18 de Abril, 2021
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O que nos restou?

#4 diário

Depois de tudo isso, o que? Na verdade, ainda agora, como está acontecendo? A vida não se faz sendo crise toda hora. Adapta-se – e como? Para algo bom ou então (…)? O que ainda acontece desde lá?

Um momento importante, como uma pandemia dessa ou uma morte inesperada ou uma passagem comum da vida (ser adulto, por exemplo), divide um “Antes e Agora”. É curioso que o Antes, o que foi ruim parece não ter sido tão ruim assim. Não há mais tanta dívida. Era mais fácil, possível de ser lidado. Tudo prestava (de algum jeito). Agora é mais impossível. Dói.

Ouvi que desde quando “a chave virou” para sermos gente ou gente-coletiva sentimos o medo de acabar. O fim do mundo. Daí os grandes mitos, o calendário de mesa para saber que dia é, a agenda e os lembretes. Apocalipse, a virada para os anos 2000, as luzes estranhas no céu e os corpos dos alienígenas, 2012 e o calendário Maia, os vários sinais. Tantos sinais. Impossíveis de não serem vistos, não é?

Acredito que o fim do mundo seja o “Agora”, o atualmente.

Sem querer, no meio de umas risadas e de um jogo na mesa, eu ouvi três tiros na rua. Imaginei que talvez fosse naquela rua ao lado, perto da esquina. Estranho foi ninguém mais perceber. Só eu. Parei. O sorriso travou por uns segundos. “São tiros”, tenho certeza. Disfarcei e continuei rindo.

O Medo, assim, Maiúsculo, era uma figura tão importante para alguém que eu estava acompanhando que pedi para me contar a história dele, como personagem principal. No começo dessa contação, foi um pouco mais difícil lembrar dos medos antigos. Os de agora eram tão presentes, mas quando o primeiro apareceu logo os outros vieram. Tantos. Finalmente entendia o porquê de os medos de agora serem tão bruscos: de ser morto, de ouvir barulho de cavalaria na rua, de alguém bater na porta de casa, de não conseguir ir para a aula.

De não poder.

“A fuga só acontece porque é impossível”, Sem título (futurismo urgente), Jota Mombaça, que conversa com Fanon:

“eu sonho que dou um salto, que nado, que corro, que subo. Sonho que estouro na gargalhada, que transponho o rio com uma pernada, que sou perseguido por bandos de veículos que não me pegam nunca. Durante a colonização, o colonizado não cessa de se libertar entre as nove horas da noite e seis horas da manhã”. Ensina, em Condenados da Terra.

É impossível. Por isso há fuga. Os sonhos de Fanon, os musculares. Ou os meus e de quem mais precisa.

Não é possível. Fugimos – entende agora?

Ainda não vai ser possível. Então, somos impossíveis ou fugitivas.

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