Estudantes, professores(as) e cientistas independentes têm se organizado para criar o I Congresso de Pesquisadores Negros do Ceará (Copence). As articulações acontecem nas redes sociais e, inicialmente feitas pela geógrafa Dandara Albuquerque, tinham até o começo da noite desta sexta-feira (10/4) resultado na adesão de 390 pessoas de diversas áreas do conhecimento.
Ela conta que a ideia surgiu durante as tratativas para envio de comitiva ao IV Congresso de Pesquisadores(as) Negros(as) do Nordeste (Copene), ocorrido em 2023 em Maceió (AL). A princípio, o grupo disposto a criar o Copence tinha cerca de 30 integrantes. “Acabamos não conseguindo pensar em algo de imediato, mas o grupo permaneceu e foi aumentando. Termos gente de tantas áreas mostra a nossa diversidade e o potencial das pessoas negras em produzir conhecimento e fazer ciência”, avalia.

Qualquer pesquisador(a) negro(a) nascido(a) no Ceará ou que more no estado pode participar do movimento, cuja inspiração é o Congresso Baiano de Pesquisadores(as) Negros(as) (CBPN), já realizado dez vezes. A primeira edição do Copence ainda não tem data definida, mas Dandara acredita ser possível viabilizá-la já para 2027. “Devido às eleições no segundo semestre, seria muito difícil fazer este ano. Então, na próxima reunião do grupo, eu pretendo propor que seja em março do ano que vem, pela importância que esse mês tem para nós”, revela, referindo-se ao fato de o Ceará comemorar em 25 de março o dia no qual os(as) escravizados(as) conquistaram a liberdade em 1884, quatro anos antes do resto do país.
O segundo encontro do grupo está previsto para o dia 22 de abril. No primeiro, ocorrido em 6/4, Dandara e outras três pessoas foram escolhidas para integrar a comissão de formalização da Rede de Pesquisadores Negros do Ceará (Repence), que seria responsável pela realização do Copence. Uma delas é a historiadora Cícera Barbosa, que há seis meses faz parte do grupo.
Ela pondera que o formato do congresso ainda não foi definido, mas que a proposta é fazer “como as coisas pretas são feitas: de forma coletiva”. “É todo mundo já muito engajado nas suas lutas. Então, nossa ideia não é reproduzir uma estrutura acadêmica branca. A gente quer fazer outra coisa, primeiramente reverenciando nossos mestres. Porque pesquisa do ponto de vista racial não é só se enfiar em laboratório. É ouvir as pessoas. Ouvir os que vieram primeiro, mas também as crianças. No fim das contas, tá todo mundo pensando ciência nesse grupo”, explica.
É preciso ainda discutir de onde virão os recursos – financeiros, humanos e materiais – para a realização do congresso e definir entidades parceiras. A proposta é compor uma comissão com representantes de várias instâncias para encaminhar essas questões.
“Pensar nessa Rede e nesse Congresso de Pesquisadores com recorte racial de negritude no Ceará é honrar nossos ancestrais. É restaurar um grande espaço que ficou ocupado por outras pessoas que não somos nós. É estabelecer justiça e equidade. Sempre que o povo negro tá junto, os avanços são pra todo mundo”, reflete Cícera.
Coordenadora geral do Movimento Negro Unificado no Ceará, Lipe Silva também está à frente da organização dos trabalhos, que classifica como “estratégias de fortalecimento da negritude porque o que nós vivemos é uma disputa institucional”. Ela diz: “nós queremos firmar um campo articulado politicamente no Ceará para disputar esse lugar da formação na universidade, que historicamente foi ocupada por pessoas brancas e de elite”.
Por isso, o entendimento do grupo para o Copence é o de fortalecer debates, por exemplo, sobre os currículos dos cursos (que ainda não contemplam autores(as) negros(as) a contento) e uma maior presença de professores negros. “Queremos fortalecer um campo de colaboração coletiva pra fazer essa disputa, circular nossos trabalhos e fazer parcerias, porque somos muitos mas também, num contexto geral, ainda somos poucos e sabemos que todas essas questões são muito sérias”, completa Lipe.
Já o antropólogo Paulo Ferreira qualifica o Copence como “uma busca para ampliar as agendas coletivas de pesquisa e aglutinar todas as pessoas negras que tenham interesse em participar da vida acadêmica e política sem distinguir uma da outra”. Ele destaca a importância da atuação dos pequenos grupos de pesquisa já existentes em diversas instituições de ensino, como os Neabis, os Nuafros e os Naces.
“Também é importante ver a intensificação da presença da ABPN [Associação Brasileira de Pesquisadores Negros] como uma associação científica que nos ajuda a pensar sobre a necessidade de se apresentar como uma rede de pesquisadores negros no Ceará, além dos grupos de estudantes de graduação, os fóruns de negros e negras de vários cursos que já existem. Pontuei junto com Lipe na primeira reunião as ações realizadas pela Jornada de Ações Negras que aconteceram com a última geração antes da pandemia”, elenca o antropólogo.
Para Paulo Ferreira, tanto a criação da Repence quanto a realização do Copence irão “aprofundar a questão racial por um olhar das próprias pessoas negras”. Ele explica: “porque no Ceará nós temos uma construção histórica do olhar sobre o negro a partir de historiadores e pesquisadores brancos que produziram um espaço, um tempo e corpos sem cor”.

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Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.
