A pergunta circulava entre fazendeiros sempre que surgiam notícias de revoltas de pessoas escravizadas: “Mas será o Benedito?”. O nome fazia referência a Benedito Caravelas, conhecido como Benedito Meia-Légua, personagem histórico associado a ações de libertação de escravizados e à formação de grupos de resistência no século XIX, décadas antes da abolição.
Nascido escravizado em 1805, no município de Villa Nova do Rio de Sam Matheus, atual São Mateus (ES), Benedito teria iniciado, a partir da década de 1820, uma trajetória de enfrentamento ao regime escravista que se estendeu por décadas. Suas constantes andanças pela região teriam dado origem ao apelido “Meia-Légua”.
Michele Freire Schiffler, doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em artigo publicado na revista Mosaicum (2015), relata que Benedito vinculava a fé em São Benedito à luta por libertação. Segundo a pesquisadora, ele carregava no embornal uma pequena imagem do santo, que ganhou significado simbólico entre os grupos de resistência. As ações atribuídas a ele envolviam invasões a fazendas, saques e a libertação de pessoas escravizadas, que passavam a integrar grupos organizados para realizar ataques simultâneos em diferentes locais.

O escritor capixaba Maciel de Aguiar, no livro Os últimos Zumbis, publicado em 2021 pela editora Brasil Cultura, descreve Benedito Meia-Légua como líder quilombola que, a partir da década de 1830, teria aterrorizado grandes fazendeiros da região ao associar religiosidade e organização coletiva na luta contra a escravidão. Segundo o autor, a coragem e a astúcia do líder o transformaram em símbolo de esperança de libertação para os escravizados da região norte do ES. A trajetória foi marcada por confrontos, fugas e reorganizações de grupos de resistência, estendendo-se até o período posterior à Abolição.
O reconhecimento institucional dessa memória ocorreu em 2021, quando o Governo do Espírito Santo criou, por meio do Decreto nº 5.036-R, o Prêmio Benedito Meia-Légua. A premiação homenageia personalidades negras que se destacam na luta quilombola e na promoção da igualdade racial. A coordenação é da Secretaria de Direitos Humanos (SEDH), por meio da Gerência de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Gepir).
Em 2025, sete pessoas foram homenageadas em cerimônia realizada no Porto de São Mateus, em reconhecimento à atuação na defesa de direitos quilombolas e na promoção da igualdade racial. O prêmio reforça a permanência do nome de Benedito Meia-Légua como referência histórica de resistência negra no estado.
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