´ e Didier Drogba, precisaram se manifestar publicamente contra as declarações de médicos franceses que, na semana passada, durante um programa da emissora francesa LCI, anunciaram a proposta de realizar testes de vacina de coronavírus na África (veja aqui o trecho do vídeo).

Isso pode ser polêmico, mas não deveríamos fazer um estudo na África, onde as pessoas não usam máscaras nem tratamentos de reanimação? Isso acontece em casos de aids, onde prostitutas são usadas para testar certas coisas, porque sabem que estão muito expostas e não têm proteção”, comenta um dos médicos que participa do programa (trecho retirado de matéria da Veja, entenda aqui).

Em declaração no Twitter, o jogador marfinense se manifestou: “É inconcebível que continuemos a aceitar isto. A África não é um laboratório. Eu denuncio veementemente estas observações sérias, racistas e desdenhosas!
Ajude-nos a salvar vidas na África e a impedir a propagação deste vírus que está desestabilizando o mundo inteiro, em vez de nos ver como cobaias. Isso é um absurdo! Os líderes africanos têm a responsabilidade de proteger as pessoas contra essas abominações.

Não foi apenas às estrelas do mundo desportivo que a notícia revoltou: dezenas de pretas(os) declararam, através de suas redes sociais, o completo rechaço à possibilidade levantada pelos médicos europeus de testar vacinas na África, argumentando que a África não é um laboratório e que tampouco “somos cobaias“.

 

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Em trecho da nota emitida através do Instagram, o coletivo Potências Negras (@potenciasnegras) defende:

A África serve de laboratório para experimentos de europeus há séculos. Isso é mais um atestado de como ainda animalizam corpos pretos e africanos. É, na prática, o que Achille Mbembe denuncia como “necropolítica”, quando o Estado decide quem deve morrer.
Se os testes precisam e devem acontecer, que sejam realizados nos países com maiores índices de infectados. O povo Africano não é cobaia!

As declarações polêmicas dos médicos franceses, entretanto, dividiram a Internet. Defensores argumentam que, na verdade, o que estava sendo cogitado era a realização de testes com a vacina BCG no combate ao coronavírus e que a África, junto a outros continentes, seria inclusa nos estudos desenvolvidos para obtenção da cura da doença. Em sua defesa, o instituto onde trabalham os profissionais de saúde declarou:

Um vídeo truncado de uma entrevista sobre LCI feita por um de nossos pesquisadores sobre o uso potencial da vacina BCG contra a CoVid-19 está sendo mal interpretado nas redes sociais. Aqui estão as explicações corretas“, descrevendo a informação que gerou a polêmica nas redes sociais como fake news. “Os ensaios clínicos estão em curso ou prestes a serem lançados em países europeus (Holanda, Alemanha, França, Espanha…) e na Austrália. Se atualmente há uma reflexão sobre uma implantação na África, ela seria feita em paralelo com eles. A África não deve ser esquecida ou excluída da pesquisa“, conclui o Instituto.

A declaração de esclarecimento, entretanto, não pareceu suficiente para acalmar os ânimos de muitos internautas, muito menos de figuras públicas como o secretário do Partido Socialista francês, Olivier Faure, que rebateu: “Não é provocação; é simplesmente racismo. A África não é o laboratório da Europa. Os africanos não são ratos!

A organização catalã SOS Racisme também se manifestou por meio de comunicado (veja aqui o comunicado na íntegra), afirmando que as declarações dos médicos franceses denotam uma “provocação muito colonial“, e questionou: “essas palavras não revelam desprezo pelos corpos negros? ele estava inconsciente e se apresentou em tom brincalhão e ganancioso sobre o tema da “provocação”? Provocações todas coloniais, na realidade, como os argumentos apresentados para fazer cobaias africanas (ausência de máscara, ausência de tratamento …) poderiam ser amplamente avançados para a Europa em geral e a França em particular.

Desprezo por corpos negros

Em artigo opinativo veiculado no portal Jeune Afrique, o presidente da associação SOS Racisme, Dominique Sopo, reflete sobre os argumentos implícitos nas declarações dos médicos em entrevista e suas decorrências discursivas, rebatendo as “tentativas” de retratação por parte dos profissionais de saúde e do instituto no qual trabalham (o artigo na íntegra publicado em francês você pode ver aqui). O ativista segue em sua argumentação:

Além das más interpretações – não, Inserm não está realizando um estudo sobre africanos com exclusão de outras populações – as palavras do professor Mira revelam um desprezo pelos corpos negros, mesmo que inconscientemente, e apresentadas em tom lúdico sobre o tema da “provocação.”

Provocação que na realidade é muito equivocada, já que os argumentos apresentados para fazer cobaias africanas (falta de máscaras, falta de tratamento…) também poderiam ser utilizados para a Europa. Provocação altamente inapropriada, na realidade, tanto que o professor Mira poderia ter evitado adotar um tom primordial para evocar testes em populações apresentadas como indigentes – são em parte indigentes – sem nunca colocar a questão da sua indigência, nem a de como remediá-la para protegê-las de um vírus mortal.

O que dizer, aliás, da comparação, estritamente reservada aos africanos com a aids e as prostitutas? Que associação de ideias esse professor está fazendo nesse momento para extrair de seu registro de referências essa precisa analogia, que é conhecida por ser socialmente pejorativa?

A gestão da LCI, ao ser contatada, insiste em pontuar o contexto em que observações médicas foram feitas (ou seja, toda a sequência), sob o discurso de não ter controle sobre suas declarações, enfatizando sua incapacidade de frear suas consequências e rebatendo que se trata de um discurso “sem efeitos”. Esses argumentos precisam ser questionados.

ESTE NÃO É UM DISCURSO SEM EFEITO. É UM DISCURSO SEM RESPEITO.

Antes de mais nada, noto que as questões de racismo, desprezo e inferioridade estão desaparecendo da legitimidade da mídia francesa. A principal mídia do nosso país jura que é contra o racismo mas, curiosamente, acha que negros e árabes pressionam demais toda vez que falam em desrespeito a eles.

Em segundo lugar, noto que a falta de afeto não é exatamente o que as palavras do professor Mira denotam quando ele se refere às prostitutas e à aids. 

Finalmente, se é verdade que os médicos não estão acostumados a falar em frente a uma câmera, por que os canais de notícias multiplicam as transmissões ao vivo com eles? No mínimo, se o argumento for mantido, essa sequência deve questionar os dispositivos dos canais de notícias onde o espaço deve ser constantemente preenchido a todo custo.

Mas, se formos além, teríamos que questionar a cena midiática sobre outro aspecto: por que quando os professores de Medicina escorregam são usados como desculpa por não dominarem a fala (lembre-se que são pessoas de meia-idade, ultra-educadas e acostumadas a falar com o público, seja em seus departamentos ou em atividades de ensino)?

Esta sequência, de fato, nos leva a duas conclusões. A necessidade – para os meios em que foram feitos – de saber condenar os comentários estigmatizantes e, quando foram feitos, de saber pedir desculpas por eles, o que, aliás, o professor Mira fez nos termos mais claros possíveis. Esta é a condição sine qua non para o fim de uma negação do racismo e depois para recriar um espaço onde esses sujeitos retornam a não ser através da estigmatização aberta contra negros e árabes, uma experiência que se prolonga por mais mil cenas abafadas da mídia.

Há a necessidade, também, de lembrar que a crise de saúde não pode ser abordada com veículos de televisão que se transformam em programas nos quais os médicos – alguns dos quais procurarão se tornar “bons clientes” – não têm muito o que fazer no final. Um lembrete de que as autoridades sanitárias e as entidades competentes devem operar com urgência. Um lembrete, para os canais de notícias, para ouvir com a mesma urgência.

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