23 de Setembro, 2020

Travestis e transexuais negras: reverência às raízes fortes

Na estreia da coluna Afrotransfuturista, Yara Canta faz um resgate histórico de transancestrais que foram/são fundamentais na luta pela vida. “Estamos construindo um futuro sólido porque temos raízes fortes”

Quando comecei a escrever esta coluna, algumas ideias me vieram à mente. Mas o único ponto de partida possível para esse primeiro momento é eu falar sobre as que vieram antes de mim. Meu intuito aqui é a manutenção e a criação de novas narrativas para pessoas trans e travestis negras. Narrativas que sejam pautadas em vida, na criação de um futuro diferente. E, para isso, é necessário visitarmos o passado, que também é o presente.

Nossa grande matriarca Jovanna Baby, fundadora do Movimento Nacional de Travestis, desde 1979 luta pelos direitos civis das travestis e transexuais. Foi uma das que chutaram a porta lá atrás juntamente com Jossy Silva, Elza Lobão, Beatriz Senegal, Raquel Barbosa e Monique do Bavier.

Elas fundaram a primeira ONG exclusivamente de travestis e transexuais da América Latina, o grupo Astral, em 1992. Hoje, Jovanna Baby é presidenta do Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans), do qual orgulhosamente sou integrante. No site do fórum, é possível ler mais sobre a história do nascimento do movimento social de travestis e transexuais no Brasil. E, em breve, será lançado um livro contando toda a história da organização social de travestis no Brasil: o Bajubá Odara

Kátia Tapety é outra grande precursora. Ela foi a primeira travesti eleita para um cargo político no Brasil, em 1992. Temos a sorte de existir um documentário incrível sobre a vida dela disponível gratuitamente on-line: https://www.youtube.com/watch?v=aQok38s7mMA&ab_channel=KarlaHolanda

Outro documentário importante é sobre a vida da Keila Simpson, que hoje preside a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra):

E a nossa conterrânea cearense, a querida e inesquecível Thina Rodrigues, que foi e sempre será um grande nome no movimento, não pode não ser citada. Infelizmente, ela nos deixou em junho após complicações em decorrência do novo coronavírus (Covid-19).

Thina foi fundadora da Associação de Travestis e Mulheres Transexuais do Ceará (Atrac), entidade da qual foi presidenta por muitos anos e esteve presente na construção dos direitos civis das pessoas trans e travestis. Cito especialmente o direito ao nome social, que desde 2017 tornou-se lei municipal em Fortaleza. Essa é uma das conquistas da luta da Thina e de outras companheiras do movimento. Thina Rodrigues estará sempre presente e seu legado jamais será esquecido.

A luta delas, e de todas as outras que vieram antes, tornou possível a minha existência e a de tantas outras travestis negras no Brasil. Tenho um carinho especial pela Mel, que é uma das grandes precursoras nacionais na minha principal área de atuação (a música, a arte). Se hoje sou a artista, cantora, atriz, militante, travesti e negra que sou é porque percebi que não estava sozinha. Pois sei que estamos aqui há muito tempo criando novas narrativas.

Nós rompemos padrões impostos pela branquitude, pelo sistema colonial e cissexista que tenta nos matar a todo instante. Nós criamos vida! Somos o passado, o presente e o futuro. Somos a esperteza. Temos a força e a sabedoria de todas as nossas transancestrais. Estamos construindo um futuro sólido porque temos raízes fortes.

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