Uma pesquisa feita com 50,2 mil amostras de DNA de pessoas diferentes indica uma origem curiosa dos negros escravizados nas américas entre os séculos 16 e 18. Conforme pesquisadores da companhia 23andMe e da Universidade de Leicester, no Reino Unido, há traços genéticos típicos da região onde hoje ficam Nigéria e Benin.
Ambos são países do continente africano. Mas como não há documentos que comprovem um alto fluxo de escravizados entre esses territórios e as américas, os estudiosos creem que isso é explicado pelo tráfico de escravizados dentro da própria África numa época na qual o comércio transatlântico já sofria sanções internacionais.
Os resultados da pesquisa foram publicados no periódico American Journal of Human Genetics. Para chegarem a essas conclusões, os pesquisadores traçaram um paralelo entre o perfil genético de descendentes de escravizados e os documentos históricos disponíveis sobre a escravidão.
Estima-se que mais de 12 milhões de africanos – entre homens, mulheres e até crianças – foram trazidos para as américas forçadamente de 1515 a 1865. “Isso teve um significativo impacto social, cultural, de saúde e genético”, afirma o estudo.

Só para o Brasil, acredita-se que mais de dois milhões de negros foram traficados nesse período e outros dois milhões morreram no trajeto África-América. A pesquisa indica que a maioria das conexões genéticas brasileiras se dá com populações do centro-oeste da África, em especial com a República Democrática do Congo.
“Isso não surpreende, uma vez que os dados estimam que quase 2 milhões de africanos escravizados foram transportados diretamente (dali) para o Brasil”, disseram, à BBC News Brasil os pesquisadores Steven Micheletti e Joanna Mountain, da empresa 23andMe.
Os afro-brasileiros que vivem na região Nordeste têm ancestrais congolenses e da Nigéria, enquanto no Sudeste o que predomina é a genética do Congo.
Mais detalhes da pesquisa você confere clicando aqui.
A divulgação desse mapeamento genético de larga escala – com mais de 50 mil amostras – acontece dias depois de vir a público uma pesquisa que indica a origem do povo cearense como majoritariamente nórdica, dos vikings. Aqui, mais de 70% da população é autodeclarada preta ou parda, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O Ceará tem quase nove milhões de habitantes e o estudo analisou o DNA de apenas 160 indivíduos, o que causou revolta de diversas entidades representativas do povo negro e indígena. Confira artigo do historiador Hilário Ferreira sobre o assunto:

Comunicólogo e mestre em Antropologia, é especialista em Jornalismo Político e Escrita Literária e tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra e colaborador do El País Brasil. Atua hoje como assessor de comunicação. Venceu o Prêmio Gandhi de Comunicação, o Prêmio MPCE de Jornalismo e o Prêmio Maria Neusa de Jornalismo, todos com reportagens sobre a população negra. No Ceará Criolo, é repórter e editor-geral de conteúdo. Escritor, foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura 2020.

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https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53534656