Elphaba é parte de um filme com bilheteria de R$ 6,1 bilhões. “Wicked” revela a força da bruxa verde e levou Cynthia Erivo, atriz negra britânica, à indicação de Melhor Atriz no Oscar 2025
Era 2007. Minha preocupação era acordar cedo, arrumar a cama, tomar banho, o café que mainha deixava pronto e ir para a escola. Depois da aula, eu fazia a tarefinha de casa, brincava e, mais tarde, assistir televisão era um rito quase sagrado. Era algo mágico…
Como uma criança nascida no fim dos anos 90 e que cresceu nos anos 2000, vivi a televisão como uma amiga. Assisti muito à TV Cultura. E um dos desenhos que mais me encantava era “O Mágico de Oz”. Baseado no romance infantil “O Maravilhoso Mágico de Oz”, escrito pelo norte-americano L. Frank Baum e publicado originalmente em 1900, o desenho era exibido pelo Canal Futura. Dorothy Gale era a menina perdida num mundo encantado, tentando voltar para casa. Ela era a protagonista da animação, que, ao lado de seus fiéis companheiros – o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão -, seguia pelos tijolos dourados em busca do Mágico de Oz. Queriam que seus desejos mais profundos fossem
ouvidos.
Mas o caminho não era calmo. Sempre aparecia ela: a Bruxa do Oeste, de pele verde. A bruxa má. Do outro lado, havia Glinda, a Bruxa do Norte, a boa e loira, que os ajudava ao longo da jornada. Eu adorava ver o bem vencer o mal e me divertia quando a bruxa verde se dava mal.
O musical que mudou o rumo da narrativa
Em novembro de 2024, a história ganhou nova roupagem. O filme “Wicked: Parte 1” movimentou US$ 634,4 milhões (R$ 6,1 bilhões) no mundo. Um musical grandioso, exalando emoção, embalado por vocais arrebatadores. No centro, a história não contada de Elphaba, a bruxa verde, e Glinda, a bruxa boa, interpretada pela artista Ariana Grande.
A trama mergulha no início da amizade entre as duas, na Universidade de Shiz, e revela como seus caminhos se afastam após um encontro com o Mágico de Oz. O filme dividiu críticas e recebeu 10 indicações ao Oscar. Entre elas, a de Melhor Atriz para Cynthia Erivo, que deu corpo, voz e alma à complexa Elphaba.

Uma atriz negra, uma bruxa verde e a força de uma voz
Cynthia Erivo é uma mulher negra. Atriz, cantora e compositora britânica, filha de pais nigerianos, nascida no Reino Unido. Uma artista de múltiplos talentos: já venceu um Emmy, um Grammy e um Tony. Também recebeu indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro. Parte de suas conquistas veio com o musical “A Cor Púrpura”, na Broadway, em
2015.
Mas não foi apenas sua técnica vocal ou presença cênica que me impactaram. Sua Elphaba me atravessou. Me levou, ao fim de quase três horas de filme, a pensar: e se a pele verde da bruxa for uma metáfora para o racismo?
A cor da pele e a cor da dor
Lembro de Sueli Carneiro: “Entre direita e esquerda, sou negra”. Filósofa, ativista, uma das Mais Velhas na luta contra o racismo no Brasil. Ela nos lembra que nossa pele é política e, mais do que isso, é ela que nos identifica em um país estruturalmente racista como o nosso.
A Elphaba de Cynthia sofre pela cor da pele. Desde criança, foi motivo de risos, medo e rejeição. Na Universidade de Shiz, sua pele verde e seu cabelo viram motivo de chacota, de segregação. E, mesmo assim, ela se ergue. Defende os animais falantes, perseguidos por serem diferentes, enjaulados por ousarem existir. Sua empatia é tamanha quanto sua raiva das violências provocadas pela diferença.
É nesse ponto que o filme sugere algo mais: o poder de Elphaba, sua magia, parece ter origem justamente na pele que todos temem. A pele que machuca e que também liberta. Minhas memórias de criança assistindo às aventuras de Dorothy e seus amigos seguem ocupando um lugar afetivo dentro de mim. Mas “Wicked: Parte 1” me provocou. Me fez humanizar a bruxa verde. Me fez perguntar: será que ela era má mesmo? Ou só estava com raiva? Será que foi discriminada? Injustiçada?
Será que essa história poderia falar sobre colonização, mesmo em um mundo encantado? E se o Mágico de Oz for, no fundo, um colonizador? Quem é o verdadeiro vilão dessa história? A ficha caiu como um tijolo dourado: o filme, pode falar sim, sobre racismo. E me atingiu fundo… O que nós, pessoas negras: alvos de uma desumanização histórica, sistemática e persistente, fazemos com a dor e a raiva provocadas por sermos violentadas por causa da nossa “pele verde”?
Elphaba tenta o tempo inteiro ser aceita. Quer ser útil, mostrar valor. Quantas vezes nós, pessoas negras, nos colocamos nesse lugar? Quantas vezes precisamos provar que somos dignos de estar onde estamos? Quantas vezes servimos, nos anulamos, nos ferimos, para sermos vistos como “bons” ou minimante “aceitos”?

Mas Elphaba entende, ao final, que precisa mais do que aceitação: precisa de liberdade. Sua pele verde, curiosamente, está ligada à força que carrega. Sua magia vem daquilo que todos tentaram apagar. E quando ela decide canalizar sua raiva encontra não só poder, mas um novo caminho.
Talvez Elphaba tenha algo a nos ensinar. Que possamos explorar todo o poder que nossa pele carrega. Que, da dor, possamos extrair magia ou, melhor dizendo, axé: reverenciando a magia ancestral vinda de África e plantada no Brasil. E que esse axé nos leve à liberdade.
Não sou cinéfilo nem crítico de cinema, mas essa narrativa me atravessou e confesso ter assistido ao filme apenas este ano. Sinceramente, trouxe à tona feridas abertas pelo racismo. Ver isso num musical, numa releitura de um romance infantil, me encheu de sentimentos difíceis de nomear. Fez-me ver a bruxa verde com olhos novos.
No fim, isso tudo é apenas uma interpretação minha. Mas lhe questiono novamente: O que fazemos com a dor e a raiva geradas pela desumanização da nossa “pele verde”?
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Doutorando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará (PPGCOM/UFC). Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e graduado em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela mesma instituição.
