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23 de Julho, 2021
Aqualtune Carla Carniel Destak

(Crédito da imagem: Carla Carniel/Destak)

Aqualtune: princesa guerreira no Congo, líder no Brasil

Resultado de imagem para aqualtuneNo Carnaval das escolas de Samba de 2019, tanto a Mancha Verde, em São Paulo, quanto a Mangueira, no Rio de Janeiro, carregam mais do que o título de campeãs. Ambas levaram pra avenida o orgulho do povo negro. Falaram da África, dos orixás, das histórias não contadas, de Dragão do Mar, de Aqualtune e de tantos outros heróis e heroínas deixados de lado na história oficial do Brasil.

A princesa cantada pela Mancha Verde é Aqualtune Ezgondidu Mahamud, filha de um Rei no Congo. Alguns registros falam em um “não identificado rei”, enquanto outros falam no rei Antônio I (Nvita-a-Nkanga). Durante a Batalha de Ambuíla, entre o Reino de Portugal e o Reino do Congo, Aqualtune teria liderado um batalhão de dez mil homens. Após a derrota, teria sido enviada em um navio negreiro para o forte de Elmina, em Gana.

De lá, foi enviada para o Recife. Tentou fugir, mas não obteve sucesso e, assim, foi vendida ao senhor do engenho de Porto Calvo, no leste de Alagoas. Lá, por conta da beleza, foi determinada para a função de reprodução. Ao saber da existência de um reduto de africanos livres na Serra da Barriga, em Alagoas, organiza uma fuga e leva consigo mais de 200 pessoas.

“Este tinha uma grande dimensão territorial, com inúmeros povoados fortificados, onde os ex-escravos preparavam a organização de um estado negro naquelas terras. Mantinham as tradições africanas e seus ritos originais; assim, o governo de cada localidade era dado aos que em sua terra tinham sido chefes. Aqualtune, sendo uma princesa, teve reconhecida sua ascendência e recebeu o governo de uma aldeia, onde cada mocambo organizava-se de acordo com suas próprias regras”, informa o Dicionário Mulheres do Brasil – de 1500 até a atualidade. Os filhos Ganga Zumba e Ganga Zona ficaram conhecidos pela coragem e liderança, tendo o primeiro liderado o quilombo por muitos anos. A filha Sabine deu a luz a Zumbi, mais tarde reconhecido como um dos maiores heróis do povo negro brasileiro.

De acordo com Sandra Santos, no livro Brincando e Ouvindo Histórias, material voltado para docentes elaborado pelo Núcleo de Apoio à Pesquisas em Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), da Universidade de São Paulo (USP), a princesa ajudou a erguer, no local, o que seria um império em meio à selva: o Quilombo dos Palmares. “Recebeu uma aldeia para comandar não apenas porque tinha ascendência nobre, mas porque conhecia a arte da guerra e da estratégia. Foi e continuou sendo uma grande líder”, explica.

Sobre a morte da princesa guerreira, pouco sabemos. Enquanto uns dizem que ela morreu queimada durante um ataque dos bandeirantes, outros afirmam que ela conseguiu fugir. Essa falta de informações é comum à infância de Aqualtune e à vida enquanto princesa, ao seu pai, suas filhas e também à atuação em Palmares. Em alguns relatos, a importância dela é destacada por ser “a avó de Zumbi dos Palmares”. Em outros, tratada como o “mito de Aqualtune”.

Entendemos a dificuldade em reunir informações sobre uma personagem do século XVII. Que novas pesquisas sejam realizadas e a história da princesa guerreira possa ser conhecida por cada vez mais pessoas.

biogrficos aqualtune“Eu só acho um absurdo
Porque nunca ouvi falar
Na escola ou na tevê
Nunca vi ninguém contar
A história de Aqualtune
E o que pode conquistar.

Uma história como a dela
Deveria ser contada
Em todo livro escolar
Deveria ser lembrada
No teatro e no cinema
Que ela fosse retratada.

Mas eu tive que sozinha
Sua história então buscar
Foi porque ouvi seu nome
Uma amiga então citar
E por curiosidade
Na internet procurar.

É por isso que eu escrevo
E o cordel quero espalhar
Pra que mais gente conheça
E também possa contar
Tudo que Aqualtune fez
Pois é tudo de inspirar.

A história do meu povo
Nordestino negro forte
É tão rica e importante
É vitória sobre a morte
Pois ainda do passado
Modificam nossa sorte.

Quando penso em Aqualtune
Sinto esse encorajamento
A vontade de enfrentar
De mudar neste momento
Tudo aquilo que é racismo
E plantar conhecimento”.

(Trecho do cordel “Aqualtune”, de Jarid Arraes)

(Crédito da imagem no topo: Carla Carniel/Destak)

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