19 de Setembro, 2020
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Quando se ganha um programa na raça

A mais nova milionária do Brasil, senhoras e senhores, é preta. Atende por Thelma Regina Maria dos Santos Assis, tem 35 anos, atua como médica anestesiologista e deu um BA-NHO de representatividade. Conheça a trajetória da nossa ganhadora, que venceu o reality show mais assistidos do país.

A mais nova milionária do Brasil, senhoras e senhores, é preta. Atende por Thelma Regina Maria dos Santos Assis, tem 35 anos, atua como médica anestesiologista e deu um BA-NHO de representatividade em um dos programas de televisão mais assistidos do país. Ganhou a 20ª edição do BBB na madrugada desta terça-feira (28/4) com toda a pompa, circunstância e justiça do mundo.

Teve quem a chamasse de planta, pra desqualificá-la no jogo. Quem dissesse que a maquiagem dela mais parecia barro. E até apelido de mucama por gente dita instruída a agora campeã do Big Brother levou. Tudo prova do quanto o racismo é escancarado dentro e fora da disputa.

Mas foi exatamente por não ter medo de demarcar território que Thelma ganhou tantos admiradores. Começou a temporada caladinha, protegida pelo anonimato e, quando deram conta, lá estava ela 26 horas em pé numa prova de resistência, vencendo quatro paredões e garantindo vaga numa final com duas competidoras brancas e famosas.

A vitória de Thelma, contrariando inúmeras enquetes de grandes portais e surpreendente até para ela mesma, soa, como bem disse Preta Gil ao GShow logo após o BBB, tal qual uma reparação histórica. Sim, depois do vexame que foi a edição do ano passado, com uma candidata racista vencedora, ter hoje uma mulher preta, que se autodeclara preta, que valoriza a beleza preta, que se sente linda com o cabelo black power da cultura preta, que peitou macho escroto branco e que teve uma postura tão coerente e linear, sinaliza uma esperança.

Em tempos tão rarefeitos de afetos e tão cheios de medo que nem esses de agora, ver uma figura como a de Thelma na preferência do entretenimento de televisão na maior emissora do Brasil é um alento. Mas mais lindo que o resultado é o que há por trás dele.

Quantos mutirões emocionantes foram puxados nas redes sociais! Preta Gil, Iza, Thaís Araújo, Lázaro Ramos, Jennifer Nascimento, Majur, Cris Vianna, Maju Coutinho e tantas outras referências do povo preto unidas em prol da vitória de Thelma foi algo lindo de ver. E aconteceu justo na edição mais assistida da história do BBB, na que bateu recordes de votação (teve paredão com 1,5 BILHÃO de votos) e na que os conflitos raciais e de gênero mais afloraram.

A vitória da Thelma é da Thelma, claro. Mérito todo dela. Pelo que foi. Pelo que representou. Pelo modo como se colocou. Mas é também uma vitória coletiva do povo preto, a quem tanto esse país deve e faz questão de ignorar. Do povo preto e, sobretudo, das mulheres pretas. Porque essa vitória carrega consigo milhões de mulheres pretas que todo dia são desacreditadas e achincalhadas. Vistas apenas como subalternas ou uma bunda na televisão.

Pra muitas, diferente de Thelma, o único desfecho foi/é morar em subúrbio e trabalhar como empregada doméstica expondo-se ao coronavírus porque a patroa branca do bairro nobre não a libera do expediente nem no auge da pandemia. É não poder terminar o estudo básico. Faculdade, então, é pra lá de artigo de luxo. É ser largada pelo marido, que só assume socialmente a parceira branca. É crescer sem ter em quem se espelhar. Representatividade zero.

Thelma ganhou o programa na raça. Literalmente. E, às vezes, dolorosamente – no corpo e na alma. Mas é agora pra muita menina preta que mora em favela a prova de que é possível ser quem se quer ser. Quem se sonha ser. Mesmo quando toda adversidade cruza o nosso caminho.

Antes de vencer o BBB, Thelma já havia escapado de inúmeras estatísticas do povo preto. O que mais morre. O que mais mata. O que mais está desempregado. O que mais está no sistema penitenciário. O que mais precisa do auxílio emergencial do governo. O que mais vive em situação de rua. O que mais vive abaixo da linha da miséria. E tantas outras barbaridades invisíveis.

A despeito de todo o racismo, machismo e misoginia que sofreu nos ataques covardes de pessoas covardes que se escondem no sigilo das redes sociais, Thelma fez jus a todos os significados do próprio nome. Foi amável, amorosa, protetora decidida, protetora corajosa e, para quem acredita, “aquela que está sob a proteção de deus.”

Numa edição cujos embates raciais e de gênero foram recorrentes, a vitória de Thelminha é o resultado mais coerente. Prevaleceu o bom senso. É ela a cara dessa edição, e não – nunca – uma pseudosalvadora de africanos nem uma garota que acha que cor de pele branca faz um casal ser bonito e harmônico. É Thelma, preta, cabelo sarará, sambista, médica, com sorriso farto e uma vida inteira de superação a dona da porra toda.

“A ficha não caiu ainda. Eu tô vivendo um sonho. Por isso, o que posso dizer é que não desistam dos seus sonhos, por mais difíceis que eles possam parecer”. Foram essas as primeiras palavras da mais nova milionária brasileira.

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