Nascido do crime: leitura obrigatória para antirracistas

Esse é o tipo de livro que engana pelo nome, e te pega pela razão e pela emoção. Necessariamente nesta ordem. Porque é sobre racismo, mas também sobre amor. É sobre o regime do apartheid, mas também sobre maternidade. É sobre colorismo, mas também sobre violência doméstica. É sobre racismo, mas também sobre relação de mãe e filho.

No fim, torna-se leitura obrigatória para qualquer um disposto a compreender como a negritude, na verdade, é várias negritudes. Que negro/a nenhum é igual a outro/a. Que o debate em torno da pele retinta é bem mais profundo do que apenas a cor da pele em questão. Que, surpreendentemente (contém ironia), negros de pele clara também são pessoas com dores e alegrias. Que seja onde for o sucesso não depende só da força de vontade de quem o almeja.

Trevor Noah fala disso tudo num texto em primeira pessoa que você devora sem dificuldade. Narrativa fluida e direta, muito embora a história não seja cronológica. Pra esta edição da @taglivros especificamente, destaque para a pontuação impecável. Tradutores e revisores trabalharam no ponto e deram ao livro um fôlego de orgulhar até os mais criteriosos da nossa língua portuguesa.

As considerações do autor sobre mestiços e coloured são quase sempre socos no estômago, com destaque pras associações feitas com questões territoriais e até fisiológicas das manifestações do racismo estrutural/institucional.

Uma boa obra pra você que deseja enxergar o mundo pela ótica de um jovem negro pobre de um continente esmagado pelo povo branco e que muitas vezes demora até a enxergar a si mesmo como um lugar possível. De gente possível.

“Nascido do crime” é a prova de como faz diferença termos autores negros falando sobre negritude. Autor branco nenhum alcança o que há nestas páginas. Nenhum.

Leia autores negros.

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