Muito antes de o empreendedorismo virar política pública e promessa de ascensão social, as ganhadeiras já ocupavam, no período colonial e imperial, as ruas das cidades brasileiras como protagonistas do comércio urbano. Eram mulheres negras escravizadas importantes na história da cultura negra no Brasil, ainda pouco ensinada nas salas de aula, que ocuparam lugar de destaque no chamado “ganho de rua”, principalmente por meio do pequeno comércio.
Com frequência, a trajetória dessas mulheres é retomada para destacar a longevidade do protagonismo feminino e negro nas atividades comerciais do país. As ganhadeiras sustentaram famílias, compraram alforrias e ajudaram a abastecer centros urbanos às margens do Atlântico, mesmo sob as violências da escravidão e do racismo estrutural.
Sueli de Almeida, doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco, explica que essas trabalhadoras buscavam garantir a sobrevivência cotidiana e acumular recursos, parte deles destinados aos senhores. Ainda assim, o trabalho das escravas ganhadeiras, como se chamavam, sustentou circuitos de troca, fortaleceu o comércio costeiro e consolidou o funcionamento econômico das cidades portuárias. Exigiam, ainda, segundo a historiadora Maria Odila Dias, das ganhadeiras uma espécie de “faro para o negócio”, ou ser “muito ladina”, isto é, astuta, que falasse português e, evidentemente, dominasse o serviço.
As Ganhadeiras de Itapuã
“Morena você se lembra… ô lavadeira
Da noite que se passou… ô lavadeira
Madrugada madrugou… ô lavadeira
E o sereno serenou… ô lavadeira”
Interpretado pelo Coral das Lavadeiras de Almenara e por Carlos Farias, O Canto das Lavadeiras ecoa como herança ancestral. Na voz das mulheres que lavavam roupas às margens dos rios, a canção revela o orgulho do trabalho exercido e, ao mesmo tempo, a melancolia que atravessa a memória de quem viveu jornadas marcadas pelo esforço e pela resistência.
O mesmo ritmo acompanhava as mulheres de ganho de Itapuã, bairro localizado em Salvador, Bahia. Ao amanhecer, seguiam com o tabuleiro equilibrado na cabeça, vendendo alimentos e outros produtos pelas ruas da cidade. Ainda de acordo com Sueli Almeida, a trajetória dessas mulheres remonta ao início do século XIX, quando o regime escravocrata estruturava a vida econômica e social do país. Caminhavam descalças, percorriam longas distâncias até o centro e, quando a maré alta interrompia o caminho, não desanimavam; cantavam enquanto esperavam a água baixar.
Como forma de preservar essa história, foi criada em 2004 a Associação Cultural As Ganhadeiras de Itapuã, iniciativa coletiva voltada à valorização da identidade cultural do bairro e ao fortalecimento de suas tradições populares. A partir desse movimento, conforme conta em entrevista ao podcast Itapuã Por Elas o diretor musical do grupo Amadeu Alves, nasceram As Ganhadeiras de Itapuã, grupo que busca resgatar e fortalecer a riqueza da identidade cultural do bairro, com base na lembrança das tradições e festejos que marcaram a história desta antiga vila de pescadores.

Entre as canções do repertório está “Prelúdio das Águas”, em que entoam: “Ô lavadeira que lava no areal / Ô lavadeira que lava no areal / Faz sol meu Deus pra lavadeira lavar / Faz sol meu Deus pra lavadeira lavar”. Ao retomar o canto das lavadeiras, a música reafirma a memória dessas mulheres e conecta passado e presente na construção da identidade cultural de Itapuã.
Ainda como parte desse esforço de preservação, em 2021 foi inaugurado o Museu Virtual Casa de Ganho, plataforma digital dedicada a registrar a trajetória das ganhadeiras e a difundir a história do samba e das tradições culturais do bairro.
Por meio do museu, é possível fazer uma imersão em marcos importantes na história do bairro de Itapuã a partir de um acervo repleto de registros exclusivos das Ganhadeiras, como as primeiras apresentações e encontros com personalidades memoráveis, como a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, que faleceu em 2018, aos 93 anos.
O Museu Virtual também permite conhecer a história do Abaeté e das antigas negras de ganho do período colonial que se tornaram o primeiro símbolo representativo do empoderamento feminino no país.
As marcas deixada pelas Ganhadeiras
As marcas deixadas pelas Ganhadeiras ultrapassam os registros históricos e as fotografias do século XIX. Estão na organização do comércio de rua, na presença de mulheres negras nas feiras livres, nos tabuleiros de acarajé, nas bancas improvisadas que sustentam famílias nas periferias urbanas.
Exemplo disso é a Feira de São Joaquim, localizada no bairro de Água de Meninos, em Salvador, considerada um importante ponto de encontro para baianos e turistas que visitam a cidade. Ao analisar a presença feminina nesses espaços, Michelle Perrot, no livro Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros, observa que as feirantes de Água de Meninos e de São Joaquim podem ser compreendidas como herdeiras das antigas ganhadeiras, uma vez que, no desempenho de suas atividades nas ruas e feiras, conquistavam margens possíveis de autonomia.
Em Salvador, Recife e Rio de Janeiro, mulheres negras ainda atravessam madrugadas para montar barracas em feiras livres ou equilibrar caixas térmicas nas calçadas. Muitas são chefes de família e encontram no comércio informal a principal fonte de renda, repetindo, em outro tempo histórico, a lógica de sobrevivência e resistência que marcou a trajetória das ganhadeiras.
Se ontem precisavam ser “ladinas”, como registrou Maria Odila Dias, hoje enfrentam outras formas de controle e precarização: informalidade persistente, dificuldade de acesso ao crédito, violência urbana e o racismo estrutural que ainda delimita quem pode ocupar determinados espaços da cidade.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, no segundo trimestre de 2024, 45,6% das mulheres negras ocupadas estavam em situação de informalidade. A proporção é superior a observada entre mulheres não negras. O dado evidencia que o comércio informal permanece, para muitas, não como escolha ideal, mas como estratégia de sobrevivência diante de desigualdades históricas que atravessam raça, gênero e classe.
PARA MAIS SOBRE A MULHER NEGRA, CLIQUE AQUI.
TEXTO DE LUAN PAZZINI


O Ceará Criolo é um coletivo de comunicação de promoção da igualdade racial. Um espaço que garante à população negra afirmação positiva, visibilidade, debate inclusivo e identitário.
