Em duas das três semanas que separaram o primeiro do segundo turno das eleições deste ano, o deputado estadual eleito Leo Suricate botou o Baile do 13 na rua todos os dias. Foram 21 edições em 16 bairros diferentes de Fortaleza e região metropolitana. Periferias nas quais o poder público demora a chegar – ou só chega pela mão da repressão policial – e nas quais o bolsonarismo avançava a passos largos com o Bloco do 22.
Cria da Sapiranga, do Bom Jardim e do Jangurussu, Leo Suricate mobilizou multidões em apoio a Lula. Subia num trio pequenininho, com som improvisado, e dali, no gogó, puxava um mar de gentes (assim, no plural mesmo). Eram, sobretudo, jovens, LGBTs e pessoas negras – e, muitas vezes, tudo isso junto num só corpo. Todos unidos por serem de periferias. Todos em defesa da democracia e contra o bolsonarismo.
Na primeira plenária, logo após o primeiro turno, Leo Suricate juntou 20 mil apoiadores na Gentilândia. No maior dos atos, realizado na Parangaba, reuniu cerca de 100 mil pessoas numa demonstração de força que contou com a presença da deputada federal Érika Hilton. Assim, ele foi do Conjunto Ceará à Messejana. Do Barroso ao Pirambu. Do Planalto Ayrton Senna ao José Walter. Cruzou Fortaleza em todas as direções e tornou-se uma das principais lideranças desta eleição, que deu a Lula só no Ceará quase 500 mil votos a mais.
Em uma dessas agendas, Leo Suricate conversou com o Ceará Criolo.
Confira o bate-papo na íntegra.

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CEARÁ CRIOLO: Quem olha pras mobilizações que aconteceram em Fortaleza, sobretudo no segundo turno, é a tua cara que a gente vê. De onde partiu a ideia do Baile do 13? foi alguém que deu o toque de fazer porque do outro lado já tinha o Bloco do 22, do André [Fernandes]? Ou foi tu que chegou na galera e se colocou pra dar tua contribuição?
LEO SURICATE: Essa coisa partiu do Dudu, meu irmão, que é o cara que cuida da minha comunicação. Ele ficava: “a gente tem que fazer o baile, a gente tem que fazer o baile, a gente tem que fazer o baile”. Ele queria que a gente fizesse no primeiro turno já, em contraponto ao Bloco do 22 mesmo, mas a gente não tinha perna pra fazer. Então, no primeiro turno, foi uma coisa de Internet porque a gente não tinha base aquecida pra fazer na rua. Diferente do segundo turno, que a gente tem o Lula. O Lula, meu amigo, é o maior cabo eleitoral do Brasil! Ele mobiliza as pessoas.
A gente conversou com o pessoal do Comitê de Cultura e todo mundo já tava meio que com esse sentimento [de que era preciso haver um movimento pra conter o Baile do 22]. Aí, a gente juntou as ideias na plenária organizativa que fizemos na Gentilândia. A proposta era fazer ações nas periferias e andar por onde a gente pudesse. A gente andou em 16 periferias, se não me engano. No total, fomos a 21 lugares.
CEARÁ CRIOLO: Bom, o segundo turno teve três semanas. Você puxou o Baile do 13, então, praticamente todo dia…
LEO SURICATE: É, teve dia que a gente fez em três lugares.
CEARÁ CRIOLO: Meu filho, você dormiu? (risos)
LEO SURICATE: (risos) Dormi, dormi. Pouco. Mas dormi. E bebi água bem!
CEARÁ CRIOLO: Eu pergunto de onde partiu a ideia do Baile do 13 porque no Twitter tem quem diga que a ideia foi do Evandro [Leitão, prefeito de Fortaleza]; que ele te chamou pra conversar e propôs que você fizesse isso…
LEO SURICATE: O prefeito me chamou pra conversar, mas a gente já tinha feito uns quatro. Tanto que ele foi pro do Conjunto Ceará. Então, quando ele entra no circuito, o baile já tava acontecendo. E todo mundo tinha um nome: era o viradão do 13, era num sei o quê… A gente trabalhou a marca Baile do 13 como um contraponto ao Bloco do 22, literalmente. Porque na favela a gente faz baile. Negócio de bloco é de carnaval…Mas baile é de favela. O nome já diz. E é, inclusive, quem sofre repressão policial: são os bailes da periferia.


CEARÁ CRIOLO: E como é que vocês definiam os territórios? Era a galera que chamava ou vocês tinham um mapeamento?
LEO SURICATE: Alguns grupos chamavam a gente. Mas a gente tinha o mapa de abstenção e o mapa onde o presidente Lula poderia crescer. A gente associou a mobilização social que a gente conseguiu organizar através da plenária da Gentilândia. Juntamos de 15 a 20 mil pessoas. A gente conseguiu organizar 12 grupos, um pra cada regional de Fortaleza, um pra região metropolitana e um pro interior. Pra gente ter relação, trocar conteúdo, produzir conteúdo digital e fazer a divulgação desses atos, que também foram espontâneos.
Além da soma de outras estruturas que chegaram junto, de deputados estaduais, de vereadores, de parceiros… E a coisa foi virando uma marca. A marca que venceu essa corrida foi a do Baile do 13.
CEARÁ CRIOLO: Vocês têm ideia de quantas pessoas conseguiram mobilizar em todos os atos?
LEO SURICATE: Eu queria ter essa dimensão. Mas a gente pediu essa informação aos órgãos e não recebeu. Por exemplo: no da Parangaba [com a Érika Hilton], a gente não sabia se tinha 50 mil, 60 mil, 80 mil ou 100 mil pessoas. No Conjunto Ceará, a gente parou no ponto final e ainda tinha gente dobrando a rua da avenida principal. Era muito doido, porque era uma caminhada, depois uma motociata e depois uma carreata.
CEARÁ CRIOLO: Mas vocês projetavam o público? Porque o da Parangaba tua equipe estima que foram 100 mil pessoas. E entre o anúncio do ato e o ato foram apenas três dias. Vocês tinham noção de que numa segunda-feira ia dar tanta gente?
LEO SURICATE: Nós achávamos que íamos fechar uma rua. Tanto é que a gente pediu pro pessoal da Prefeitura pra fechar um lado da rua. A estimativa era de cinco a dez mil pessoas. Mas a coisa tomou uma proporção que a gente não tem controle…
CEARÁ CRIOLO: E tu atribui isso a quê?
LEO SURICATE: Internet, junto com o sentimento de apropriação do segundo turno e a inquietação de uma juventude que quer fazer política e tá insatisfeita. Tem uma mistura de insatisfação com a reação ao primeiro turno e o tempero da rede e da juventude que se organiza no digital.


CEARÁ CRIOLO: Diante do sucesso do Baile do 13, como você acha que sai desta eleição? Com o dobro de votos em relação à eleição passada e um mandato, claro (risos)… Mas considerando de onde você vem e a falta de recursos pra enfrentar essa eleição, você tem noção do tamanho que você sai desta eleição?
LEO SURICATE: Não, eu não pensei e eu não tenho noção. Sei que saí maior do que o primeiro turno. Saí maior do que ter sido eleito deputado estadual. Talvez, se não tivesse sido eleito deputado estadual e tivesse tido o mesmo impacto no segundo turno, ainda sairia grande. Mas eu saio com um mandato, com voz expandida, as pessoas sabendo quem eu sou e o que eu quero fazer. Porque eu não fiz uma campanha só pra dizer que eu sou legal. Eu tenho proposta. Quero entrar na Assembleia com proposta. Quero pensar política grande.
CEARÁ CRIOLO: E é uma proposta parecida com o Baile, de envolver a juventude e a periferia…
LEO SURICATE: Sim. É trazer a periferia pra dentro da política. Pro centro do debate. É falar da operação Robin Hood, que é criar um fundo de reparação pras periferias: pegar o dinheiro que é captado do crime organizado e botar pra voltar como política pública justamente nos territórios que mais sofrem com a violência. E não é pra substituir o que o Estado já tem que fazer não. É pra ser a mais. É pro que falta. Falta escola nesse lugar? Vamo construir escola.
Eu sei que vai ser um debate demorado e difícil. Mas a gente vai passar quatro anos batendo nisso. Porque foi o que convenceu as pessoas. As pessoas votaram em mim não porque eu sou bonito ou porque eu tive a maior campanha. Elas foram convencidas.
CEARÁ CRIOLO: Acho que também porque você tem cara de povo, né?
LEO SURICATE: Cara, jeito, fala, tudo!
CEARÁ CRIOLO: Você cogita assumir alguma secretaria com a reforma administrativa que o Elmano [de Freitas, governador] deve fazer pro segundo mandato? A Secretaria da Juventude, talvez? Já rolou alguma sondagem?
LEO SURICATE: Não rolou. O governador não me ligou. Não teve nenhuma procura nesse sentido.
CEARÁ CRIOLO: Mas te brilha os olhos?
LEO SURICATE: Me brilha os olhos entrar no parlamento pra falar pelo povo. Pelo povo e com o povo, porque eu quero que o povo vá lá pra dentro. Eu quero, inclusive, que a gente lote aquele aquário toda vida que for preciso. Porque eu acho que carece. Não está nos meus planos assumir uma secretaria hoje, ainda mais a da Juventude, que tem pouco recurso. Vale mais a pena ter um mandato. Pra fazer política? Pra correr atrás? Pra debater juventude no centro do poder? Um deputado hoje tem mais poder do que um secretário.
CEARÁ CRIOLO: A ideia, então, é fazer uma oposição programática ao Elmano? Porque PSol e PT estiveram juntos agora na eleição…
LEO SURICATE: É inegável que eu vou fazer parte da base. De uma certa forma, eu posso ter uma posição crítica. Bicho, eu vou defender a oposição do André [Fernandes]? É porque assim: quando eu olho pro debate público, a gente saiu de uma eleição muito polarizada e que deixou a polarização ainda maior. O fato de o Flávio Bolsonaro fugir, porque ele sabia que ia ser preso, facilita a nossa vida.
É lógico que eu tenho crítica ao governo Elmano. Eu fui base quando eu assumi cadeira na Assembleia. Eu votei várias coisas do governo, mas também critiquei várias coisas do governo. Essa independência política é o que eu quero manter, compondo a base ou não. Eu quero ter independência política pra poder defender as pessoas que votaram em mim, porque eu só tenho cadeira na Assembleia porque eu tive 39.050 votos. E essas pessoas esperam de mim o que eu fiz na campanha. O que eu falei, o que eu preguei que ia fazer, o que eu propus, o que eu coloquei de proposta.
Minha briga vai ser essa: defender o que eu defendi na campanha e as pessoas foram convencidas por isso. Porque não adianta eu assumir um cargo falando algo e, na prática, fazer outra coisa.
Se eu pudesse arrancar a porta do meu gabinete e as pessoas terem acesso 24 horas, eu faria. A minha vontade é que as pessoas entrem na política não só na eleição. Tem que ter esse acompanhamento próximo sempre.

CEARÁ CRIOLO: Você pensa em pegar alguma presidência de comissão na assembleia?
LEO SURICATE: Tá cedo. Ainda tem, ó: o debate sobre a presidência da Assembleia. Ainda tem muita coisa pra acontecer! Mas a gente tá à disposição pra discutir coisas relacionadas à juventude, direitos humanos…
CEARÁ CRIOLO: Pergunto isso porque a saída do Renato vai deixar um vazio grande na pauta dos direitos humanos…
LEO SURICATE: Vai ter gente pra brigar por isso aí. Eu acho que a Jade vai querer, porque era a pasta que ela tava no governo. Eu tô avaliando a partir do que eu vejo das cadeiras. Das pessoas que estão ali. Não sei quais vão ser os interesses individuais e as conversas. Eu vou me colocar à disposição, principalmente, pro debate da juventude e de direitos humanos, porque tem a ver com o debate da juventude e da periferia. Mas a gente também tem que ter noção. Eu não vou chegar querendo pegar a CCJ. É preciso saber dos pesos e dos contrapontos porque é um debate que aprofunda com a disputa pela presidência da Casa.
CEARÁ CRIOLO: Existe alguma possibilidade de você pedir licença pra Zuleide [Queiroz, candidata do PSol que teve 25 mil votos] assumir mandato? Se sim, quando: já no primeiro ano? Segundo ano?
LEO SURICATE: No primeiro ano, a gente tem que se estabelecer. Porque quando eu assumi cadeira foi só por três meses. Nem isso, na verdade. Foram 86 dias. Então, agora, eu vou entender como as coisas funcionam de fato, visitar Brasília pra captar recurso… A gente vai ter aí pelo menos um ano ou um ano e seis meses pra gente se assentar direito. E tem também a eleição de 2028. Ainda não conversei com ela sobre isso, mas se ela for tentar alguma coisa lá no Crato, onde ela é muito bem votada…
Se a gente puder ajudar ela a concorrer numa condição melhor, podemos deixar pra ela assumir perto do período da eleição pra poder ganhar mais projeção e estrutura também, porque fora o salário ela vai ter verba de gabinete pra circular o estado e fazer política. Você acessa as secretarias. É uma coisa que não é pra campanha, mas acaba influenciando. Se eu não tivesse tido mandato, mesmo que só por 86 dias, as pessoas não teriam me olhado do jeito que me olharam. O trabalho do mandato consolidou minha candidatura. Mas isso eu vou conversar com ela ainda.
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Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.
