18 de Abril, 2021
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Beyoncé ganhou este ano o 28º Grammy da carreira

Por que não devemos romantizar o discurso de Beyoncé no Grammy

É uma conta simples. Se tem hoje 39 anos e trabalha ininterruptamente desde os nove, como revelou na cerimônia deste ano do Grammy, Beyoncé levou, portanto, três décadas para tornar-se a mulher com mais troféus na história do prêmio. Trinta anos. Isso merece nossa atenção.

Merece porque, em meio à alegria de ter uma negra no topo de uma das honrarias mais importantes do mundo artístico, a gente desconsidera ou romantiza um aspecto que coloca a Beyoncé do mundo pop, a diva inabalável, a quase deusa imortal, no mesmo patamar de muita mulher comum: o quanto ela precisou sacrificar fases fundamentais da vida para hoje, amadurecida, ter algum conforto.

Digo “algum conforto” não por esquecer o quanto ela é rica. Mas por entender que, mesmo sendo milionária, nem de longe a fortuna de Beyoncé se iguala a de homens famosos, inclusive negros. O machismo a impede de avançar. Ainda há espaços no mundo dos negócios nos quais só a voz masculina importa. E mulheres são, em pleno 2021, absurdamente tratadas apenas como um enfeite. Às vezes, nem isso.

É perigoso não levar em conta a gravidade de uma menina de nove anos já trabalhar arduamente para ser famosa enquanto devia dedicar-se exclusivamente aos estudos. A ser criança. Do mesmo modo, é preocupante romantizar o fato de uma jovem negra abdicar de fases fundamentais da infância e da juventude por estar envolva na preocupação de qual música de sucesso lançar, qual videoclipe gravar, qual evento ir, qual entrevista conceder…

A rotina de uma menina negra não deve ser essa. Ela precisa ser o que é: uma menina. Ou adolescente, que seja. Nunca uma mulher precoce. Porque é nisso que elas são transformadas. A indústria da música, em especial, impõe esse perfil. Basta olhar a trajetória de Beyoncé para compreender como foi exatamente assim.

Nesse lugar, do início precoce de uma vida resumida ao trabalho, Beyoncé se iguala às milhões de negras do mundo. A diferença é o que essas milhões de negras pelo mundo fazem. Em vez de preocuparem-se com qual música vão lançar, ocupam-se de qual próxima casa farão faxina. No lugar de decidirem qual videoclipe gravar, escolhem entre carne ou frango pro almoço (isso quando o salário permite proteína nas refeições). São questões mais viscerais. De sobrevivência mesmo. Mas não deixam de ser uma renúncia a fases da vida que deveriam ser marcadas por outras escolhas, mais inocentes e menos determinantes.

Beyoncé tornou-se mundialmente famosa e assustadoramente rica pelo talento artístico, no mundo de hoje supervalorizado em termos econômicos principalmente por ser ume engrenagem grande de fazer dinheiro. Mas até aí há um porém. Porque, repito, até ser o que é agora, a tal mulher mais premiada na história do Grammy, foram três décadas. E nós sabemos o quão mais precocemente artistas brancos, notadamente homens, são ovacionados em concursos assim.

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Ela levou 30 anos para conquistar algo que quase todas as artistas negras contemporâneas a ela vão tomar uma vida inteira tentando e não vão conseguir. Porque o machismo não deixa. O racismo não deixa. A LGBTQIA+fobia não deixa. A conjuntura é toda desfavorável a elas. E Beyoncé acaba sendo uma exceção à regra que serve tão somente para confirmar a regra do quão masculino, branco, ocidental, cristão, cisheterossexual e (cada vez mais) jovem é o perfil cultuado como sendo o do ser humano ideal, universal.

Sim, o lugar de Beyoncé é de total privilégio em comparação às mulheres negras do mundo real, da vida que acontece fora do planeta dos famosos, daquelas que pegam ônibus lotado, expõem-se ao coronavírus, vivem de salário mínimo e são diariamente violentadas (ou mortas) pelos companheiros e pela sociedade (que quase sempre lhe nega socorro). Mas esse privilégio nos mostra o quão ilusória é a ideia de igualdade que fazemos (e somos induzidos a isso) desse planeta também ilusório dos famosos. Nele, a lógica perversa do racismo, do machismo, da LGBTQIA+fobia e de tantas outras formas de exclusão também funciona. Tanto quanto aqui. E, por lá, também vai ser difícil uma mulher negra que cultua suas raízes ter algum destaque.

Romantizar ou desconsiderar a precocidade de Beyoncé no trabalho é tratar como normal que mulheres negras – famosas ou não – abram mão de um período essencial da vida. Aquele período no qual compreendemos referências (quando elas existem, por óbvio), consolidamos emoções (boas e não tão boas), descobrimos a magnitude dos nossos corpos (e nos assustamos com isso), entendemos as distinções dos caminhos e decidimos, mesmo que na superfície, qual rumo desejamos seguir profissionalmente.

Beyoncé se coloca agora, e só agora, mulher já feita e com três filhos no mundo, no papel de artista com a possibilidade de se dar ao luxo de respeitar o próprio tempo. De reduzir a velocidade das coisas. De não ceder à pressão do mercado por uma nova música. E o faz cultuando – tardiamente, diga-se – uma ancestralidade negra bonita e baseada na qual tenta oferecer à família algum conforto e referência que pode não ter tido quando era jovem e estava ocupada demais para ter tempo pra pensar nisso tudo.

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