Uma multidão lotou nesta segunda-feira (19/10) a avenida Gomes Brasil, uma das principais vias do bairro Parangaba, em Fortaleza, para receber a deputada federal Érika Hilton (PSol/SP). Formados sobretudo por jovens negros de periferia, os manifestantes declararam apoio à reeleição do presidente Lula e ovacionaram a parlamentar, que no último dia 4/10 foi reconduzida ao cargo com quase 1,6 milhão de votos, a maior votação da história do Brasil para uma mulher à Câmara Federal.
Essa foi a primeira vez de Érika na capital cearense. Ela veio a convite do deputado estadual eleito Léo Suricate (PSol/CE) e, por provocação do Ceará Criolo durante entrevista coletiva antes do evento, comentou o perigo que uma vitória da extrema-direita representa para as populações negra e LGBTQIAPN+, embora muitos eleitores desses grupos ainda apoiem o candidato do PL – que sequer cita o combate ao racismo e à LGBTQIAPN+fobia no plano de governo apresentado à justiça eleitoral.
“É muito grave essa eleição pras minorias! [Flávio vencer] Representa um retrocesso absurdo! Mas não tem como explicar que uma minoria de pessoas que serão prejudicadas pela política estejam achando que esse é um bom projeto pro Brasil. A psicanálise vai precisar explicar que movimento perturbador é esse, porque é aquele bordão: é a barata abraçando o inseticida; é a árvore abraçando a motosserra. O que me anima é saber que é uma minoria que ainda acha que pode compactuar com esse tipo de discurso. Porque a grande massa da comunidade negra e da população LGBTQIA+ vai votar no Lula. E vai votar por saber que os pouquíssimos direitos que nós conquistamos estarão ameaçados com o Flávio”, disse ela.
Se eleito, Flávio Bolsonaro poderá indicar quatro novos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) – o que significaria muita força no Judiciário. Além disso, com o PL, partido dele, tendo maioria no Senado e uma grande bancada na Câmara de Deputados, a extrema-direita poderá tumultuar o país ao forçar o impeachment de ministros que se colocarem contra a gestão bolsonarista.
“A plataforma da eleição da extrema-direita este ano foi o impeachment dos ministros do STF. Eles terao força pra ‘impeachmar’ sobre sabe-se lá qual pretexto. E aqui não se trata de acobertar ministro do STF. Aqueles que cometeram crime devem ser investigados, julgados e condenados. Agora, não se pode usar impeachment de ministro pra se vingar das condenações aplicadas aos golpistas do 8 de janeiro, como o próprio pai do Flávio”, complementou.

Érika Hilton também alertou para o perigo de a extrema-direita derrubar o fim da escala 6×1, recentemente aprovado no Congresso, e implementar o modelo defendido por Flávio, de o pagamento ser por hora trabalhada com o funcionário negociando direto com o patrão. Coordenadores de campanha do bolsonarista já admitiram que farão isso caso ele ganhe a eleição. “Estamos lutando para que o trabalhador possa ter dignidade e a gente possa ter um futuro mais próspero pra classe trabalhadora brasileira. Nós queremos um Brasil que continue crescendo”, declarou.
Segundo a deputada, a estratégia para derrotar Flávio é fortalecer a presença digital dos apoiadores de Lula, ampliar as mobilizações nas ruas nesta reta final, ganhar os votos dos indecisos e levar às urnas o máximo de eleitores que não votou no primeiro turno. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 33 milhões de pessoas não foram às urnas (mas podem ir no segundo turno, sem nenhum problema).
“Nós temos que acessar este eleitor. Eu acho que tinha um sentimento de que a gente ia levar já no primeiro turno, porque a gente tá falando de uma biografia e de uma ficha corrida. De um cara que tem relação com a milícia e de um presidente que é o presidente do Prouni, da Farmácia Popular, do ‘Minha Casa, Minha Vida’… Então, as pessoas, talvez, estavam um pouco acomodadas achando que já tava ganho. Tivemos um choque quando as urnas foram abertas e, agora, estamos fazendo todas as articulações necessárias”.
Érika Hilton também articula no Congresso a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a interferência das big techs nas eleições. Há centenas de relatos que a Meta, empresa dona do Instagram, tem derrubado vertiginosamente o alcance das publicações de Lula e dos apoiadores dele, enquanto aumenta a entrega de conteúdos bolsonaristas. A suspeita é de que isso faça parte de um plano do governo dos Estados Unidos, do qual Flávio é aliado, para influenciar na vitória da extrema-direita no Brasil.
“A própria Meta já assumiu que o algoritmo não tem sido isento. É preciso investigar! Não é possível que um candidato e outro tenha tratamento desigual nas plataformas. A CPI, pra ser protocolada, precisa de 171 assinaturas. Atingindo esse número, é esperar a Presidência da Câmara pra saber se instala ou não instala. A gente sabe que o lobby das big techs é muito poderoso e a gente vai ter que ter uma articulação muito grande. Mas o lobby do setor patronal também é muito forte e a gente acabou com a escala 6×1”, pontuou.

A deputada criticou ainda a decisão do TSE de mudar mais de 4.300 sessões eleitorais para o segundo turno sem sequer comunicar o eleitor da forma adequada. A maioria delas fica no Nordeste, onde Lula teve maioria expressiva. “A única publicação que o TSE fez foi no próprio site. Quem acessa o site do TSE? Estamos pedindo que a justiça eleitoral use a Anatel, o sistema de disparo de SMS ou outro pra avisar as pessoas, porque são mais de um milhão de eleitores que podem ser prejudicados. Isso é muito grave. Sem informar as pessoas, é inadmissível.”
Mesmo diante de todas essas manobras, Érika Hilton disse acreditar na vitória de Lula e afirmou que “vamos fazer um ato histórico do vira voto”. Sobre o papel do Nordeste, disse: “o Nordeste é progressista e cheia de gente de luta. Infelizmente, um ou outro faz uma péssima representação pro nosso país. Fico muito feliz de ver que o Ceará não deu o seu voto pra uma maioria fascista e odiosa. Aquele deputado [referindo-se a André Fernandes] não representa esse estado”.
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Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.
