Fotos: Lucas Diniz.

Silvio Almeida: “dizer que precisamos de um Biden brasileiro é uma sandice”

Silvio Almeida recebeu o Ceará Criolo para uma entrevista exclusiva no intervalo de uma agenda apertada em Fortaleza. Uma das vozes mais potentes do debate público sobre democracia, política, economia, direito, relações raciais e racismo, ele participou na última sexta-feira (13/11) do Favela Arte Festival, promovido pela Central Única das Favelas (Cufa) para envolver a juventude em discussões fundamentais do Brasil atual.

Lúcido e crítico ao bolsonarismo, Almeida classifica o presidente brasileiro de “lacaio dos Estados Unidos”, alerta que o presidente norte-americano eleito não é bem o que pintam, traça diferenças fundamentais entre os dois países e classifica o Brasil como autoritarista, racista e dependente.

Em uma hora de entrevista, o filósofo também pontua sobre a polêmica do colorismo. E sentencia: “se a gente não tiver o mínimo de solidariedade, a gente não vai sair desse atoleiro”. Para ele, “o colorismo é fundamental pra divisão [do povo negro] e facilitação do domínio das elites brancas.”

Confira.

CEARÁ CRIOLO: Qual conjuntura política o senhor acredita termos, levando em conta a negritude e o cenário internacional, em especial nos Estados Unidos?

SILVIO ALMEIDA: Há várias questões aí. Acho que a gente está vivendo uma conjuntura de decomposição. Decomposição da sociabilidade tal como a conhecemos. É um momento de profunda crise das formas sociais do capitalismo. E essa palavra “crise” já revela muita coisa do ponto de vista analítico. Por exemplo: quando a gente fala de crise do capitalismo, não é uma crise meramente conjuntural. Nós estamos falando de conjuntura, mas uma conjuntura que aponta para um problema estrutural. Há uma dificuldade do capitalismo reproduzir as relações que são essenciais para que a sociedade continue sendo capitalista. Você tem um problema muito sério em relação à estabilidade da forma jurídica e da forma política e também da ideologia. A gente não tem mais horizonte civilizatório. Os Estados Unidos são a prova cabal disso. Estão vivendo uma crise no sistema político sem precedentes. E o Trump não é o causador disso. Ele é o sintoma de uma profunda doença que já atinge os Estados Unidos e só se agrava, porque ele entra numa rota de colisão com as demandas sociais que nem o [Barack] Obama conseguia responder. E olhe que o movimento Black Lives Matter surge no governo do Obama. É importante dizer isso porque não é a questão de quem está lá. A questão é que a própria eleição do Obama foi uma resposta à crise de 2008.

CEARÁ CRIOLO: O senhor coloca a eleição do Biden e da Kamala nessa perspectiva também, de ser uma resposta à crise?

É uma resposta também. Uma resposta dada pelo próprio sistema, que buscou uma moderação a fim de estabilizar a sociedade pra que a sociedade americana possa continuar com a estabilidade necessária a sua produção. Os republicanos, na verdade, estão abandonando o Trump. Mas não porque acham que o Trump está errado. Estão abandonando porque acham que o Trump não vai conseguir. Você vê a diferença? A questão não é estar certo ou errado. É uma lógica de cassino. Eles apostam em quem vai ganhar. Não é em quem está certo. Essa é a lógica do neoliberalismo. É a lógica de você virar a roleta. A lógica da aposta. Nós estamos vivendo não é propriamente o neoliberalismo administrado. É o neoliberalismo em crise. É a ruína do neoliberalismo. É a crise dentro da crise.

CEARÁ CRIOLO: Mas a gente se assemelha com a realidade de lá, professor? Há sempre essa comparação entre o Bolsonarismo e o Trumpismo…

Essa comparação até é possível. Mas ela tem que ser feita com parcimônia. Quando eu falo que tem uma crise de sociabilidade, ela atinge os Estados Unidos e atinge todos os lugares do planeta porque são eles, os Estados Unidos, que estão na proa do capitalismo global. Só que cada estado se materializa dentro de uma realidade específica. O estado brasileiro não é igual ao estado americano. O dinheiro também não é o mesmo. O dólar não é igual ao real. Da mesma maneira, as crises afetam de forma diferente os países que estão no centro do capitalismo e os países que estão na periferia do capitalismo.

CEARÁ CRIOLO: O senhor posiciona o Brasil onde?

O Brasil é periferia do capitalismo. O Brasil, inclusive, nos últimos anos, depois do golpe de 2016, já no governo Temer, abandonou qualquer tipo de pretensão de figurar inclusive na lógica do imperialismo. Veja a postura vergonhosa do atual presidente da República! É praticamente um lacaio dos Estados Unidos. E mais: é um lacaio da extrema direita mundial. Ou seja: é pior ainda.

CEARÁ CRIOLO: Sequer saudou o Biden pela vitória…

Não saudou o Biden porque, ao fazer isso, ele queima as pontes com a turma barulhenta dele, que é da extrema direita. Mas, ao mesmo tempo, ele fica com muito medo. Assim que o Biden assumir, ele [Bolsonaro] vai baixar a cabeça.

Foto: Lucas Diniz.

CEARÁ CRIOLO: O senhor acredita que vamos nos isolar mais ainda, professor? Porque já se fala que mundialmente o Brasil está isolado…

Segundo analistas, nós vamos ficar isolados. Mas o Biden é uma resposta ao Trumpismo e ao que o Trumpismo significa. E tem um fator que ninguém esperava: a pandemia. É a coisa da conjuntura com a contingência. A pandemia mudou o jogo. Porque explicitou a violência desses governantes. Explicitou também a falta de direção dessas pessoas.

CEARÁ CRIOLO: O senhor acha que se não fosse a pandemia o Trump teria sido reeleito?

Hipoteticamente sim. A economia americana apresentava números não tão desastrosos. Eu acho que ele teria boas chances.

CEARÁ CRIOLO: Mas quando o senhor diz que a eleição do Biden foi uma resposta ao que o Trumpismo significa…

O Biden não é uma resposta à crise. Ele é uma resposta do sistema para o próprio sistema. É uma resposta para a administração da crise. Para manter as coisas como elas sempre foram. Por isso, dizer que nós precisamos de um Biden brasileiro é uma sandice.

CEARÁ CRIOLO:  Já estão pintando o Moro como um…

Exatamente. Mas as pessoas não estão entendendo o processo que levou à eleição do Biden. O Biden foi eleito também porque sentou pra negociar. Negociou com o Movimento Negro. Negociou com os sindicatos e as organizações dos trabalhadores. Ele negociou com a esquerda do Partido Democrata! Tanto que incorporou pautas ambientalistas. O Biden incorporou a pauta da saúde. Ou seja: ele tomou uma posição ali.

CEARÁ CRIOLO: Pauta de saúde essa que foi extremamente desmantelada pelos republicanos…

Exatamente. Ele se comprometeu a manter o Obamacare, que foi uma coisa que o Trump tentou destruir. Ele se comprometeu com as pautas identitárias. Nomeou pra equipe de transição uma militar transgênero. Ele está acenando. Isso sinaliza muita coisa. Ele está querendo recompor uma base de diálogo com movimentos sociais e até mesmo com a esquerda de uma maneira geral, mas também não dá qualquer sinal de rompimento com Wall Street. Ou seja: ele não está propondo nenhum tipo de rompimento. Ele está propondo uma repactuação.

CEARÁ CRIOLO: E qual o papel da Kamala nisso tudo, professor? Muitos movimentos negros ponderaram que ela, mesmo sendo negra, representa o projeto neoliberal. Qual seria o papel estratégico dela nessa engrenagem?

A Kamala vai muito na representatividade. As igrejas negras, por exemplo, fizeram uma mobilização enorme na Georgia [estado americano]. O papel da Stacey Abrams! O fato de a Kamala ser uma mulher negra teve importância sim. Mas aí pode haver uma armadilha identitária. Porque ela foi uma promotora com posições bastante duras. Ela não está ali pra romper. Está para manter as coisas dentro de um patamar civilizatório. De apoio ao Black Lives Matter. A chapa dela se comprometeu com a reforma das polícias, que foi o que gerou toda a onda de protestos desse ano! Isso não é pouca coisa.

CEARÁ CRIOLO: Esse retorno ao patamar civilizatório é o que a gente precisa aqui, professor? A eleição do Bolsonaro foi um sinal claro de que entramos numa era de bestialidades…

A gente não precisa de um Biden. O Biden é um homem que veio pra conservar certas coisas. Pra retomar as instâncias institucionais e o diálogo político. O Brasil é um país que precisa transformar uma série de coisas. O Brasil precisa de alguém que faça muito mais do que o Biden tem que fazer. Veja: 50 mil pessoas são mortas por ano neste país. E 70% delas são negras. Então, não dá pra gente ter um Biden aqui. Tem que ser alguém que precise enfrentar determinados interesses no sentido de colocar em marcha no Brasil um projeto econômico que implique na base econômica produtiva que o Brasil não tem e fica à mercê de crise. O Brasil não consegue ter emprego de qualidade. A maioria fica em emprego ganhando miséria. Vai ter que ter reforma fiscal. Não é só tributária.

CEARÁ CRIOLO: O senhor enxerga alguém no cenário político atual que consiga arregimentar essas forças todas?

Não tem salvador da pátria. A gente precisa de um projeto de país. E eu não vejo uma pessoa com essa capacidade de olhar o país assim. É pensar em como agregar energias que o Brasil produz historicamente e se caracterizam por serem rejeitadas o tempo todo no próprio solo brasileiro. É o que o Eduardo Lucena chama de brasilidade. Nossa marca é essa: o Brasil institucional que rejeita o Brasil potente. A pergunta de um milhão de dólares é a seguinte: quando é que a gente cria um desenho institucional que pode dialogar com as potências que o Brasil desperdiça? Olha só: você é um escritor, cara! Quantas pessoas poderiam estar escrevendo e pensando? A gente não tem instituições pra agregar essa energia. E o país não vai pra frente se a gente não fizer isso! Você acha que um Biden vai fazer isso? O Sérgio Moro, um dos fiadores da desgraça que a gente está vivendo hoje, quer ser um Biden? Você acha que o Luciano Huck vai ser Biden? O Luciano Huck não conseguia conversar com a esquerda e agora a direita não quer conversar com ele. Porque o Sérgio Moro é tóxico. O Moro é um arbitrário; um homem que não respeita…

CEARÁ CRIOLO: De onde vai partir esse projeto de país? Porque falta autocrítica de figuras públicas e partidos que se dizem de esquerda. A gente não teria que começar por essa autocrítica?

A gente não pode fazer autocrítica se a gente não faz a crítica. Aqui sequer a crítica é feita. O que é a crítica? A crítica é você encontrar os limites do seu pensamento e da sua ação. Se você sequer consegue criticar… As pessoas não conseguem fazer um diálogo. Eu não sei exatamente como a gente vai fazer isso. Mas posso dizer que tenho algumas percepções sobre como eu acho que a gente deveria caminhar. Em termos políticos, a gente vai precisar não ter medo de alguém governar o país contra os interesses do grande capital se não tiver uma âncora popular. Não tem jeito. Vamos ter que ter meios de ampliação da participação popular pra que ela não fique dependente das eleições. Não dá pra governar sem isso. E isso não se constrói só na eleição. É muito antes, com as potencialidades do país. A gente não sabe de muita coisa que é produzida, cara! Você é finalista do Jabuti, o principal prêmio da literatura brasileira, e eu não conhecia. Acho uma loucura a gente não se conhecer e não saber o que está sendo produzido. E tem muita gente querendo produzir.

CEARÁ CRIOLO: O senhor acha que a gente caminha pra ruptura de alguma coisa?

Sim. Mas ruptura pode significar um horizonte renovável ou a gente viver num Mad Max. Acho que o sujeito que está na presidência tem muito poder. O Bolsonaro tem duas coisas que complicam muito a vida das oposições. Ele tem o orçamento e o Exército. Eu adicionaria até mais: tem também infiltração nas polícias estaduais e nas guardas municipais. É um aparelhamento muito forte ou militarização mesmo. Enquanto nos Estados Unidos o chefe do Exército diz que não está a serviço de ninguém e que serve somente ao país e à Constituição, aqui o chefe do Exército em 2018, na eleição do Bolsonaro, deu declarações para interferir nas eleições. Olha a diferença! O Brasil não tem uma tradição republicana. O pessoal fala muito que o Brasil é uma democracia. O Brasil é uma república. É pior a situação.

Fotos: Lucas Diniz.

CEARÁ CRIOLO: Que explicação o senhor dá pra essa paralisia das instituições? O senhor acha que elas estão paralisadas diante dessa distopia que a gente vive? Porque por muito menos a Dilma foi deposta e outras figuras de esquerda são achincalhadas…

As instituições estão funcionando perfeitamente, mas na lógica do subdesenvolvimento, autoritarismo e racismo. A gente é isso. E foi sempre assim. O que aconteceu com a Dilma não é normal. O que me espanta é a gente, eu, inclusive, estar tão espantado. Eu acho que agravou muito nos últimos anos. Mas não deveria nos surpreender porque pouquíssimos presidentes eleitos terminaram mandato aqui. A gente tem pouquíssimos momentos de democracia formal. O Brasil é autoritarismo, racismo e dependência. E no momento em que temos algum projeto pra sair disso acontece golpe de estado. Foi assim em 1950 e foi assim de novo em 2016.

CEARÁ CRIOLO: Qual papel o senhor considera que as empresas de comunicação têm nessa conjuntura?

Um país dependente produz uma cultura dependente. Uma cultura dependente produz, portanto, uma mídia dependente. Dependente em todos os sentidos. Não só do ponto de vista econômico, mas dependente culturalmente. O que acontece nos meios de comunicação é um descaso. Esses programas policiais no meio da tarde? Isso aí não podia existir. A gente é bombardeado o tempo todo com a naturalização da violência.

CEARÁ CRIOLO: O Ceará é o estado brasileiro com mais horas de programação televisiva dedicadas a programas policiais…

É, eu notei. Eu liguei a televisão e fiquei assustado. Isso não devia existir. A gente não pode colocar isso como padrão civilizatório. Isso era pra passar às três da manhã! E, ainda assim, não está certo. A divulgação da violência urbana legitima o uso de armas pelo poder público. [Michel] Foucault já dizia isso. Ele fala mais ou menos assim: “o medo faz com que nós aceitemos que pessoas andem armadas em nome do Estado quando nós não podemos andar armados”. Ele fala isso porque esse tipo de poder vai ser usado não só pra reprimir a criminalidade mas também protestos de trabalhadores e dos movimentos sociais. Stuart Hall também escreveu sobre isso nos anos 1970 pros anos 1980, no contexto do governo da [Margareth] Thatcher. Fala do pânico moral. O pânico moral é fundamental porque ele justifica os meios de exceção. São as pessoas com medo. Com esses programas, você vai criando um sentimento de que o outro morra porque tomou um celular que você lutou pra ter. Você vai criando pânico e deixando as pessoas com ódio.

CEARÁ CRIOLO: Até aparecer alguém se dizendo o salvador da pátria prometendo resolver tudo, que é o que estamos vivendo em Fortaleza agora, durante as eleições…

‘Cê entendeu? Isso vai dando legitimidade pra violência policial. No Brasil é assim. E nos países que estão na periferia do capitalismo as crises chegam de uma maneira muito mais violenta. Aqui, as coisas acontecem de maneira muito pior. Esses caras estão com essa conversa de “novo Biden”, se colocam como pessoas educadas e finas, pra continuarem fazendo a mesma coisa que o Bolsonaro está fazendo do ponto de vista do desmonte do Estado, da destruição do sistema de proteção social e do uso da violência. Porque as pessoas vão reagir! Ou você acha que as pessoas vão aguentar continuar vivendo uma vida desgraçada? Sem hospital e sem escola? As pessoas vão se revoltar. E a única maneira pra eles lidarem com isso é pela violência.

CEARÁ CRIOLO: E, além disso, professor, ignorando as pautas raciais, né? Porque se você pegar os planos de governo dos candidatos, a maioria sequer cita que a população negra existe…

Mas é como eu digo: ainda se citasse, sem qualquer tipo de compromisso com uma transformação, com o rompimento com certas práticas, pode acreditar que não iria adiantar de nada. Pessoas favoráveis a desmonte de Estado, reforma administrativa, reforma da Previdência, reforma trabalhista etc, elas vêm com papo de cotas. Porque dá pra falar de cotas pela lógica neoliberal. Facilmente. Quer ver? Eu sei que com a cota eu vou ter o melhor. E por que o melhor? Se o sujeito chegou aqui mesmo com a cota é porque ele passou por um sofrimento, por um processo que faz com que ele certamente tenha qualidades melhores do que o outro. Você coloca as pessoas em competição.

CEARÁ CRIOLO: E ainda romantiza a dor da pessoa.

Exato. O cara só pode chegar lá porque sofreu muito. E, se sofreu muito, ele soube otimizar o uso dos recursos racionais. Ou seja: ele, com pouco, fez muito. Isso é neoliberalismo, pô! O cara é a favor de cotas e é neoliberalista. A cota é uma solução importante. É uma forma de combater o racismo institucional. Mas nós lidamos com o racismo estrutural. Nesse sentido, a gente tem que ter a cota, mas tem que ter a reconstrução dos serviços públicos. Porque nosso objetivo não é só cota na universidade. É a ampliação das vagas nas universidades, a ampliação das universidades e o fim do vestibular. Aí eu quero ver.

CEARÁ CRIOLO: E, para além disso, professor, há a questão das epistemologias, que muitas estão equivocadas, e a disputa de poder muito forte na academia…

A representatividade importa muito. Mas ela não é fim. Hoje nós somos maioria das universidades e o que está acontecendo? Eles estão destruindo a universidade. E quer que eu diga mais: estão defendendo o fim da estabilidade do serviço público. Tem muita armadilha. Se a gente não tiver a capacidade de conversar e entender o que está acontecendo, a gente vai ficar totalmente perdido.

CEARÁ CRIOLO: Mas o senhor acha que as pessoas entendem isso?

Acho que não. É muita bagunça. As pessoas estão muito confusas. E a vida das pessoas não permite que as pessoas saibam dessa confusão. Como pode uma pessoa que trabalha horas e horas e, quando chega em casa, se depara com novela, programa policial… O que não quer dizer que as pessoas não lembrem…

CEARÁ CRIOLO: Qual a opinião do senhor em relação ao colorismo?

A professora Sueli Carneiro já resolveu isso daí. Mas uma coisa que aprendi estudando os Estados Unidos, Haiti, Cuba, República Dominicana e Brasil foi que são países que lutam pelo mesmo processo. Um processo de construção das sociedades contemporâneas que estão diretamente relacionadas ao coronelismo e à escravidão. Uma coisa que descobri lendo sobre esses lugares é que os racistas estabeleceram a divisão hierárquica entre negros com a cor da pele mais escura e os de pele mais clara. Isso foi um fator fundamental de divisão social e que facilitou muito a dominação nas colônias. Porque foram instituídos inclusive prepostos. Prepostos de pele mais clara. Se vê isso muito na Revolução Haitiana. Tinha quem achasse que parte da ilha de São Domingos tinha que ser anexada aos Estados Unidos. Mas havia o receio de as pessoas de pele mais escura se revoltassem. O colorismo é fundamental pra divisão e facilitação do domínio das elites brancas. Acho que a estratégia do Movimento Negro no começo dos anos 1980 foi central. Porque transformou o negro em categoria política. Mais do que categoria racial. Eles politizaram a raça, no sentido de colocar o negro como todos aqueles que partiram de um mesmo destino, não importa o tom da sua pele. E não aqueles que sofrem racismo mas todos que lutem contra o racismo. Porque o racismo lhe constitui. Isso foi fundamental porque isso fez com que a gente pudesse hoje ter uma série de políticas públicas com um alcance muito mais amplo.

CEARÁ CRIOLO: Este ano, inclusive, a professora Sueli fez um comentário sobre pessoas pardas vítimas da violência policial. Ela ponderava a respeito de quem se responsabilizaria pela morte desses indivíduos e, considerando o colorismo, onde, então, eles existem…

Sueli é perfeita. O negro tem que ser uma categoria política porque isso nos permite lutar todos do mesmo lado e pelo mesmo propósito. O colorismo tem que ser visto como um desdobramento do racismo. E colorismo não é problema nosso. É dos brancos racistas. Porque eles quem inventaram isso. É uma armadilha. E a gente não pode cair nessa. A gente não pode ficar nessa de “quem tem a pele mais escura sofre mais”. É real. Mas não significa que quem tenha a pele mais clara não sofra. E não implica dizer também que quem tem pele mais clara tem culpa das cores que lhe constituem. Não tem saída. Se a gente não tiver o mínimo de solidariedade, a gente não vai sair desse atoleiro. A gente não pode cair nessa armadilha. Colorismo é coisa do racismo. E racismo é confusão. Racismo não quer explicar nada pra ninguém. O racismo é uma forma de racionalidade, mas que implica estabelecer um mundo de delírio. Como diz Achille Mbembe, é uma loucura codificada. O racismo é isso. Ele estabelece uma razão louca no mundo.

CEARÁ CRIOLO: E ainda tem o fato de que você pode ser um negro retinto e se estiver numa posição social melhor do que um negro de pele clara que more numa favela, esse negro de pele clara pode estar, em alguma medida, muito mais exposto a vulnerabilidades do que o negro retinto de classe social mais alta. A gente vai resumir a questão à quantidade de melanina no corpo de cada um?

Não tem a ver com isso, né? Na verdade, racismo não tem a ver com nada. O racismo é uma loucura codificada. E você tem que observar como cada lugar organizou as suas estruturas de racialização. Nos Estados Unidos, a estrutura de racialização se vale de uma certa racionalidade genética. Ou seja: se você tem sangue negro ou algum negro na família, eles fazem essa racialização. No Brasil, essa estrutura, dadas as condições do país, ela funciona pela questão do fenótipo, obviamente, mas também passa pela questão de classe. Isso é muito relevante no Brasil. E classe no sentido amplo, de capital cultural também. No sentido de quais acessos que você tem a certos bens da cultura. Por isso que a estratégia do Movimento Negro de ir pra universidade e reivindicar espaço foi fundamental. Porque um dos aspectos que faz você ser branco no Brasil é justamente o fato de deter o acesso ao Ensino Superior. Branco pobre não entraria na universidade. Mas poderia entrar. Era difícil, mas poderia. Mas preto? Universidade não era lugar de preto. Quando você quebra isso e coloca o preto dentro da universidade, você bagunça a conversa. Porque a universidade no Brasil, historicamente, tem um papel de legitimação de classe e de raça. Então, um sujeito de pele mais clarinha quando passa por uma universidade ele acaba tendo certas possibilidades, inclusive de negar o fato de que é negro. O racismo é uma produção política, jurídica, econômica e estética também. Quando você, negro, diz que quer entrar na universidade, você está dizendo que quer furar esse cordão sanitário que os brancos construíram pra dizer que estão num lado diferente do nosso. Por isso que cota pra nós é um negócio muito violento. E olhe que o modelo brasileiro é muito mais radical do que o dos Estados Unidos.

Foto: Lucas Diniz.

PERFIL
Silvio Luiz de Almeida é um paulistano de 44 anos. Advogado, filósofo e professor universitário, tornou-se uma das principais vozes do debate público sobre democracia, relações raciais, antirracismo e economia. Preside o Instituto Luiz Gama e é autor de três livros: “O Direito no Jovem Lukács: a Filosofia do Direito em História e Consciência” (2006), “Sartre: Direito e Política” (2016) e “Racismo estrutural” (2019). É mestre em Direito Político e Econômico e doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito, e já deu aulas em universidades norte-americanas.

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