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Home»Entrevistas»Taís Araújo: “eu quero falar além da dor e da sobrevivência”
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Taís Araújo recebeu o Ceará Criolo durante um dos ensaios da peça "Mudando de pele" [FOTO: Helosa Araújo]
Entrevistas

Taís Araújo: “eu quero falar além da dor e da sobrevivência”

Bruno de CastroBy Bruno de Castro30 de Outubro, 2026Updated:30 de Outubro, 2026Sem comentários9 Mins Read
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Taís Araújo chegou ao Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, no meio da tarde desta quinta-feira (29/10) minutos antes do ensaio final para a apresentação que aconteceria dali a pouco. A equipe ainda montava o cenário, ajustava o som, fazia testes de iluminação e organizava a coxia. Os assentos estavam todos livres, vermelhíssimos e guardados por um céu de obras de arte.

Dentro de um kafta caramelo, com o cabelo curtíssimo e passo rápido, ela rapidamente alinhou alguns detalhes com a equipe técnica e já se dispôs a conversar com o Ceará Criolo. Desceu do palco e cumprimentou um a um. Aperto de mãos e abraço. Mas só depois de abrir um sorriso. Nada afeita à imagem de celebridade inalcançável.

Taís Araújo recebe camisa do MNU
Taís Araújo recebe da repórter fotográfica Helosa Araújo uma camisa do Movimento Negro Unificado no Ceará

Antes do bate-papo, Taís sorriu um sorriso de satisfação ao receber da repórter fotográfica Helosa Araújo, minha parceira nesta pauta e em outras demandas da vida, uma camiseta do Movimento Negro Unificado no Ceará. Fez o mesmo ao saber que nós dois somos filiados ao MNU e que estávamos ali produzindo conteúdo para o primeiro portal negro do Ceará.

E a entrevista aconteceu ali mesmo: nas poltronas de uma das casas de cultura mais bonitas e tradicionais do Brasil, onde Taís apresenta nesta sexta-feira (30/10) a última segunda e sessão peça Mudando de Pele em Fortaleza após uma primeira sessão lotada de admiradores que a ovacionaram. Ainda há ingressos à venda. PARA COMPRAR, CLIQUE AQUI.

A gente sentou e Taís Araújo parecia uma velha conhecida. Em uma conversa descontraída, a atriz revelou bastidores da peça, destacou momentos da própria carreira, brincou com a máxima de que o Ceará não tem negros e não fugiu – sequer se esquivou – de comentar a postura flagrantemente golpista do candidato derrotado na eleição presidencial do Brasil deste ano.

Com 35 anos de carreira e quase 48 anos de vida, a carioca não quer interpretar mais apenas cenas sobre ódio, desentendimentos, violências, traições ou sobre a eterna luta das pessoas negras por dias melhores. Ela quer encenar questões da humanidade.

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Taís Araújo lotou o Cineteatro São Luiz, em Fortaleza
Casa lotada na primeira noite de Taís Araújo em “Mudando de pele”. Hoje (30/10) tem mais


Confira a íntegra da entrevista.
****

CEARÁ CRIOLO: Esse é seu primeiro espetáculo solo e desde o nome a gente percebe um marcador racial. Ser uma peça sobre mulher negra que problematiza a própria existência e decide romper com os acordos sociais foi uma escolha? Foi intencional?

TAÍS ARAÚJO: Foi. Foi, porque quando eu pedi a pesquisa de texto foi assim: “quero que seja escrito por uma mulher negra contemporânea”. Eu queria que fosse uma história contemporânea também, mas que a gente falasse além da dor e da sobrevivência. Porque eu quero falar além da dor e da sobrevivência! Então, de alguma forma, sim [foi intencional]. Mas engraçado. Quando a Amanda [Wilkin] escreve o Mudando de Pele, ela não necessariamente está falando da pele negra. Ela tá falando da necessidade de mudança, seja de quem for, entendeu? Então, a resposta é sim e não. Sim, eu queria fazer um texto de uma mulher negra. E não, porque a peça não fala sobre isso exclusivamente. A peça fala pra quem tá vivo. Porque a vida o tempo inteiro exige da gente mudanças.

 

Taís Araújo concede entrevista ao jornalista Bruno de Castro
Taís Araújo falou com o Ceará Criolo minutos antes de fazer o último ensaio para a apresentação em Fortaleza


CEARÁ CRIOLO: Mas a questão racial atravessa o enredo…
TAÍS ARAÚJO: Sim. É sobre uma pessoa preta. É sobre ela. É sobre quem ela é. Isso se apresenta algumas vezes na peça.

CEARÁ CRIOLO: Tendo a peça essa característica e sendo você uma mulher negra que há muito tempo faz questão de se posicionar publicamente como uma mulher negra, te interessa conhecer a conjuntura social e racial dos lugares onde você se apresenta? Porque a Taís do Rio não seria a mesma Taís se tivesse nascido em Salvador, que não seria a mesma no Amazonas…

TAÍS ARAÚJO: Não seria a mesma dentro do Rio de Janeiro mesmo. Se eu tivesse nascido na Maré, não seria a mesma Taís que foi criada no Méier, entendeu? Já é outra realidade. E as realidades me interessam. E as realidades da população negra me interessam muito. Tanto do nosso país quanto do mundo. Não é à toa que sempre que eu viajo pra algum lugar eu falo assim: “tá, legal. Londres é ótimo. Mas onde é que estão as pessoas pretas daqui? Como elas construíram essa cidade? Como é que começou?”. Eu fiz muita pesquisa em julho, até porque quis encontrar a Amanda, autora da peça, e fiz uma viagem toda voltada pra isso. Mas isso a gente faz com tempo, né? Não dá pra eu chegar aqui, ficar um dia e meio em Fortaleza e querer descobrir tudo [risos]. Não dá [risos].

CEARÁ CRIOLO: Mas você conhece algo da realidade racial daqui? Não digo nem por conta da peça, mas da tua vida mesmo…

TAÍS ARAÚJO: Não. Nada. Nada, nada, nada, nada, nada.

CEARÁ CRIOLO: Aqui há uma narrativa ainda muito forte de que o Ceará aboliu primeiro a escravidão porque não tinha negros e não tem negros até hoje…

TAÍS ARAÚJO: Mas você é daqui! (risos)

CEARÁ CRIOLO: Então…(risos)… Eu faço essa provocação no sentido de saber se você acha que isso pode influenciar o modo como as pessoas compreendem a peça… Ou te impacta de alguma forma sobre como você conduz a mensagem no palco…

TAÍS ARAÚJO: A peça tem questões negras explícitas que talvez pessoas brancas não entendam, desde piadas a questões mais sérias. Mas tem coisas na escrita da Amanda que conseguem atingir todo mundo. Ela consegue atingir negros e não negros. Se é uma pessoa um pouco mais letrada, um pouco mais sensível, óbvio, ela vai entender o que tô falando. Mas tem gente que não entende nada. Acho que vai ter gente que não vai entender certas coisas. Mas tem coisas que só pessoas com vivência e letramento vão entender. E quem não entender também vai entender a peça inteira. Porque a peça é pra todo mundo. Eu nem gosto de dizer isso, porque o que é pra todo mundo não é pra ninguém, né? Mas ela não tem uma temática só.

Tem gente que vai se identificar com questões do mercado de trabalho, por exemplo. Aí, isso vai atingir homens e mulheres em lugares muito diferentes. E as pessoas pretas em lugares mais diferentes ainda. Tem gente que vai identificar a relação da Mildred, que é uma mulher de 90 anos, com a Mayah, que é uma mulher de 40 anos, e vai achar familiar porque vai lembrar de uma tia, da vó… Quem tem uma relação interracial, em algum momento vai achar que o ex-namorado da Mayah é branco. A gente não diz que é, mas a pessoa pode pensar. Então, talvez, a população branca problematize de um jeito e a população preta receba de outro. É uma peça que tem muitos assuntos. E assuntos que tocam a todos, só que tocam de formas diferentes.

Taís Araújo fala com o jornalista Bruno de Castro

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CEARÁ CRIOLO: E toca também de forma geracional, né, porque há três personagens em momentos diferentes da vida… Quando você olha pra sua vida, Taís, nesses 35 anos de carreira, como você hoje encara a Taís que aos 16 anos protagonizou Xica da Silva, por exemplo? Era um letramento diferente?

TAÍS ARAÚJO: Nossa! Eu acho que é uma trajetória muito bonita. Mas se você pegar, por exemplo, a revista Raça de 1996 eu falo praticamente a mesma coisa que eu falo hoje, tá? O que tem é que, obviamente, era uma menina de 17 e hoje eu sou uma mulher de quase 48 anos. Eu não tinha lido tudo o que eu li. Eu não tinha organizado o pensamento do jeito que eu organizo hoje. Mas eu não era uma menina de 17 anos alienada. Não era. Eu não tinha o conhecimento que eu adquiri depois. Talvez, eu não fosse tão escutada. Eu tava na Raça, não na Caras. Ou, talvez, até estivesse, mas com outra abordagem.

CEARÁ CRIOLO: Saindo um pouco da peça, Taís, você, nos últimos dias, se posicionou publicamente a favor da democracia. Que leitura você faz da situação agora, com o candidato derrotado fora do país e se declarando presidente eleito?

TAÍS ARAÚJO: Ahhh, a gente já entendeu, né? A gente já aprendeu com o [deputado federal André] Janones que não dá pra engajar, né? Então, não é pra falar. É pra falar do que a gente fez, que foi muito lindo. Se tiver que engajar alguma coisa, é o que o povo brasileiro fez. E a conquista que a gente teve. Porque é a vitória do povo brasileiro contra os bilionários, contra a big techs, contra o mundo. Contra um mundo poderoso e avassalador que poderia eclipsar e causar um tsunami em cima da gente. E o povo brasileiro não permitiu!

Isso é o mais lindo. É disso que a gente tem que falar. É isso que a gente tem que fortalecer: essa onda que a gente foi pra rua e conseguiu segurar na unha o que a gente conquistou, que é a manutenção da nossa democracia. É sobre isso que a gente tem que jogar luz. É sobre isso, nada mais. É sobre como o povo tem poder. Porque a gente vai precisar disso, inclusive, nos próximos quatro anos. E mais quatro e mais quatro e mais quatro e mais quatro… A gente precisa engrossar o caldo do poder do povo. Do povo na rua, lutando pela democracia brasileira!

Taís Araújo recebe livros do jornalista Bruno de Castro
Ao fim da entrevista, Taís Araújo recebeu livros de presente

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Bruno de Castro

Comunicólogo e mestre em Antropologia. É especialista em Comunicação e Jornalismo Político e em Escrita Literária. Também tem MBA em Comunicação e Marketing em Mídias Digitais. Foi repórter e editor dos jornais O Estado e O POVO, correspondente do portal Terra, colaborador do El País Brasil e assessor de órgãos públicos. Venceu 19 prêmios em diversas áreas. É agente de linguagem simples e autor de oito livros. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura com o livro escrito em homenagem à mãe.

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