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26 de Setembro, 2021
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Clébson Oscar, 2019

Uma saudade colonial chamada “cidade”

[Além de estar no Brasil, entre 1500 até 2021, este texto contém gatilhos emocionais para pessoas não-brancas]

Em uma aula sobre Saúde Mental da População Negra, em uma pausa, daquela de segurar um pouco a respiração antes de soltar informação, a professora arrematou: existe um Instituto Médico Legal (IML) chamado Nina Rodrigues, em Salvador. Pesquisei: av. Centenário, s/n, Garcia, 2 km da Baía de Todos os Santos.

“Como pode, logo um reconhecido criminalizador de corpos negros, levar nome de algo em uma cidade como Salvador?”. E ficava pensando: “E como não seria assim?”, repetindo nas outras aulas, como se entendesse realmente que, sendo nordestinas, nossas cidades têm carrego colonial muito único. Como não tinha percebido isso antes?

“Carrego” é palavra sobre carregar algo de peso e que deixa quebrantado, doente. Pode haver cura? Pode, mas não necessariamente. A vida pode acontecer com alguém, ir seguindo uma família, pulando entre gerações – ou não, acabar num susto, do tipo soluço. “Carrego”, antes, tinha quem fizesse, como foi feito, e, também importante, o palavreado. Metade de algo é encantar, a outra é o segredo sobre. Nisso, cabe a regra universal tanto para o quebrantamento quanto para macerar folha/vela que desfaz tudo isso. “Encantamento” se diz por chamar por. Não é interjeição; é contação de história e, assim, fazer um certo tipo de dengo. Existe quem chama por várias coisas. 

Em Corpo Fechado, (The Devil’s Work, 2018, do diretor do branco Carlos Motta: https://vimeo.com/286416640), um escravizado sob nome quebrado de José Francisco Pereira, no século XIX, é torturado e morto pela inquisição católica por ter feito bolsas de mandinga, uma proteção para ferimento dos outros corpos escravizados, pois uma pessoa negra ferida demais seria inútil para o sistema colonial, e por sodomia. 

S-o-d-o-m-i-a. Uma das palavras feitas manualmente pelo catolicismo, portanto um quebrante colonial, para denunciar o “peguei”: um balde, um viado, uma travesti, um chupa-r*la, o/a outro/a. 

Inquisição hoje, brincadeira de criança, saudade colonial.

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Nessa semana, Luís Carlos, uma jovem bixa negra, sofreu. Saiu de casa pelada, desnorteada pelas ruas de Maranhão. Falava desconexamente. Antes de chegar no rio, andou por alguns quilômetros, sendo filmada por quem passava e por policiais, que a escoltaram, mas não a pararam. Nos vídeos, quem filmava ria. Luís se jogou no rio, o corpo foi encontrado no outro dia pela manhã. Em campanha virtual contra a humilhação pré/pós-morte dele, os amigos recontaram a história que surgia com risada em grupos de Whatsapp para não fazer esquecer que Luís era gente. 

“A justiça falha diante de corpos e territórios negros” (p. 36), do livro A Dívida Impagável, de Denise Ferreira da Silva. A Justiça, as pessoas envolta/dentro de tudo, a própria cidade e as ruas também, profa Denise. 

Lembrei da arquitetura fortalezense, com as ruas em forma de xadrez, com o tombamento de algumas casas antigas, com o nome-homenagem de avenidas: barões, duques, sargentos, princesa Isabel, 13 de maio. A influência francesa é presentificada. Não é exatamente como cafés coloniais do Sul brasileiro ou da lanchonete (fechada há uns 10 anos) chamada “Senzala”, com grafite de correntes na parede onde se recebia a comida, da minha cidade metropolitana. Mas é a mesma saudade preservada.

Escrevendo, sei que não me interessam os conceitos e termos acadêmicos, significados, a torto e a direito, e, sim, a promessa das coisas que vejo ou das que não vejo porque ambas existem para quebrantar ou encantar. Andando pela cidade, que está sendo mais na minha memória, vejo sinais: há uma promessa em curso.

Bicha, a história tem, de fato, nos exigido crueldade. A ingenuidade perante as formas do poder não é um luxo ao qual nos podemos dar. Não se sobrevive a uma guerra fingindo simplesmente que os canhões não estão apontados, que não há arame farpado nas ruas e que os cães de guarda não enxergam sua mira em nosso pescoço. (…) Há algo no que estamos fazendo que não pode ainda ser apreendido nem por nós mesmas nem pelas gentes e coisas que nos cercam. Por isso não há linguagem para descrever a força que me arrasta até o seu trabalho, mas também não há nada por desvendar. Nós ouvimos os sussurros e nos dedicamos a montar e desmontar o quebra-cabeça. (2019, online, Jota Mombaça, Aqui Foi Quilombo de Pai Felipe).

Nas grades de portões das mesmas casas de Fortaleza, existem símbolos adinkra – “retorne e pegue-o”. Eu procuro os tais sinais nas ruas de onde vou indo. Não vejo só o pequeno altar cristã em toda loja do Centro ou o “Deus é fiel!” perto do código de barras dos produtos. Eu encontro o padê na rua e os contra-egum nos braços ali perto da Praça do Ferreira. Ouço promessa, sinto o cheiro de incenso de uma loja onde se vende palha-da-costa, daí eu entro.

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A arquitetura de uma cidade já construída é um projeto incompleto. O motivo do nome “Ceilândia”, no Distrito Federal, ou a placa com nome de uma pessoa negra arrancada como intervenção política por bolsonarista ou os bailes pretos em São Paulo e em Fortaleza ou a estátua de um escravocrata derrubada e jogada no rio na Inglaterra ou os vídeos de Luís correndo na rua antes de ir ao rio ou o nome de Nina Ferreira em um Instituto Médico Legal. São todos exemplos de disputas em curso em que em cada “ou” são meus movimentos de olhos para lá e cá. 

Já me chamaram de Olhos de um Deus, mas, “se vejo a cura, por que os meus olhos ainda doem?”, diz Castiel Vitorino Brasileiro no Quarto de Cura

O altar da minha avó fica num quarto debaixo da escada. Lá entre velas, um quadro de Santa Luzia, uma bíblia, santos com cabeças coladas, há várias fotos 3×4 de gente de família – e eu estou lá. Me sinto importante tal qual Cosme e Damião. Assim como José Francisco Pereira, minha avó é mandigueira rezadora para corpos, mas, segundo ela, católica/terreiro-fóbica.

As sementes de sucupira estão no pote com água. Minha avó não me convence. Eu vejo os sinais.

“Não sei porque você [entrevistador] está me olhando com cara tão simpática. Nós estamos em guerra! O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. (…) A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares o tempo todo”, diz tranquilamente Ailton Krenak, no primeiro episódio de Guerras do Brasil.doc.

(Lembrete: ser atenta à arquitetura quebrantadora como requisito de estar viva. Falar em segredo. Encantar cabeças).

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