23 de Setembro, 2020

FOTO: Chiamaka Nwolisa

Pesquisa revela origem genética de escravizados nas américas; pretos do Brasil vieram do Congo e Nigéria

Resultados da pesquisa foram publicados no periódico American Journal of Human Genetics e refutam estudo local recente que indica origem cearense como sendo nórdica, dos vikings

Uma pesquisa feita com 50,2 mil amostras de DNA de pessoas diferentes indica uma origem curiosa dos negros escravizados nas américas entre os séculos 16 e 18. Conforme pesquisadores da companhia 23andMe e da Universidade de Leicester, no Reino Unido, há traços genéticos típicos da região onde hoje ficam Nigéria e Benin.

Ambos são países do continente africano. Mas como não há documentos que comprovem um alto fluxo de escravizados entre esses territórios e as américas, os estudiosos creem que isso é explicado pelo tráfico de escravizados dentro da própria África numa época na qual o comércio transatlântico já sofria sanções internacionais.

Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico American Journal of Human Genetics. Para chegarem a essas conclusões, os pesquisadores traçaram um paralelo entre o perfil genético de descendentes de escravizados e os documentos históricos disponíveis sobre a escravidão.

Estima-se que mais de 12 milhões de africanos – entre homens, mulheres e até crianças – foram trazidos para as américas forçadamente de 1515 a 1865. “Isso teve um significativo impacto social, cultural, de saúde e genético”, afirma o estudo.

FOTO: Ayo Ogunseinde

Só para o Brasil, acredita-se que mais de dois milhões de negros foram traficados nesse período e outros dois milhões morreram no trajeto África-América. A pesquisa indica que a maioria das conexões genéticas brasileiras se dá com populações do centro-oeste da África, em especial com a República Democrática do Congo.

“Isso não surpreende, uma vez que os dados estimam que quase 2 milhões de africanos escravizados foram transportados diretamente (dali) para o Brasil”, disseram, à BBC News Brasil os pesquisadores Steven Micheletti e Joanna Mountain, da empresa 23andMe.

Os afro-brasileiros que vivem na região Nordeste têm ancestrais congolenses e da Nigéria, enquanto no Sudeste o que predomina é a genética do Congo.

Mais detalhes da pesquisa você confere clicando aqui.

A divulgação desse mapeamento genético de larga escala – com mais de 50 mil amostras – acontece dias depois de vir a público uma pesquisa que indica a origem do povo cearense como majoritariamente nórdica, dos vikings. Aqui, mais de 70% da população é autodeclarada preta ou parda, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Ceará tem quase nove milhões de habitantes e o estudo analisou o DNA de apenas 160 indivíduos, o que causou revolta de diversas entidades representativas do povo negro e indígena. Confira artigo do historiador Hilário Ferreira sobre o assunto:

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