Esta é a eleição do cansaço. Após um mês e meio de campanha, ninguém aguenta mais curtir, comentar, compartilhar ou enviar pra quem quer que seja qualquer coisa sobre candidato A ou B. Estamos todos exaustos. E é assim porque nunca tivemos um eleitorado tão dividido – embora o país esteja partido ao meio desde 2018.
Jamais vivemos sobressaltados por tanto tempo. Nos últimos 45 dias, a militância não teve dia, hora ou lugar. Pelo celular ou no tête-à-tête, na academia ou na mesa do bar, dentro de casa ou no aplicativo de paquera, tudo foi político. Tudo é politico. E esta eleição do cansaço nos provou isso da forma mais dolorosa possível, sobretudo neste segundo turno: exigindo da gente dedicação 24 horas. Toda hora, em todo lugar, com toda pessoa possível: converse, vire voto, convença a ir votar.
Tenhamos estado no Exército do Lula ou na Tropa do Bolsonaro, não importa. Todos fizemos isso em algum momento e em alguma medida. Pra dentro de casa ou pra fora. Entre amigos ou com estranhos. De forma alienada ou consciente. Mais obrigatório do que o voto, convenhamos, foi o movimento feito de ambos os lados para definir quem o merecia – se é que numa eleição do cansaço como esta é possível falar em mérito.
Muitos foram os ataques, as mentiras (algumas contadas ao vivo, na cara dura) e as promessas. Muitas também foram as fake news, esse fenômeno do jornalismo que chegou a patamares inimagináveis com o advento das redes sociais e que talvez seja tão velho quanto a relação do capitalismo com o noticiário. E é aí onde entra o papel central exercido pelas mídias independentes nesta eleição do cansaço.
Enquanto as grandes redações omitiram uma série de notícias contra Flávio e deram ampla visibilidade a factoides contra Lula, foram as iniciativas de jornalismo independente que pautaram na Internet a honestidade em uma disputa marcada pela cretinice. Partiram de diversos perfis de redações negras, feministas, LGBTs, progressistas etc as diversas denúncias sobre os escândalos envolvendo o Bolsonaro-filho.
Surrupiar metade do salário dos funcionários, comprar à vista uma mansão de R$ 10 milhões, participar de suruba com prostitutas pagas com aposentadorias públicas, pedir R$ 134 milhões a um banqueiro para (ao que tudo indica) lavar dinheiro, advogar em favor do assassino de uma criança de cinco anos, usar o cargo de senador para favorecer este assassino…tudo isso só veio à tona porque o jornalismo independente decidiu peitar o candidato que promete combater a corrupção.
Foi a imprensa independente também que nesta eleição do cansaço tensionou nas redes sociais para Flávio abrir os sigilos bancário e telefônico (coisa que, por sinal, não fez). Assim, fez muita gente se questionar como uma pessoa que se diz honesta não prova que é honesta? O que ela tem a esconder quando não aceita quebrar os sigilos?
Não fossem os perfis e sites mantidos por favelados, gays, negros e diversas outras minorias, esta eleição do cansaço teria sido ainda mais cansativa e mentirosa. Porque as grandes redações seguiram à risca a cartilha do capitalismo, se aliando a quem ofereceu melhores condições para elas continuarem exercendo o poder que têm no dia a dia, quando não há eleição.
Por isso, Flávio almoçou com executivos da Globo. DA GLOBO, não do Ceará Criolo. DA GLOBO, não da Alma Preta. DA GLOBO, não do Mundo Negro. Nesta eleição do cansaço, nós não tivemos notícia de mídias negras, LGBTs, feministas etc alcovitando um candidato que tem um rosário de declarações contra tudo o que elas pregam o tempo todo. Ao contrário. Foram elas quem deram visibilidade aos conchavos do Bolsonaro com os empresários, com o governo dos Estados Unidos, com os donos de BETs (que, aliás, Flávio também é dono de uma) e com tantos outros grupos que atuam contra a classe trabalhadora.
Ao fim desta eleição, lembre, portanto, de agradecer às mídias independentes deste país por elas terem cumprido a função social da qual o jornalismo jamais deveria abrir mão. Porque quando uma redação silencia, omite, mente e dissemina fake news, ela deixa de fazer jornalismo. No caso do cenário político brasileiro atual, ela produz e ajuda a perpetuar algo que, inclusive, irá contra ela a qualquer momento: o fascismo. E foi a imprensa corajosa, muitas vezes sem estrutura e sem padrinho político importante, que peitou uma estrutura avassaladora que quer vencer enganando. Mas não irá.
Dito isso, dia 25 é 13.
Exausto? Sim. Antidemocrático? Jamais.

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Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.
