Custódio Joaquim de Almeida, conhecido como Príncipe Custódio, africano originário do atual Benin, viveu em Porto Alegre entre o fim do século XIX e o século XX, onde atuou como liderança religiosa e é apontado como figura central na consolidação do Batuque, religião de matriz africana no Sul do Brasil. A trajetória dele inspira o enredo da escola de samba Portela no Carnaval de 2026, no Rio de Janeiro, como forma de valorizar a ancestralidade negra e a presença africana na história gaúcha.
Também chamado de Osuanlele Okizi Erupê, é considerado um dos pilares da cultura afro-gaúcha e símbolo do fortalecimento da negritude no Sul do país. A ele é atribuída a difusão e organização do Batuque, além da criação do Bará do Mercado Público de Porto Alegre e do assentamento do orixá em outros pontos da cidade.

O Batuque compõe o conjunto das principais religiões afro-brasileiras, ao lado do candomblé (Bahia), da Jurema Sagrada (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), do tambor de mina (Maranhão), da umbanda (Rio de Janeiro) e do Xangô de Pernambuco.
De acordo com os historiadores Jovani Scher e Rodrigo Weiner no livro “No refluxo dos retornados: Custódio Joaquim de Almeida”, o Príncipe Custódio teria vindo ao Brasil em condição de exílio, diante do avanço do imperialismo britânico e do colonialismo europeu em África. Chegou à Bahia, supostamente, em 1898, seguiu para o Rio de Janeiro e, depois, para o Sul do Brasil, após orientação espiritual obtida por meio do jogo de Ifá (búzios), ligada ao cumprimento de seu Odu (destino).
Em Porto Alegre, viveu até os 104 anos. Apesar de manter relações com setores da elite política gaúcha, trabalhava como canoeiro e era conhecido como turfman. Morador do bairro Cidade Baixa, área historicamente ocupada pela população negra no período pós-abolição, teria se relacionado com nomes como Júlio de Castilhos, Carlos Barbosa e Borges de Medeiros.
Samba-enredo leva história à Sapucaí

“Enquanto houver um pastoreio a chama não se apagará / Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”.
O trecho acima faz parte do enredo “O mistério do Príncipe do Bará – a oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, que será apresentado pela Portela no Carnaval de 2026. Uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro, a agremiação levará à avenida um desfile que resgata as origens e a tradição do Batuque, religião de matriz africana praticada no Sul do Brasil, e homenageia o legado do Príncipe Custódio.
O tema dialoga com dados do Censo de 2022, que apontam o Rio Grande do Sul como o estado com o menor percentual de pessoas negras (21,2%), enquanto a Bahia registra o maior índice (79,7%). O levantamento também indica que o Rio Grande do Sul aparece entre os estados com maior proporção de praticantes de umbanda e candomblé (3,19%), à frente da Bahia (1%), do Rio de Janeiro (2,58%) e de São Paulo (1,47%).
Ainda segundo o Censo, o número de praticantes de religiões de matriz africana cresceu mais de 300% no país. A média nacional de adeptos de umbanda e candomblé passou de 0,3%, em 2010, para 1% em 2022.
Ao Príncipe Custódio é atribuído um papel de mediação entre a população negra e as elites políticas gaúchas, sendo reconhecido como liderança religiosa e guardião de conhecimentos e liturgias de cultos africanos. No documentário “A tradição do Bará do Mercado – Os caminhos invisíveis do negro em Porto Alegre”, o babalorixá Bábà Iyedigba de Yemonja afirma: “Não somos herdeiros de escravos. Somos herdeiros de reis e rainhas”.
O desfile da Portela ocorrerá na noite de domingo, 15 de fevereiro de 2026, pelo Grupo Especial do Rio de Janeiro, na Marquês de Sapucaí.
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