Com microfone na mão e palavras na ponta da língua, artistas que participam dos Slams, as batalhas de poesia falada, declamam suas vivências e aguardam a nota dos jurados em competições locais, estaduais, nacionais e internacionais.
Para quem não conhece, o slam segue três regras: os participantes apresentam poemas autorais que, muitas vezes em forma de rima, narram experiências pessoais, em no máximo três minutos, utilizando apenas o corpo e a voz na performance. Não são permitidos figurinos, adereços ou acompanhamento musical.
O público, escolhido pouco antes das batalhas, forma o corpo de jurados. No Brasil, cinco pessoas são escolhidas pela equipe do evento e atribuem notas após cada poema. A mais alta e a mais baixa são retiradas. As médias e as notas são marcadas em um quadro onde todos possam ver.
Esse é o cenário do slam, movimento que nasceu nos Estados Unidos, na cidade de Chicago, na década de 1980. Inicialmente, a proposta era democratizar a poesia, retirando-a de espaços considerados elitizados, e aproximando do público por meio da performance e da oralidade.
No Brasil, a cena começou a se consolidar nos anos 2000, com a criação de diversos coletivos e batalhas em espaços públicos. A primeira edição do Slam BR, campeonato brasileiro de poesia falada, aconteceu em 2014, na cidade de São Paulo, organizada por coletivos da cena de poesia performática.
Entre os nomes que impulsionaram a consolidação do evento está a poeta, atriz e pesquisadora Roberta Estrela D’Alva, reconhecida como uma das principais responsáveis pela difusão do slam no Brasil. Sua atualização junto ao Núcleo Bartolomeu de Depoimentos ajudou a introduzir e estruturar a cena de poetry slam no país.
“Os slams são práticas expressivas culturais. Comunicar isso significa interpretá-los como resultado de encontros de sujeitos que, com um olhar ativo e crítico sobre a sociedade, expressam suas experiências individuais e coletivas por meio de poesias e performances”, destacam as pesquisadoras Carolina Nascimento de Melo e Karina Almeida de Souza.
Embora os slams tenham tema livre, os textos frequentemente se voltam para as experiências pessoais dos competidores, tecendo fortes críticas sociais. Entre os temas recorrentes estão racismo, desigualdade, violência urbana e vivências nas periferias. Um exemplo marcante é o poema “A coisa tá tão preta”, do poeta Felipe Marinho, apresentado na final do Slam da Guilhermina, em 2017. No texto, o autor repete: “A coisa tá tão preta, tão preta, tão preta, tão preta, tão preta, tão preta, tão preta, tão preta, tão preta. Que nada mais passará em branco!”.
Os versos sintetizam a potência política da poesia falada, ao transformar a experiência negra em denúncia e afirmação identitária. A repetição da expressão “tão preta” reforça o caráter performático do slam e evidencia a centralidade da experiência negra na construção dessas narrativas.
Nesse contexto, o slam se consolida como um espaço de expressão das diásporas africanas, nas quais identidades são forjadas nas diferenças, nos deslocamentos e também nas lacunas deixadas pela história colonial.
Slam BR e a força da cultura negra e indígena
Desde sua criação, o Slam BR se consolidou como o principal campeonato nacional de poesia falada, reunindo artistas de diferentes regiões e fortalecendo uma cena marcada pela presença negra e periférica, pela crescente participação indígena e feminina e pela diversidade regional da produção cultural brasileira.
Com um podium considerado histórico pela organização do evento, a edição de 2025 do Slam BR, realizada entre os dias 26 de fevereiro e 1º de março de 2026, em Brasília, é um exemplo dessa diversidade.
A grande vencedora foi Yastricia Santos, mulher indígena da Terra dos Camarás e multiartista que transita entre o teatro, a performance, a poesia e a tradução em Libras. Em sua produção artística, mobiliza elementos de ancestralidade e espiritualidade indígena, dialogando com questões de identidade, memória e resistência.
Serena, poeta e rapper do estado do Mato Grosso do Sul foi a vice-campeã. Pertencente a um povo indígena do território sul-mato-grossense, os Mapogîgûatô, sua atuação artística dialoga com identidade indígena contemporânea, memória e ancestralidade, resistência cultural, experiências periféricas e urbanas.
Completa o pódio do Slam BR 2025, Hellbala, terceiro colocado na competição. Jovem negro e periférico, oriundo dos guetos da zona norte de Aracaju, o artista construiu sua trajetória na cultura hip-hop. Poeta desde os 13 anos e Mc de batalha desde os 16, Hellbala é campeão estadual de freestyle e bicampeão estadual de slam no Sergipe.

O pódio do Slam BR 2025 reflete um cenário em que a poesia falada se consolida como espaço de afirmação cultural e política. Entre trajetórias marcadas pela cultura negra, pela ancestralidade indígena e pelas experiências periféricas, os três artistas demonstram como o slam se tornou um território de valorização de identidades historicamente silenciadas, onde memória, resistência e pertencimento ganham voz no palco e diante do público.
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