Cidinha da Silva chegou em Fortaleza (CE) momentos antes de começar o evento do qual participaria. Saiu do aeroporto e cruzou 11 quilômetros direto para o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, onde uma plateia ansiosa esperava por ela. Era noite, mas havia gente ali desde a tarde – para não correr o risco de perder o lugar.
Com uma mala gigante a tiracolo, Cidinha vendeu em minutos todos os livros que trouxe. Quase três horas depois de uma mesa de autógrafos e fotos com fãs, entre um jantar de conterrâneos e a volta a São Paulo na mesma noite, a mineira trocou dois dedos de prosa com um repórter tão ansioso quanto a plateia de momentos antes (aliás, fazia parte dela).
Perto da meia-noite, sentamos para conversar e Cidinha revelou detalhes dos bastidores da escrita do livro Não bato em cachorro grande, só do meu tamanho ou maior, no qual detalha 81 lições do que chama de Método Sueli Carneiro. A obra é um presente em homenagem aos 75 anos de quem a formou politicamente.
Neste bate-papo, ela fala como a obra surgiu, revela segredos dos rituais que segue para escrever e tece críticas ao “movimento” neopardo (ou seja: pessoas que se orgulham de ser mestiças, enaltecem o que chamam de “ancestralidade branca” e reivindicam que pessoas pardas não sejam mais legalmente consideradas negras (mas continuem contempladas em políticas afirmativas, como as cotas raciais)).
“Os neopardos são figuras que estão fazendo coisas muito ruins. São mais do que equivocadas. Tem uma coisa de mau caratismo mesmo”, avalia, afirmando não enxergar ponto positivo no debate proposto por esse grupo e não ter qualquer interesse de acompanhar as discussões por ele levantadas.
Confira.
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CEARÁ CRIOLO: Antes de entrar na tua produção, eu gostaria de fazer uma pergunta mais subjetiva. A Djaimilia Pereira de Almeida certa vez disse que não dá para separar o fato de ela ser uma mulher negra da escrita dela. A Bárbara Carine me disse que escreve para estruturar as ideias e dar um sentido ao que tem na cabeça. E a Cidinha da Silva, escreve por quê?
CIDINHA: Eu escrevo pra criar mundos. Pra compartilhar esses mundos com as pessoas. Escrevo pra comunicar as coisas que eu crio. A escrita pra mim é um exercício integral de criação, de inventividade. E por meio da criação e da inventividade a gente produz novos imaginários e oferece isso pras pessoas.
CEARÁ CRIOLO: Mas a escrita sempre foi isso pra ti?
CIDINHA: Não. Eu escrevo tem 20 anos. Eu falo agora do que eu fui amadurecendo. Esse é um entendimento dessa prática de escrever. O meu entendimento hoje é esse. É por isso que eu escrevo.
CEARÁ CRIOLO: O livro Não bato em cachorro grande, só do meu tamanho ou maior nasce da amizade de mais de 30 anos que você tem com a professora Sueli Carneiro e nele você propõe o que chama de Método Sueli Carneiro a partir de coisas que viveu com ela. Como você fez esse resgate? Como você chegou a essas lições?
CIDINHA: Primeiro, eu escrevi esses textos sobre Sueli, um em 2014 e outro em 2017, e ela leu e disse: “é, parece que eu sou isso mesmo”. E isso me incentivou. Em 2018, eu fui convidada a participar de um projeto literário e eu falei sobre a ideia de desenvolver o método. E a pessoa que me convidou disse pra eu fazer. Foi aí que eu comecei a escrever de verdade. Até então, eu não tinha nada. Ou melhor: eu tinha a ideia. Sabia que o método existia. À medida que eu lia a biografia do Tim Mais, eu pensava que a Sueli era uma figura muito particular. E fui escrevendo as crônicas.
Eu escrevi para esse projeto literário o que naquela época eu chamei de lições. Sem tirar a caneta do papel, eu escrevi 25 lições. Quando eu escrevi as 25, eu pensei: “opa! tem um livro aqui”. E comecei a acalentar a ideia do livro.

CEARÁ CRIOLO: E essas 25 foram todas puxadas da memória?
CIDINHA: Sim. E todo o resto foi assim também. Eu abri um caderno, porque é assim que eu faço meus projetos, e fui escrevendo coisas. À medida que eu lembrava, eu ia escrevendo. Esse não é um projeto que eu tenha feito consultas aos meus cadernos, que são muitos. Eu digo que é um livro da minha cabeça e do meu coração. Se eu tivesse consultado meus cadernos, eles seriam outra coisa. Pode ser que num desdobramento eu vá pros meus cadernos. Mas esse foi só cabeça e coração mesmo.
Aí, Sueli foi entrevistada no Mano a Mano. Foi aquele estardalhaço. Muita gente falando: “quem é essa mulher que enquadrou o Mano Brown?”. E eu ficava: “como assim quem é esse mulher?”. E falavam que ela era muito brava. Eu fui assistir o programa e vi uma versão paz e amor da Sueli. Quem conhece a Sueli, sabe que ela brava é outra coisa. Ali, ela estava muito mansa. Aí, eu pensei: “eu preciso escrever; já passou da hora”. Porque eu tenho um conhecimento de Sueli que é único. Ninguém tem. Só eu.
Eu tive a graça de trabalhar com Sueli durante 13 anos da minha vida. Eu fui formada politicamente por ela. Muita gente passou por ela. Mas ninguém ficou tanto tempo como eu fiquei trabalhando diariamente com ela. Eu presidi o Geledés eu tinha 34 anos. Eu fui a presidente mais jovem de Geledés. Dos 15 primeiros anos de Geledés, eu fiquei lá durante 13 anos. Ajudei a construir a organização no momento de consolidação dela. Então, eu falei pra mim mesma que não dava mais pra esperar e que eu tinha que escrever o livro.
CEARÁ CRIOLO: Você diz que não dava mais pra esperar porque você queria homenagear a professora Sueli? Ou não era nesse sentido?
CIDINHA: Não, não. Era no sentido de dizer as coisas que eu digo. Eu sou uma pessoa que conhece profundamente a Sueli Carneiro. E escrevi sobre isso.
CEARÁ CRIOLO: Eu falo de homenagem porque a professora já tem quase 80 anos…
CIDINHA: É, tem 75. Vai fazer 76.
CEARÁ CRIOLO: Já é uma senhora…
CIDINHA: Ah, sim! Aí, sim. Eu queria dar um presente pra ela, como eu dei quando ela fez 70 anos, que eu comemorei publicamente o aniversário dela e dessa minha comemoração nasceu o festival Sueli Carneiro. Então, eu queria dar um presente aos 75. Aí, eu escrevi esse livro. Eu considero escrever quando eu vou pro computador. E isso aconteceu em 39 dias, entre janeiro e fevereiro do ano passado.
CEARÁ CRIOLO: E ela sabia?
CIDINHA: Ela sabia que eu tava escrevendo, mas eu nunca mostrei nada pra ela.
CEARÁ CRIOLO: E você já tinha na cabeça que o formato seria esse? Pergunto porque você escreve em gêneros muito diferentes: vai do romance à poesia, do estudo crítico a um guia como esse…
CIDINHA: Eu decidi que ia fazer as lições. Aí, eu fui entendendo que tinham movimentos, que são períodos diferentes. E pra organizar, pra mim e pro leitor, eu fui definindo o caminho narrativo do livro. Fui entendendo que tinha coisas que eu aprendi porque a Sueli me disse diretamente, outras que aprendi pelo exemplo e outras que eu não sabia direito o que era. Que, na maturidade, eu entendi que tinha aprendido com ela, e esses eu chamo de aprendizados do tempo espiralar.
CEARÁ CRIOLO: E é sempre assim: você vai dando o formato conforme a escrita surge? Ou você já senta diante do computador pensando que vai escrever, sei lá, um…romance?
CIDINHA: Eu intento. Eu quero que seja. O Exu em Nova Iorque, por exemplo, é um livro de contos. Eu decidi que eu ia escrever um livro de contos. Mas no processo de feitura vários textos eram excelentes crônicas, que entraram em um outro livro, chamado O homem azul do deserto, porque não eram contos.
Então, eu defino. Eu desenho. Eu faço uns croquis muito feios, que só eu entendo. E a medida que a gente vai fazendo, muitas vezes, principalmente quando tem personagens, as personagens subvertem tudo aquilo que você pensou.
Por exemplo: eu tenho um livro pra crianças que se chama Kuami. Esse livro se chamava Janaína: a sereia afropunk, porque era uma sereia de dreads e eu queria contar a história dela. Só que essa sereia encontra o Kuami, que é um elefantinho e eles se tornam amigos. E o Quami é espaçoso, é muito amoroso e vai tomando espaço. E aí o livro, que passou a se chamar Janaína e Quami, no final passou a ser só Quami. Porque ele é o protagonista da história. E a Janaína, muito tranquila, se retraiu e deixou o palco pra ele. Ficou ali, junto, orbitando na história dele. Mas inicialmente a história que eu queria contar era a da Janaína.

CEARÁ CRIOLO: Cidinha, pra quem nunca ouviu falar de você e pega um livro teu que faz referência explícita a Exu, que é um orixá em torno do qual foi criado um imaginário muito perverso, com as pessoas associando ele ao demônio. Você faz uma referência como essa já no título do livro na intenção de incomodar mesmo?
CIDINHA: Não. Não tenho intenção nenhuma de incomodar as pessoas. Eu tenho a intenção de compartilhar os mundos que eu crio. Exu está muito presente no que eu faço. Exu é o senhor da minha palavra. É ele que adoça com mel a lâmina na minha língua. Eu tenho uma relação muito estreita com ele. Uma compreensão grande do que ele significa nesse movimento de trânsitos que ele faz entre mundos visível e invisível, entre as pessoas e a ancestralidade. E é o senhor da palavra. É o regente da comunicação. Então, ele rege a minha escrita. Rege a minha língua mais do que a minha escrita. E eu quero compartilhar isso. Não quero desestabilizar ninguém. O movimento é muito mais positivo. Eu quero destacar coisas a partir do que Exu constrói no mundo. Como ele modela o mundo. Como ele modela o mundo pelo movimento. Ele é um dínamo.
CEARÁ CRIOLO: Cidinha, como é que bate em você a ascensão desse “movimento” que prega o orgulho mestiço sendo você alguém formada por uma pessoa (Sueli Carneiro) que há décadas combate veementemente essa ideia? Que análise você faz dessa moçada que tem certeza de que está inaugurando uma grande discussão quando ela existe há pelo menos 100 anos, já foi dissecada em diversos estudos e por diversos intelectuais e superada todas as vezes?
CIDINHA: Essas pessoas são fruto desse tempo. Esse tempo é isso: as pessoas acham que a roda começa a partir do umbigo delas. As pessoas jovens, principalmente. Os neopardos são figuras que estão fazendo coisas muito ruins. São mais do que equivocadas. Tem uma coisa de mau caratismo mesmo. Mas tem outras figuras que não têm essa intenção ruim e fazem o mesmo tipo de coisa. Porque é fruto desse tempo: elas acham que estão inventando a roda e que o mundo começa a partir do umbigo delas.
Esse mundo, que é fruto do neoliberalismo, dessa coisa muito egocentrada. O processo histórico vem sendo eliminado. As pessoas trocam o processo histórico por opinião. E esse movimento pardista é o exemplo bem acabado disso. Não é isolado. É algo que é fruto desse tempo.
CEARÁ CRIOLO: Mas tem algo desse debate que você aproveita?
CIDINHA: Não, nada. Pra mim, nada.
CEARÁ CRIOLO: Pergunto porque há um setor desse “movimento” que tenta emplacar a idea de que no Norte há pardos indígenas e o atual sistema de classificação racial não dá conta disso ao considerar todos os pardos negros…
CIDINHA: Eu venho de um outro tempo. Do processo histórico que eu vivi, quem é negro? Negro é quem se identifica como negro e quem é tratato como tal. Essa é a definição que o movimento negro fez lá no final dos anos 1970.
A Sueli diz uma coisa muito interessante. Ela fala: “eu quero saber o que é que vocês vão fazer com os pardos nos gavetões do IML”. Porque quem mata sabe quem é negro. A gente é que se confunde. É aquilo que o Tim Maia dizia: “deu seis horas é noite. Mesmo o sol não tendo ido totalmente embora, deu seis horas é noite”. Mas a gente ainda fica…
Quem detém o poder econômico e das decisões, sabe exatamente quem é negro. Sabe que não nos quer na universidade. Que não nos quer em espaços de transformação. Em espaços que disputem poder. E a gente fica se perdendo em perfumaria.
CEARÁ CRIOLO: Mas te assusta, por exemplo, a possibilidade de esse movimento pardo ter algum desdobramento prático do tipo mudar o sistema de classificação racial?
CIDINHA: Eles não têm força pra isso. O sistema de classificação racial do Brasil é uma das coisas mais bem delineadas que tem. Pretos e pardos são considerados negros desde os anos 1980 porque não há diferenças demográficas significativas entre os dois grupos. É por isso que a gente pode somar pretos e pardos. Lá, naquela época, a gente queria juntar as duas categorias e o IBGE disse que não podia somar porque isso impossibilitaria a comparação com estudos anteriores. A gente perderia a série histórica. Mas o IBGE disse que a gente poderia somar pra efeito de política pública, porque os indicadores eram praticamente os mesmos.
A gente dá muita bola pra essa moçada porque as redes sociais amplificam tudo. Então, uma coisa que é uma fumacinha vira um fogaréu na rede social. Porque o mecanismo da rede social é o sangramento. Você abre o bicho, expõe as vísceras, vem os outros bichos todos que comem e lambuzam a cara de sangue, e as pessoas querem ver aquilo. Então, as redes sociais amplificam tudo. E essa moçada é isso.
Eu confesso que nem sem quem são. De verdade, eu não acompanho. Tenho coisas bem mais importantes pra fazer.
CEARÁ CRIOLO: Muitas vezes, as falas dos representantes desse “movimento” tomam como base declarações de figuras como a professora Sueli, o professor Kabengele Munanga…
CIDINHA: A minha questão é: quem é essa gente na fila do pão? Quem é essa gente? As pessoas estão se lenhando de estudar, de produzir coisas… Aí vem essa gente fazendo fumaça e a gente fica discutindo a fumaça que eles fazem. Eu não perco meu tempo.
O que a Bárbara [Carine] fez? Ela sentou, foi estudar, produziu uma reflexão, escreveu e sistematizou coisas que vão ajudar todo mundo a discutir. Isso é o trabalho sério. Mas esse povo na energia da gente? Eu acho que a gente perde tempo, porque com tanta coisa que a gente tem pra estudar, coisas novas…
Eu não sei quem é essa gente. Nem tenho interesse de saber. Não posso.

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Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.
